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sexta-feira, 8 de julho de 2016

O Jovem e o Hinário

Pr. Renato Brito
Culto de domingo à noite. Começa o tempo de adoração. Os cânticos são entoados com fervor e emoção. Uma leitura das Escrituras é feita. É dada a palavra ao pastor para que ele dê os avisos. Mais uma oração é feita pelo dirigente. Ouviu-se uma bela música especial. Depois disso o dirigente anuncia: “agora vamos abrir os nossos cantores cristãos para o hino 396”. Então é perceptível o desinteresse daqueles irmãos que sentam, geralmente, na última bancada da Igreja. Alguns até deixam transparecer seu desgosto com a escolha mais tradicional com uma interjeição dita apenas para si: “Eita! Lá vem o bendito!”.
É possível que isto não aconteça na sua Igreja, mas o que corriqueiramente acontece com o relacionamento entre o Jovem e o hinário é um distanciamento e uma inimizade. Jovens, de um modo geral, não gostam dos hinos e muito menos gostam dos hinários. Costumamos não gostar mesmo das coisas e pessoas que não conhecemos muito bem. As Igrejas evangélicas têm se distanciado dos hinários cada vez mais. O uso de novas tecnologias tem contribuído para este distanciamento. O que mais, porém, tem feito com que os hinários fiquem cada vez mais relegados às estantes das casas dos crentes é o uso de um repertório que se origina não de uma fonte escrita, como o hinário é, mais de uma fonte em áudio e vídeo, providenciada pela música gospel brasileira.
Nesta mensagem, gostaríamos de promover um relacionamento mais amigável entre o jovem e seu hinário. E para promover este bom relacionamento, vamos seguir o seguinte roteiro: vamos dar uma definição ao que nós chamamos hinário; depois disso, vamos observar alguns dados bíblicos que nos mostram que a organização da música congregacional por hinário era algo praticado nos tempos bíblicos; por fim, vamos destacar os grandes valores que um hinário possui.
Espero que depois deste estudo, você, como jovem cristão, possa ter uma visão mais equilibrada e aberta a respeito dos hinários evangélicos, como uma fonte mais salutar do que a música gospel popularizada pela mídia.
Precisamos ter uma boa definição do que é um hinário.
1) O hinário é uma compilação organizada de músicas sacras congregacionais reunidas em uma só publicação, organizada em temas, alistadas numericamente para facilitar o manuseio, podendo conter a música escrita ou não.
a) Música sacra é a música escrita para ser usada dentro dos cultos cristãos.
b) Música congregacional é uma música que pode ser cantada por pessoas que não tem uma formação musical profissional.
c) Na História da música sacra congregacional evangélica nós poderíamos alistar diversos estilos: o coral alemão, os hinos do período áureo, os hinos do movimento de Oxford, as canções evangelísticas, os cânticos da EBD, os cânticos de louvor e adoração, etc. Toda esta variedade de estilos é encontrada dentro dos hinários modernos.
d) Como um hinário é uma publicação de músicas selecionadas, há sempre um editor por trás de um hinário.
i) Este editor pode ser uma pessoa ou um grupo de pessoas que aceitou o projeto, custeando-o inclusive financeiramente.
ii) O primeiro hinário de músicas evangélicas a ser publicado no Brasil, conhecido pelo nome Salmos Hinos, foi custeado e editado pelo casal Robert e Sarah Kalley, missionários da Igreja Congregacional e maiores responsáveis pela instituição dos hinários nas Igrejas brasileiras. O Salmos e Hinos foi publicado 1861. Todos os hinários que nasceram depois do Salmos e Hinos usaram muitos dos hinos traduzidos e produzidos pelo casal Kalley.
iii) O Cantor Cristão foi o pastor Salomão Ginsburg e, posteriormente, o chefe do departamento de música da JUERP, Bill Ichter. O Cantor Cristão foi publicado em 1891 e foi o segundo hinário a ser publicado no Brasil.
iv) O Hinário para o Culto Cristão, que foi publicado no ano de 1990, surgiu de um esforço em conjunto de comissões especializadas formadas sob a tutela da CBB. Contém muitos hinos dos hinários anteriores, mas possui muito material original, o que seria de se esperar de um hinário publicado recentemente.
2) Acredito que o grande idealizador do hinário foi Martinho Lutero.
a) Numa época em que, nas Igrejas cristãs, o cântico era vedado àqueles que não tinham sido consagrados ao ministério, Lutero entendeu que todos os crentes eram sacerdotes e que deveriam cantar durante os cultos como uma forma de edificação.
b) Para isso, era necessário obter músicas acessíveis para que todas as pessoas pudessem cantar e não somente os que tinham treinado para isso. Lutero mesmo compôs músicas e promoveu poetas e compositores que pudessem escrever músicas que teriam os elementos de uma música mais facilmente cantável e que fosse cantada na língua do povo e não no latim que era a língua oficial da liturgia cristã.
c) A filosofia de Lutero era que todo o crente deveria poder possuir sua própria cópia da Bíblia e um hinário que pudesse grifar as verdades cristãs através música.
d) Não somente Lutero, mas outros reformadores como João Calvino, fizeram muito para publicação de hinários que não somente seria m usados nos cultos da Igreja como também seriam usados em casa, na família.
e) Podemos afirmar que os hinários fazem parte essencial da História das Igrejas Evangélicas começando da Reforma protestante iniciada em 1517 na Alemanha. Podemos dizer que é muito difícil, a luz de toda esta História, imaginar que a Igreja que herdou toda aquela cultura venha deixar de lado o uso dos hinários por causa de fatores circunstanciais e menores.
3) Passemos agora a outra parte do nosso roteiro. Vejamos o que a Bíblia fala sobre a prática de compilar músicas congregacionais para o uso nos cultos de louvor a Deus nos templos ou nas Igrejas.
II. Devemos saber que a Bíblia dá evidências de que a prática editar hinários é correta.
1) O povo de Israel começou a escrever e guardar cânticos desde muito cedo na sua História como nação escolhida por Deu(Êxodo 15.1,20-21; Deuteronômio 31.14-21).
