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quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Textos de Lutero: Morrer em paz



Leia em sua Bíblia: Lucas 2.20-32
Simeão tomou o menino nos braços e louvou a Deus”. (v. 28)

O inocente Rei e Sacerdote jaz sob a lei; o Senhor se torna escravo e servo de todos nós; queira Deus que vejamos esse Rei com a mesma fé que teve o santo Simeão.
Esse homem idoso tomou a criança em seus braços, alegrou-se e seu coração se renovou nessa imensa alegria; alegrou-se tanto que não conseguiu nem escreve nem falar. Pois, vendo essa criancinha, foi o seguinte que passou em seu coração: tenho em meus braços uma pequena criança, de apenas seis semanas, desconhecida do mundo; no entanto, é o verdadeiro Salvador, o verdadeiro Tesouro que há muito esperava. Nem príncipe, nem imperador, nem rei repararia neste criança. Seu coração, porém, que a conhecia muito bem, alegrou-se tanto que ninguém se admiraria se tivesse morrido de alegria. Pois seu desejo foi cumprido de tal modo que não apenas pôde ver a criança, mas também pôde tomá-la nos braços. Essa alegria o faz dizer:
Este é o tesouro que alegra e me torna a morte amena. Vejam o que se passa no coração desse ancião. Ele sabe que chegou a hora da morte e quer partir em paz. Essa é a grande palavra, cheia de conforto, palavra maravilhosa – morrer alegre e em paz. De onde consegue uma morte agradável assim? Isso provém unicamente da criança. Quem já viu uma morte assim? Repare-se naqueles que confiam nas obras – será que também morrem em paz?



 

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Textos de Lutero: Porque na mão do Senhor há um cálice



Leia em sua Bíblia: Salmo 75
Porque na mão do Senhor há um cálice, cujo vinho espuma, cheio de mistura; dele, dá a beber; sorvem-nos até as escórias, todos os ímpios da terra”. (v. 8)

Deus jamais abandona os seus a ponto de não lhes mostrar nesta vida como ele se comisera deles. Assim, Davi foi expulso de seu reino e, novamente, empossado. O rei Ezequias adoeceu mortalmente e, depois, recobrou a saúde. O povo judeu, disperso entre os povos pagãos, retornará a sua pátria. Mas nesse ponto também tem seu lugar a fé que espera por socorro. Pois a ajuda não está sempre à mão quando dela necessitamos ou a desejamos. É verdade, nada mais maravilhoso haveria no céu e na terra do que a palavra sem a cruz. No entanto, esse gozo não duraria muito, visto que a natureza não suporta por muito tempo a alegria e o gozo. Assim, já diz o provérbio: “O homem suporta tudo, menos dias bons; hão que ser pernas fortes as que suportam dias bons”. Por essa razão, também apimentou um pouco esse doce e amável tesouro, e lhe deu um gostinho picante de vinagre e mirra, para que não enjoemos dele. Pois, “azedo dá apetite”, diz o adágio. Do mesmo modo, os incômodos da vida fazem com que o coração seja tanto mais alegre e radiante e tenha cada vez mais sede desse tesouro. Pois seu poder se sente e se reconhece na medida em que se busca consolar o coração em Deus. Assim, diz um salmo: a palavra é um vinho puro que embriaga a alma; no entanto, ainda vem misturado com sofrimento, para conservar o apetite.

 

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

As Virtudes Teologais reunidas em livro de citações - Amor, Esperança e Fé


      Amor (ou caridade), Esperança e Fé: As três principais virtudes cristãs, conforme arroladas pelo apóstolo Paulo no décimo terceiro capítulo da Primeira Carta aos Coríntios, um dos ou talvez mesmo o mais belo capítulo de todo o Novo Testamento. Os católicos chamam-nas de virtudes teologais, que seriam infundidas por Deus no homem, e cuja ação é complementada pelas virtudes cardinais (prudência, justiça, fortaleza e temperança).
      Este pequeno e-book surge por ocasião das comemorações dos 500 anos da Reforma Protestante, deflagrada pelo monge agostiniano Martinho Lutero. Nesta breve seleta, reunimos nada menos que setecentas e cinquenta citações, duzentas e cinquenta abarcando cada uma das virtudes. São textos notadamente de autores cristãos (reformados e de outras vertentes), mas não somente; autores de outras confissões religiosas aqui comparecem, e mesmo agnósticos e livres pensadores os mais diversos, contribuindo para o entendimento e a reflexão plurais sobre tais temas de infindável profundidade. Assim, mesmo focado na seara cristã, esta pequena antologia é de valia para todo tipo de leitor, todo aquele que tem sua atenção capturada pelo mundo das ideias.
      “Mas, as virtudes teologais: o que tem isso a ver com a Reforma?”, perguntará o leitor mais desatento. E que foi a Reforma, senão um retorno ou esforço de retorno aos fundamentos da fé cristã uma vez perdidos ou obnubilados? Anseio desesperado de tornar às bases e raízes que foram amortecidas ou banidas em troca de conceitos débeis e prostituídos? Se assim entendermos, percebemos que nada há de mais basilar em nossa crença do que o consórcio destas três virtudes capitais. São elas que garantem a simplicidade revolucionária da mensagem dAquele que se ofereceu na cruz.
      Como editor e antologista, esta é minha singela forma de celebrar o reempoderamento da verdade manifesta no entendimento do suficiente poder salvífico da fé, herança maior da Reforma. E também um presente aos leitores.
      Entendo a fé como certeza alicerçante, base de todas as bases, chão do ente feito à imagem de Deus. A esperança é uma rebelião contra um status, revolta primeva e perene contra uma maldição herdada no Éden, que seja, a morte (Gn 3). Esperança é rebelião contra a Queda, contra a sua consequência: Deus puniu e não há recuo, mas ainda assim Deus encontrará em amor uma forma de nos remir. E o elo de tudo, o amor, ah... como escrevi algures, prefaciando o livro de um amigo: Este mistério fundacional da espécie [e do cosmos], a um tempo barco e co-navegante com o Homem sobre o mar do Tempo, esta magna transcendência que desvela o motivo de ser do próprio Universo, o Amor é âmago e imago (imagem) das razões de Deus.  
      Que esta pequena seleta seja de proveitosa e edificante leitura a você, amigo leitor.  Mais que um livro a ser lido, nosso esforço foi para tornar este pequenino volume um livro a ser revisitado.