2) O livro dos Salmos é o grande exemplo de compilação de cânticos a serem entoados nos cultos (Salmos 72.20).
a) Numa época posterior o livro dos Salmos foi dividido em cinco grandes livros 1-41; 42-72; 73-89; 90-106; 107-150.
b) Apesar dessa divisão, é provável que o livro dos Salmos são a reunião de muitos hinários ou a edição final de vários grupos de composição. Pelos títulos dos Salmos, que são inspirados também, notam-se indicação de autoria ou de origem. Há os salmos de peregrinação (120-134), salmos de Asafe (50, 73-83) e os salmos dos filhos de Coré (42-49, 84,85, 87,88). Salmos 111-118 começam com a palavra “aleluia”, 138-145 começam com o título “de Davi”.
c) Essa divisão e organização nos mostra que o livro dos Salmos é um hinário organizado a partir de várias coleções de músicas a serem entoadas nos cultos do povo de Israel.
3) A Igreja cristã não deixou de compilar suas músicas para usá-las para adoração.
a) Temos o registro dos cânticos entoados por aqueles que presenciaram a maravilha da encarnação (Lc 1-2).
b) Temos evidência de que a Igreja usou também os salmos para adorar em seus cultos e introduziu outros estilos musicais na adoração (1 Coríntios 14.26; Efésios 5.19; Colossenses 3.16).
c) O livro dos Salmos foi utilizado bastante como fonte de teologia para a Igreja Cristã. Ele foi citado várias vezes como prova contundente da Vinda do Messias em Jesus de Nazaré.
4) Notamos portanto que a compilação de músicas para serem usadas no louvor sempre foi uma prática do povo de Deus e que esta é a essência de todo hinário. Vejamos agora a importância que os hinários têm.
III. É importante conhecer os grandes valores que os hinários têm para a edificação da fé cristã.
A. O hinário possui um grande valor musical
1) Um hinário possui uma grande variedade de estilos musicais reconhecidos nas diferentes tendências musicais da História da arte e grande variedade de cultura musical.
a) Nos hinários há música da Idade Média, do Barroco, do Classicismo, do Romantismo e da Música Moderna.
b) Nos hinários são encontradas músicas inglesas, americanas, alemãs, francesas, irlandesas, africanas, indianas, chinesas, japonesas, brasileiras, etc.
2) Há nos hinários músicas escritas pelos grandes mestres da música erudita e de músicos que possuíam grande formação, mas que se dedicaram inteiramente a música congregacional.
a) Há nomes como Bach, Haydn, Mozart, Beethoven, Schubert, etc.
b) Há grandes cristãos músicos como Louis Bourgeois, Clement Marot, Lowell Mason, Robert Lowry, Paul Philip Bliss, James McGranahan, Roselena Landenberger, etc.
3) Há nos hinários o emprego das mais variadas técnicas de composição de melodias, de harmonização, de arranjos para solos, duetos, coral e piano, em variados níveis de dificuldade e bom gosto.
B. O hinário possui um grande valor literário
1) Um hinário possui uma vastidão de poesia escrita nos padrões mais rigorosos da versificação e da métrica.
2) Cada poesia do hinário possui um ritmo e o rico emprego de diversas figuras de linguagem.
3) Muitos dos autores de hinos foram considerados grandes poetas da sua época, sendo reconhecidos dentro e fora da Igreja cristã por sua habilidade com a palavra. Dois bons exemplos disso são Isaac Watts e Fanny Crosby.
C. O hinário possui um grande valor histórico
1) Os hinários possuem um registro histórico considerável. Eles registram a produção literária e musical de épocas variadas, proporcionando a Igreja Cristã uma visão muito aguçada da sua História e dos seus heróis.
2) Cada hino possui o registro do seu poeta, compositor e tradutor (se houver), deixando claro o tempo em que cada um viveu, fazendo-nos situar cada hino no tempo e na História.
3) Além disso, o exemplo de vida de cada autor pode ser uma fonte de rica edificação em Cristo.
D. O hinário possui um grande valor doutrinário
1) Os hinários detêm poesias que representam bem cada doutrina ensinada na Igreja Cristã.
2) Os hinos falam dos atributos de Deus, da Criação, da Providência e do Plano de Deus. Falam da humilhação e da exaltação de Cristo. Falam da salvação, da eleição, regeneração, justificação e santificação. Falam da nossa luta contra o pecado e contra Satanás. Falam da vinda de Cristo e da nossa expectativa diante desta vinda.
3) Um hinário é organizado para tratar de todos estes temas doutrinários, de modo que se um cristão quer aprender mais sobre uma doutrina, ele pode recorrer a um hino para aprender esta doutrina mais fortemente.
Vimos então que o hinário é uma compilação organizada de músicas sacras congregacionais reunidas em uma só publicação, organizada em temas, alistadas numericamente para facilitar o manuseio, podendo conter a música escrita ou não. A prática de se registrar e agrupar músicas é uma prática que compartilhamos com o povo de Deus dos tempos do Antigo e do Novo Testamento. A Igreja Cristã, desde muito cedo, têm usado o livro de Salmos, o primeiro de todos os hinários, e tem ela mesma compilado suas próprias músicas. Um hinário possui grandes valores para a fé cristã. O hinário tem grande valor musical, literário, histórico e doutrinário. Temos deixado o uso de hinários, provavelmente, para o nosso próprio prejuízo. O hinário é daquelas coisas que foi criada no passado, mas que tem um valor tão grande que não pode ser deixado de lado como a roda, o livro e a batata frita. Para mim, o hinário ainda é melhor do que qualquer outra mídia, retroprojetor ou datashow. O hinário não é perfeito nem tem condições de atender a todas as necessidades do culto cristão na igreja ou nos lares, mas as outras novidades não são, racionalmente, melhores do que o hinário.Tenho uma dica para os jovens: compre um hinário. Custa o mesmo preço que um CD. Comece a usá-lo na Igreja se sua Igreja usa o hinário e comece a usá-lo depois da sua leitura bíblica diária. Comece cantando os hinos que você conhece. Depois, procurando aprender outros ou até lendo as poesias que falam de assuntos específicos. Garanto que depois de um tempo, aquele cara chato que você apenas conhecia de longe, mas não conseguia entender, vai se tornar um bom e inseparável amigo.
Pr. Renato Brito

terça-feira, 19 de abril de 2016

A Beleza dos Quadrinhos Cristãos no Evangelismo


Nate Butler

Enquanto existem todos os tipos de desenhos animados ou formatos de 'narrativa visual' que chamamos de quadrinhos ou graphic novels (conhecidos como mangábandes dessinées, ou Histórias em Quadrinhos em outras culturas), o meu favorito é folhetos. Algumas pessoas dizem que 'folheto' é a terminologia velha escola (o cartunista e pastor cristão Rick Bundschuh no Havaí criativamente chama seus folhetos de "Grab & Go" comics), mas a verdade é que um folheto em estilo cartoon bem trabalhado é lido. O visual dos desenhos atrai o leitor.
Folhetos são acessíveis, portáteis e revisáveis: fácil de distribuir, fácil para os destinatários levarem no bolso, e fácil de ler novamente mais tarde, sozinho ou com amigos e familiares. Folhetos também são relativamente baratos para comprar, tornando mais fácil para dá-los em campanhas de evangelismo sem ir a falência.
Aqui nos EUA, onde há convenções de quadrinhos na maioria das grandes cidades, a ideia de usar folhetos em quadrinhos nestes eventos para alcançar geeks e 'otakus' (amantes de quadrinhos e animação japoneses) é natural. Mas há outros lugares menos óbvios onde folhetos em quadrinhos podem e estão sendo usados.
Anos atrás, eu fui abençoado por ouvir o lutador de luta livre cristão George South falar em uma palestra na Comic Con no sul. Ao invés de gabar-se de alguma grande vitória que ele tinha experimentado em seu mundo de "circuitos de luta livre rústicos", George contou de uma derrota pessoal embaraçosa. Durante sua palestra, ele mencionou que os folhetos caseiros que deu após seus jogos de luta livre não foram bem recebidos.
Eu entendi porque no minuto em que os vi; eles eram desagradáveis com fotos preto e branco na capa e com texto de canto a canto das páginas. George compartilhou que as crianças rasgavam seus folhetos e jogavam em seu rosto ou pisavam e cuspiam neles - e nele! Bem, desde que George reveleu seu coração humilde em sua história, eu sabia que ele era o verdadeiro ideal. Então, depois, eu disse a ele que estávamos indo lançar um folheto que nenhuma criança jamais iria rasgar ou jogar fora novamente.
Eventualmente, nós criamos três folhetos coloridos em papel brilhante, desenhados em um estilo de quadrinhos de super herói. Com certeza, as crianças em seus jogos ficaram instantaneamente ansiosas para receber, ler e até mesmo guardar seus folhetos. Recentemente, George escreveu: "Esses três folhetos em quadrinhos tem sido distribuídos em todo mundo, das maiores arenas de luta livre até os menores ginásios escolares! Muitas escolas não me deixam dizer uma palavra sobre meu Salvador, mas eu posso ter certeza de compartilhar meus folhetos - cerca de 100 por semana - o número total só Jesus sabe!."
Um ministério de literatura internacional no Texas desenvolveu um folheto em quadrinhos para meninos pré-adolescentes. Eles usam robôs transformers para ilustrar o sacrifício de Cristo através da sua morte voluntária por um amigo pecador. Nós sabemos de pelo menos um grupo de jovens de uma pequena igreja que distribuiu cópias nos cinemas locais durante a semana de lançamento de Transformers 2.
Pessoalmente, acho que os melhores folhetos são os que contêm testemunhos pessoais. O estúdio COMIX35 está trabalhando com ex-detentos, que agora são evangelistas na prisão para contar suas histórias em um formato de cartoon. Estes folhetos não são só para os presos, mas eles são produzidos por escritores e artistas atualmente encarcerados. Um desses missionários na prisão é o músico Bobby McGee da ChristSong na Carolina do Norte. Seu folheto, "U-Turn", foi distribuído nas prisões em todo os EUA, tanto quando Bobby se apresentava em instalações prisionais como também através do correio. Bobby escreve periodicamente para contar de presos que foram salvos e disse: "nós os passamos à frente, ou os deixamos para trás, e eles sempre encontram o seu caminho para as mãos de quem Deus planejou para eles. Nós descobrimos que é a nossa ferramenta mais poderosa no ministério."
Talvez você esteja pensando: Testemunhar durante uma convenção de quadrinhos ou depois de um ringue de luta? No estacionamento de um teatro ou atrás das grades? Esses locais parecem um pouco exóticos para aqueles de nós que querem apenas chegar a um amigo na escola, um membro da família, ou o cara ao lado! Talvez, mas o princípio permanece o mesmo: Palavras e imagens trabalhando juntas são poderosas, porque elas tornam mais fácil para o leitor pegar e reter informações.
A linha de fundo é que os quadrinhos são excelentes ferramentas de testemunho. Eles podem explicar as verdades do evangelho com uma franqueza compreensível. Sua mensagem tem o potencial para permanecer com o destinatário muito tempo depois de suas palavras faladas serem apenas memórias distantes."

Tradução de Erick Henrique

Nate Butler (@NButlercomix35) é um ex-escritor Henson/Marvel/DC/Archie e artista. Atua com treinamento e consultoria em maneiras criativas de usar o meio de narrativa visual dos quadrinhos como ferramenta de evangelismo e discipulado. Ele é o presidente / CEO da COMIX35.

Texto original: 

domingo, 10 de abril de 2016

Boletim Missiológico Veredas - Artigos, entrevistas e mais sobre Missões


O Boletim Missiológico Veredas é uma publicação de caráter evangélico não denominacional, que tem por objetivo compartilhar conhecimentos, fomentar o debate e promover a reflexão missiológica entre cristãos brasileiros e de demais países lusófonos. Mesmo cientes da humildade desta publicação, almejamos com a presente iniciativa ajudar a suprir a incompreensível e também injustificável carência de publicações periódicas que tenham por foco específico a Missiologia em nossas fileiras protestantes.
Sendo assim, efetivamos aqui um clipping de artigos, resenhas, monografias, entrevistas e notícias de interesse para a igreja protestante e o seu esforço de reflexão & ação missionárias.
Nesta primeira edição, trazemos uma entrevista exclusiva com o missionário e escritor Jairo de Oliveira; o artigo O perfil do missionário em um mundo turbulento, do Dr. Jonatán Lewis, inédito em português; e ainda artigos de Wellington Barbosa e Bárbara Helena Burns. E as seções: Humor, Livros em Lançamento, Eventos, Gráficos e Mapas e Citações.

Editor: Sammis Reachers

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Boletim Missiológico Veredas #1

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domingo, 28 de fevereiro de 2016

Dietrich Bonhoeffer: Graça preciosa versus a Graça barata


A graça barata é a graça que nós dispensamos a nós próprios. A graça barata é a pregação do perdão sem arrependimento, é o batismo sem a disciplina de uma congregação, é a Ceia do Senhor sem confissão dos pecados, é a absolvição sem confissão pessoal. 

A graça barata é a graça sem discipulado, a graça sem a cruz, a graça sem Jesus Cristo vivo, encarnado. A graça preciosa é o tesouro oculto no campo, por amor do qual o homem sai e vende com alegria tudo quando tem; a pérola preciosa, a qual o comerciante se desfaz de todos os seus bens para adquiri-la; o governo régio de Cristo, por amor do qual o homem arranca o olho que o escandaliza; o chamado de Jesus Cristo, o qual, ao ouvi-lo, o discípulo larga as suas redes e o segue. 

A graça preciosa é o evangelho que há que se procurar sempre de novo, o dom pelo qual se tem que orar, a porta à qual se tem que bater. A graça é preciosa porque chama ao discipulado, e é graça por chamar ao discipulado de Jesus Cristo; é preciosa por custar a vida ao homem, e é graça por, assim, dar-lhe a vida; é preciosa por condenar o pecado, e é graça por justificar o pecador. Essa graça é sobretudo preciosa por tê-la sido para Deus, por ter custado a Deus a vida de seu Filho – “fostes comprados por preço” – e porque não pode ser barato para nós aquilo que para Deus custou caro. A graça é graça sobretudo por Deus não ter achado que seu Filho fosse preço demasiado caro a pagar pela nossa vida, antes o deu por nós.

A graça preciosa é a encarnação de Deus. A graça preciosa é a graça considerada santuário de Deus, que tem que ser preservado do mundo, não lançado aos cães; e é graça como palavra viva, a palavra de Deus que ele próprio pronuncia de acordo com seu beneplácito. Chega até nós como gracioso chamado ao discipulado de Jesus; vem como palavra de perdão ao espírito angustiado e ao coração esmagado. A graça é preciosa por obrigar o indivíduo a sujeitar-se ao jugo do discipulado de Jesus Cristo. As palavras de Jesus: ‘O meu jugo é suave e o meu fardo é leve’ são expressão da graça [...] A graça e o discipulado permanecem indissoluvelmente ligados.


Dietrich Bonhoeffer

sábado, 7 de novembro de 2015

Os Espelhos de Deus - Por Max Lucado

Ilha de Guam


G.R. Tweed olhou pelas águas do Pacífico para o navio americano no horizonte. Limpando o suor da selva dos seus olhos, o jovem oficial naval engoliu profundamente e tomou sua decisão. Esta poderia ser a única chance dele para fugir.
Tweed estava se escondendo na ilha de Guam durante três anos. Quando o exército japonês ocupou a ilha em 1941, ele se escondeu no denso matagal tropical. Sobreviver não havia sido fácil, mas ele preferiu o pântano a um campo de prisioneiros de guerra.
Tarde naquele dia, 10 de julho de 1944, ele percebeu o navio aliado. Ele correu para cima de uma colina e se posicionou em um precipício. De dentro da sua mochila, ele tirou um espelho de mão. Às 18:20 ele começou a enviar sinais em código Morse. Segurando a extremidade do espelho nos dedos, ele o inclinou de um lado para outro, refletindo os raios do sol em direção ao barco. Três sinais curtos. Três longos. Três curtos novamente. Ponto-ponto-ponto. Traço-traço- traço. Ponto-ponto-ponto. S-O-S.
O sinal chamou a atenção de um marinheiro a bordo do USS McCall. Uma equipe de resgate embarcou num bote motorizado e passou despercebido na angra além do alcance das armas do litoral. Tweed foi salvo.[1]
Ele estava feliz por ter aquele espelho; feliz porque soube usá-lo, e feliz porque o espelho cooperou. Suponha que não tivesse. (Prepare-se para um pensamento absurdo.) Suponha que o espelho tivesse resistido, empurrado sua própria agenda? Em lugar de refletir uma mensagem do sol, imagine se tivesse optado por enviar algo próprio? Afinal de contas, três anos de isolamento deixariam qualquer um faminto por atenção. Em lugar de enviar um S-O-S, o espelho poderia ter enviado um O-P-M "Olhe para mim."
Um espelho egoísta?
O único pensamento mais absurdo seria um espelho inseguro. E se eu estragar tudo? E, se eu envio um traço quando devo enviar um ponto? Além disso, você já viu as manchas na minha superfície? Duvidar de si mesmo poderia paralisar um espelho.
Da mesma forma seria auto-piedade. Enfiado naquela mochila, arrastado por selvas, e agora, de repente espera-se que eu enfrente o sol brilhante e execute um serviço crucial. De jeito nenhum. Fico no pacote. Não sai nenhuma reflexo de mim.
Ainda bem que o espelho de Tweed não teve uma mente própria.
E os espelhos de Deus? Infelizmente nós temos.
Nós somos os espelhos dele, sabe: ferramentas da heliografia celestial. Reduza a descrição de trabalho humano numa frase e é isto: refletir a glória de Deus. É como Paulo escreveu: “Portanto, todos nós temos o rosto descoberto e refletimos como um espelho a glória do Senhor. Nós somos transformados na sua própria imagem com uma glória cada vez maior. E esta é a obra do Senhor, que é o Espírito. (2 Cor 3:18 VFL)
Um leitor acabou de levantar uma sobrancelha. Espere um momento, você está pensando. Eu li aquela passagem antes, mais de uma vez. E soou diferente. Realmente, pode ter acontecido. Talvez seja porque você está acostumado a ler em uma outra tradução. “E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito.” (ARA, ênfase minha).
Uma tradução diz, “contemplando, como por espelho”, outra diz, “refletimos como um espelho”. Uma implica contemplação; a outra refração. Qual é certa?
De fato ambas. O verbo katoptrizo pode ser traduzido das duas maneiras. Há tradutores que tomam ambos os lados:

“refletindo, como um espelho” (ARC) 
“contemplamos a glória do Senhor” (NVI com nota de rodapé indicando que pode ser também “refletimos”) 
“contemplamos como num espelho a glória do Senhor” (Bíblia de Jerusalém, com nota semelhante à NVI) 
“refletimos a glória que vem do Senhor” (NTLH)

Mas qual significado Paulo tinha em mente? No contexto da passagem, Paulo compara a experiência Cristã à experiência de Moisés no monte Sinai. Depois que o patriarca contemplou a glória de Deus, a face dele refletiu a glória de Deus. “os israelitas não podiam fixar os olhos na face de Moisés, por causa do resplendor do seu rosto” (v. 7 NVI).
A face de Moisés estava tão deslumbrante que “o povo de Israel não podia nem mais olhar para ele do que para o sol” (v. 7 Tradução em inglês A Mensagem).
Ao ver Deus, Moisés não podia fazer outra coisa senão refletir Deus. O brilho que ele viu foi o brilho no qual ele se tornou. Vendo levou a sendo. Sendo levou a refletindo. Talvez a resposta para a pergunta de tradução, então, é "sim."
Paulo quer dizer “vendo como em um espelho”? Sim. Paulo quer dizer “refletindo como um espelho”? Sim.
Será que o Espírito Santo intencionalmente selecionou um verbo que nos lembraria a fazer ambos? Contemplar Deus tão atentamente que nós não conseguimos fazer outra coisa senão refleti-lo?
O que significa ver seu rosto em um espelho? Um relance rápido? Um olhar casual? Não. Ver é estudar, fitar, contemplar. Ver a glória de Deus, então, não é nenhum olhar lateral ou relance ocasional; este ver é ponderar seriamente.
Não é isso que nós fizemos? Nós acampamos aos pés do monte Sinai e vimos a glória de Deus. Sabedoria inescrutável. Pureza sem mancha. Anos sem fim. Força destemida. Amor imensurável. Vislumbres da glória de Deus.
Enquanto vemos a glória dele, podemos ter a ousadia de orar que nós, como Moisés, possamos refleti-lo? Podemos ousar sonhar em ser espelhos nas mãos de Deus, o reflexo da luz de Deus? Esta é o chamado.
“Fazei tudo para a glória de Deus.” (1 Cor. 10:31). 

Tudo? Tudo.

Deixe sua mensagem refletir a glória dele. “Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus.” (Mt. 5:16 NVI).
Deixe sua salvação refletir a glória de Deus. Tendo “nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa” (Efé. 1:13,14 ARA).
Deixe seu corpo refletir a glória de Deus. “Porque fostes comprados por preço. Agora, pois, glorificai a Deus no vosso corpo.” (1 Cor. 6:20 ARA).
Suas lutas. “Tudo isso é para o bem de vocês, para que a graça, que está alcançando um número cada vez maior de pessoas, faça que transbordem as ações de graças para a glória de Deus.” (2 Cor. 4:15 NVI, veja também João 11:4).
Seu sucesso honra Deus. “Honra ao SENHOR com os teus bens” (Prov. 3:9 ARA). “Riquezas e glória vêm de ti” (1 Crô. 29:12). “É ele o que te dá força para adquirires riquezas” (Deut. 8:18).
Sua mensagem, sua salvação, seu corpo, suas lutas, seu sucesso – todos proclamam a glória de Deus.
“E tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai.” (Col. 3:17 ARA)
Ele é a fonte; nós somos o vaso. Ele é a luz; nós somos os espelhos. Ele envia a mensagem; nós a refletimos. Nós descansamos na mochila dele esperando o chamado dele. E quando colocados nas mãos dele nós fazemos o trabalho dele. Não é sobre nós, é tudo sobre ele.

Ao Sr Tweed usar um espelho, houve um salvamento. Que haja milhões a mais quando Deus nos usar.

sábado, 3 de outubro de 2015

O QUE TENHO APRENDIDO (MAIS UMA VEZ) PLANTANDO UMA IGREJA



Samuel Costa

Há quatro anos estou à frente da plantação de uma nova igreja em minha cidade, o local onde Deus me colocou para ser sal da terra e luz do mundo. Conquanto eu seja filho de um evangelista e tenha acompanhado meu pai em vários campos missionários pelo Brasil, a experiência desses últimos anos tem me ensinado bastante. Resolvi, então, enumerar algumas lições aprendidas.


1) É preciso estar disposto a andar, se quiser ser dirigido por Deus.
2) Não há como plantar uma igreja apenas abrindo a Bíblia aos domingos e pregando a alguns. O pregador aos domingos também terá de varrer o chão, limpar os banheiros, carregar o som, desmontá-lo ao final das reuniões e fazer várias outras atividades, se quiser ser bem sucedido.
3) Enfrente os problemas de frente, com serenidade, mas com firmeza. O diabo não resiste à luz, pois sua ação é sempre no escuro, sorrateiramente, por baixo dos panos. Jogue luz sobre os problemas e o inimigo fugirá.
4) Ao tomarem conhecimento do projeto, praticamente todos aqueles que dizem que vão apoiar o seu trabalho nada farão por você. Mesmo assim, continue. Jamais desanime; faça sol ou faça chuva pregue a Palavra. Você é um pregador.
5) Distribua tarefas, perca o controle. O Espírito Santo é quem controla sua igreja. Não dá pra estar em todo lugar e em todas as reuniões o tempo todo. Lance as diretrizes e confie em sua equipe.
6) Não se importe com o "Não" que receberá muitas vezes. O "Não" também é direção do Senhor. Vá em frente e bata em outras portas.
7) É preciso apropriar-se de sua vocação solitária (a vocação pastoral passa pelo viés da solidão), pois sozinho será o primeiro a chegar e - na maior parte das vezes - o último a sair, após apagar as luzes, quando todos já foram para suas casas.
8) O inesperado sempre acontece, pois Deus envia ajuda de onde menos se espera... e as coisas caminham de acordo com a vontade Dele. Muita gente boa, enviada por Deus, estará ao seu lado.
9) É preciso estar disposto a se reunir em qualquer lugar, na certeza de que em qualquer lugar o Senhor ali estará ao lado de sua igreja. Nesses anos nossa igreja se reuniu, entre outros lugares, também em uma casa de festas, cujo auditório havia sido decorado para um casamento gay que havia sido realizado no dia anterior. Também nos reunimos muitas vezes numa boate da mesma casa de festas.
10) Não acredite nas redes sociais. As pessoas não vão à igreja porque a encontram no Facebook, Twitter ou Instagram. As pessoas vão à igreja porque foram abordadas por outras pessoas. Só então, por curiosidade, verificam nas redes sociais se a igreja está lá.
11) Mantenha um relacionamento constante com a cidade e não perca uma única oportunidade de deixar o cartão da igreja com alguém. Lembre-se: ninguém vai ligar pra você, com exceção de alguns pouquíssimos.
12) Não tenha medo do novo, por mais inusitado que pareça. O essencial é manter a velha mensagem da cruz. A roupa em que essa mensagem será apresentada tem que ser moderna e nova, para atingir a sociedade que não para de se modernizar e de se reinventar.
13) Pastoreie sua pequena igreja na certeza de que não é o número de pessoas que fará dela um sucesso, é a graça de Deus. Ele é o maior interessado no crescimento de Seu rebanho.
14) Algumas pessoas são talhadas por Deus para enfrentar os momentos iniciais de uma plantação de igreja, outras só chegam numa segunda fase, após consolidado o trabalho.
15) Cuidado com os parasitas. Em todo o tempo o joio estará sendo plantado pelo inimigo nos campos do Senhor. Esteja atento.
16) Dê atenção a todos, ligue para os que têm vocação para se desgarrarem, mande uma mensagem aos faltosos, pastoreie e gaste tempo com as ovelhas.
17) Saiba que Deus envia muita gente boa pra fazer parte de Sua igreja. Dia após dia Ele conduz os seus filhos para se juntarem ao rebanho. O pastoreio é Dele. Não perca a esperança.

18) Seja amigo de todos os que quiserem ser seu amigo.


Artigo publicado originalmente em samuelcostablog.blogspot.com.br.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

BÍBLIA: ARTE, BULA, RADIOGRAFIA



Leio a Bíblia como uma obra de arte. Arte, para mim, é uma obra que tem dois autores: o primeiro, que a produziu, e o segundo, que fica diante dela, seja um poema, um conto, uma pintura, uma canção, uma escultura. É sempre obra aberta, que posso interpretar. 
Posso ser livre, completamente livre em minha interpretação, ou posso chamar o Espírito Santo para me conduzir a uma leitura que não só me dê uma compreensão mais profunda do texto, mas, sobretudo, inspire-me a viver segundo a orientação que transborda do texto. Uma boa hermenêutica (arte de ler e interpretar a Bíblia), portanto, é sempre pneumatizada (soprada pelo Espírito Santo). Não sou anulado, quando a leio assim: sou bem orientado.
Abro Gênesis e leio a magnífica história de Isaque subindo a colina para um sacrifício que não houve. Qual é a moral da história? Não está no texto, nem no inexistente rodapé. A moral da história é a que eu der. Só Deus mesmo podia inspirar um livro assim.

Leio a Bíblia como uma bula de remédio, com letras gigantes. A Bíblia é um conjunto de cápsulas para a vida. A bula não fala das cápsulas, que não têm contra-indicações; a bula fala do que devemos fazer com as cápsulas. Devemos tomá-las porque vieram de Deus para nós. Devemos tomá-las com regularidade, para que o efeito possa se prolongar. Devemos tomá-las sabendo que vão provocar reações adversas no nosso corpo e no corpo de nossa sociedade. Devemos tomá-las certos que algumas são amargas.
Posso ser negligente e não tomar o remédio e aí preciso saber que continuarei enfermo. Uma Bíblia na caixa, sem ser aberta, é como uma caixa de remédios na gaveta. O remédio perde a validade e vai para o lixo. A validade das verdades bíblicas perde seu efeito e nos deixa sem proteção diante dos ataques das baterias internas e externas do mal.

Leio a Bíblia como uma radiografia de mim mesmo. Sei que há textos na Bíblia cheios de sangue e crueldade. Alguns mal-intencionados chegam a condená-la. Um desses, grande escritor, disse também que a humanidade não merece a vida. Em que lugar aprendemos melhor isto, senão na Bíblia? Por que essa hipocrisia: seria melhor um texto róseo, onde as coisas tivessem bem? Não: prefiro um texto que mostre quem sou, capaz de fazer o que herói e anti-heróis da Bíblia fizeram. Prefiro um texto que não ignora quem sou eu, mas me mostra quem posso ser (um homem em sintonia com Deus, comigo mesmo e com o próximo). Prefiro um livro que fala do meu presente (cheio de sonhos, para mim e para os outros). Prefiro um livro que fala do futuro (uma eternidade plena de vida plena) que posso ter.

ISRAEL BELO DE AZEVEDO

terça-feira, 30 de junho de 2015

Família e sociedade em perigo: Um alerta vindo do Canadá


Você sabia que o Canadá é um dos primeiros países do mundo a reconhecer legalmente o casamento homossexual? Isso já faz mais de 10 anos! Muitas pessoas acreditam que o casamento homossexual apenas equipara direitos e não fere a liberdade de ninguém. Na realidade, ele redefine o próprio conceito de matrimônio, paternidade, educação e acaba tendo consequências muito práticas da vida de todo cidadão. O casamento gay é apenas a primeira linha de uma longa agenda ativista de metas que visa em última instância uma reorganização de toda a sociedade. Se você acha que isso não é do seu interesse, talvez se surpreenda com o relato abaixo.
Tradução livre.

Um alerta vinda do Canadá
Nos é dito todos os dias que “permitir a casais do mesmo sexo o acesso a designação de casamento não irá retirar o direito de ninguém”. Isto é uma mentira.
Quando o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi legalizado no Canadá em 2005, a paternidade foi imediatamente redefinida. A Lei do Casamento Gay Canadense (Bill C-38) incluiu a determinação de apagar o termo “paternidade biológica” e a substituir por todo o país com o termo “paternidade legal” através de uma lei federal. Agora todas as crianças possuem apenas “pais legais”, como definido pelo Estado. Apagando através da força legal a paternidade biológica, o Estado ignora um dos direitos mais básicos das crianças: o direito imutável, inalienável e intrínseco de conhecerem e serem formados pelos seus pais biológicos.
Pais e mães trazem a seus filhos dons únicos e complementares. Muito ao contrário da lógica do casamento entre pessoas do mesmo sexo, a identidade sexual dos pais importa muito para um desenvolvimento saudável das crianças. Sabemos, por exemplo, que a maioria dos homens encarcerados não tiveram a companhia de seus pais em casa. Pais pela sua própria natureza e identidade são seguros, estimulam disciplina e traçam limites, apontam direções claras ao mesmo tempo que sabem assumir riscos, se tornando assim um exemplo aos seus filhos para toda a vida. Mas pais não podem gerar crianças num útero, dar a luz e amamentar bebês em seus peitos. Mães criam seus filhos de uma maneira única e de uma forma tão benéfica que não podem ser replicados pelos seus pais.
Não é preciso um cientista espacial para sabermos que homem e mulher são anatomicamente, biologicamente, fisiologicamente, psicologicamente, hormonalmente e neurologicamente diferentes entre sí. Essas características únicas proporcionam benefícios perenes para suas crianças e não podem ser replicados por “pais legais" do mesmo sexo, mesmo quando esses se esforcem para agir em diferentes papéis numa clara tentativa de substituir a identidade sexual masculina ou feminina faltante nesta casa.
Com efeito, o casamento entre pessoas do mesmo sexo não apenas priva crianças de usufruir seu direito a paternidade natural, mas dá ao Estado o poder de sobrepor a autonomia dos pais biológicos, o que significa que os direitos dos pais foram usurpados pelo governo.
Crianças não são produtos que podem ser retirados de seus pais naturais e negociados entre adultos desconexos. Crianças em lares com pais homossexuais irão frequentemente negar sua aflição e fingir que não sentem falta de dos seus pais biológicos, se sentindo pressionados a falar positivamente graças as políticas LGBTs. Contudo, quando uma criança perde um de seus pais biológicos devido a morte, divórcio, adoção ou a reprodução artificial, eles experimentam um vazio doloroso. Foi exatamente isso quando nosso pai homossexual trouxe seu parceiro do mesmo sexo para dentro de nossas vidas. Seus parceiros não poderão nunca substituir a ausência de um pai biológico.
No Canadá, é considerado discriminatório dizer que casamento é entre homem e mulher ou até que cada criança deveria conhecer e ser criado por seus pais biológicos unidos em casamento. Não é apenas politicamente incorreto, você também pode ser multado legalmente em dezenas de milhares de dólares e mesmo forçado a passar por “tratamentos de sensibilidade”.
Qualquer pessoa que se sentir ofendido por qualquer coisa que você tenha dito ou escrito pode fazer uma reclamação para a Comissão de Direitos Humanos ou mesmo nos Tribunais de Justiça. No Canadá, essas organizações fiscalizam o que é dito, penalizando cidadãos por qualquer expressão contrária a um comportamento sexual em particular ou a grupos protegidos identificados como de “orientação sexual”. Basta uma única queixa contra uma pessoa para que esta seja intimada diante de um tribunal, custando ao acusado dezenas de milhares de dólares em taxas legais pelo simples fato de ter sido acusado. Essas comissões possuem poder para entrar em residências privadas e a remover qualquer item pertinente as suas investigações em busca de evidências de “discurso de ódio”.
O acusador que faz a queixa tem todas as suas custas processuais pagos pelo governo. Mas não o acusado que faz a sua defesa. E mesmo que este prove sua inocência ele não pode ter reembolso das custas processuais. E se é condenado, também precisará pagar por danos à pessoa que fez a queixa.
Se as suas crenças, valores e opiniões políticas forem diferentes daquelas endossadas pelo Estado, você assume o risco de perder sua licença profissional, seu emprego e até mesmo seus filhos. Veja o caso do grupo Judeu-Ortodoxo Lev Tahor. Muitos dos seus membros, que estiveram envolvidos numa batalha sobre a custódia de crianças aos cuidados de serviços de proteção tiveram de deixar a cidade de Chatham, Ontario, para a Guatemala em março de 2014, como uma forma de escapar da perseguição jurídica contra suas crenças religiosas, que não estava de acordo com as políticas regionais sobre educação religiosa. Dos mais de 200 membros deste grupo religioso, restaram apenas 6 famílias na cidade de Chatham.
Pais podem esperar interferência estatal quando se trata de valores morais, paternidade e educação - e não apenas lá nas escolas. O Estado tem acesso a sua casa para supervisionar você como pai para julgar sua adequação educativa. E se o Estado não gostar do que você está ensinando aos seus filhos, o Estado irá fazer o necessário para remover seus filhos de sua casa.
Professores não podem fazer comentários em suas redes sociais, escrever cartas para editores, debater publicamente, ou mesmo votar de acordo com suas consciências mesmo fora do ambiente profissional. Eles podem ser “disciplinados”, sendo obrigados a participar de aulas de re-educação ou mesmo de treinamentos de sensibilidade, quando não acabam demitidos por seus pensamentos politicamente incorretos.
Quando o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi criado no Canadá, a linguagem de gênero-neutro se tornou legalmente obrigatório. Essa “novílingua” proclama que é discriminatório assumir que um ser humano possa ser masculino ou feminino, ou mesmo heterossexual. Então, para ser inclusivo, toda uma nova linguagem de gênero-neutro passou a ser usado pela mídia, pelo governo, em ambientes de trabalho, e especialmente em escolas, que querem evitar a todo custo serem recriminadas como ignorantes, homofóbicas ou discriminatórias. Um curriculum especial vem sendo usado em muitas escolas para ensinar os alunos como usar apropriadamente a linguagem do gênero-neutro. Sem o conhecimento de muitos pais, o uso de termos que descrevem marido e esposa, pai e mãe, dia dos Pais e das Mães, e mesmo “ele” e “ela” estão sendo radicalmente erradicados das escolas canadenses.
Organizadores de casamento, donos de salões de festas, proprietários de pousadas, floristas, fotógrafos e boleiros já viram suas liberdades civis e religiosas bem como seus direitos a objeção de consciência destruídas no Canadá. Mas isso não está reduzido apenas a indústria do casamento. Qualquer empresário que não tiver uma consciência em linha com as decisões do governo sobre orientação sexual e suas leis de não-discriminação de gênero, não terá permissão de influenciar suas práticas profissionais de acordo com suas próprias convicções. No final das contas, é o Estado quem basicamente dita o que e como os cidadãos podem se expressar.
A liberdade para pensar livremente a respeito do casamento entre homem e mulher, família e sexualidade é hoje restrita. A grande maioria das comunidades de fé se tornaram “politicamente corretas” a fim de evitar multas e cassações de seus status caritativos. A mídia canadense está restrita pela Comissão Canadense de Rádio, Televisão e Telecomunicações. Se a mídia publica qualquer coisa considerada discriminatória, suas licenças de transmissão podem ser revogadas, bem como serem multadas e sofrerem restrições de novas publicações no futuro.
Um exemplo de cerceamento e punição legal sobre opinões discordantes a respeito da homossexualidade no Canadá envolve um caso chamado Case of Bill Whatcott, que foi preso por “discurso de ódio” em abril de 2014 após este distribuir panfletos com críticas ao comportamento homossexual. Independente se você concorda ou não com o que este homem disse, você deveria se horrorizar a este ato de sanção estatal. Livros, DVDs e outros materiais também podem ser confiscados nas fronteiras canadenses se tais conteúdos forem considerados “odiáveis”.
Os americanos precisam se preparar para o mesmo tipo de vigilância estatal se sua Suprema Corte decidir legislar e banir o casamento como uma instituição feita entre homem e mulher. Isso significa que não importa o que você acredite, o governo terá toda liberdade para regular suas opiniões, seus escritos, suas associações e mesmo se você poderá ou não expressar sua consciência. Os americanos precisam entender que a meta final para muitos ativistas do movimento LGBT envolve um poder centralizado estatal - e o fim das liberdades previstas na primeira emenda constitucional.
Dawn Stefanowicz é autora e palestrante internacional. Ela foi criada por pais homossexuais, e foi ouvida pela Suprema Corte Norte Americana. Ela é membro do Comitê Internacional de Direito Infantil. Seu livro, Out from Under: O impacto da paternidade homossexual, está disponível em http://www.dawnstefanowicz.org