Sammis Reachers, editor

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sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Textos de Lutero: Subiste às alturas, levaste cativo o cativeiro


Leia em sua Bíblia: Salmo 68.1-18
Subiste às alturas, levaste cativo o cativeiro; recebeste homens por dádivas, até mesmo rebeldes, para que o Senhor Deus habite no meio deles”. (v. 18)

Cristo venceu e prendeu morte e pecado, de modo que já não podem governar nem vencer sobre nós como faziam antes. Diariamente, Cristo os julga e condena pelo evangelho, como os que não têm poder sobre nós. Eles já estão no fim e logo se acabarão.
Cristo se voltou contra o muito poderoso herói e gigante que o desafiou na luta: a lei. Quando ressuscitou dos mortos, Cristo o derrotou. Nosso pecado está amarrado com laços e está preso. O pecado gostaria de ser solto e andar livremente. Mas contra isso temos que lutar. Quando, pois, o diabo quer entristecer a você e tirar-lhe a fé, busque novas forças na fé, defenda-se corajosamente e responda: Vá embora, Satanás, e cale a boca. Meu Senhor Jesus Cristo que me salvou, vive.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Textos de Lutero: Ele é como a árvore



Leia em sua Bíblia: Salmo 1
Ele é como a árvore que no devido tempo dá o seu fruto”. (v. 3)

Que jóia de palavra amável! Com ela, confirma-se a liberdade da justiça cristã. Os ateus supersticiosos têm seus dias certos, suas épocas determinadas, as obras ordenadas e lugares escolhidos aos quais estão escravizados de tal forma que não se deixam separar deles, ainda que seu próximo morra de fome. Esse homem bem-aventurado do salmo, porém, é livre e disposto a toda hora, a toda obra, em toda parte, para com qualquer pessoa; sem qualquer situação que apareça, ele serve, e o que lhe aparecer, ele o faz. Mas é nada especial e nem quer sê-lo. Traz o seu fruto a seu tempo, ambos os frutos – em relação a Deus, sempre que o momento o exige, e em relação aos homens, sempre que necessitem de seu serviço e esforço. Por essa razão, também seu fruto não tem nome, nem ele próprio tem nome; igualmente, suas correntes de água não têm nome; e assim não serve a uma só pessoa, apenas em determinada época, nem em lugar especial, nem com uma só obra, mas serve a todos, em toda parte e em todas as coisas, e é, de fato, um homem disposto a toda hora para todo e qualquer serviço a toda e qualquer pessoa, quando, para que e como se necessita dele e, segundo a imagem de Deus, ele é tudo e sobre todas as coisas.


domingo, 6 de agosto de 2017

Textos de Lutero: A palavra do Senhor é reta



Leia em sua Bíblia: Salmo 33
A palavra do Senhor é reta o seu proceder é fiel”. (v. 4)

Isto é verdade e jamais falha. O que Deus promete, sejam coisas terrenas ou eternas, isso ele cumpre, e o concede fielmente. E cumpre suas promessas de modo tão maravilhoso que vai além de toda compreensão. Essa confiança é certa. E você, cumpra tranqüilamente seu dever e confie sem vacilar e fielmente nele. Essa promessa divina é uma certeza além de todas as medidas, preciosa, rica e forte. Ela não deixa ninguém cair nem espernear na incerteza. Se você reconhece o sacramento como sendo uma promessa e não um sacrifício, você tem a certeza de que Deus é verdadeiro e não pode mentir, um Deus que cumpre o que promete. E, assim, você o terá e encontrará quando tem esse conceito dele e quando crê. E quando percebe que nada mais lhe oferece do que graça, verá com a mente alegre e aliviada que ele nada exige de você – por exemplo, que lhe ofereça sacrifício ou lhe dê algo –, mas que o atrai com amor e amabilidade, incitando-o a aceitar o que lhe presenteia.


quinta-feira, 6 de julho de 2017

Textos de Lutero: Deus não se afasta de ninguém



Leia em sua Bíblia: Salmo 22.1-21

Por que se acham longe de meu salvamento as palavras de meu bramido?” (v. 1)



Deus não se afasta de ninguém, pois está presente em toda parte. Por isso, quando Deus o abandonou, também Cristo e sua palavra estavam longe do seu salvamento que estava em Deus e permaneceu próximo. Pois ser abandonado por Deus nada mais é do que sair da vida e da salvação para uma terra estranha da morte e do inferno, coisa que ninguém entende, a não ser que sinta também o mesmo medo e aflição. Pois quem poderá entender a unidade destas duas verdades: em Deus está próxima a salvação, em nós está muito distante? Portanto, quando sofremos, estamos longe da salvação; Deus, porém, está próximo para nos ajudar. O que a nós é impossível e nos leva ao desespero, para ele é possível e até fácil. Estar longe da salvação provém unicamente da nossa fraqueza. E fraqueza nada mais é do que sentir dor e angústia.


domingo, 25 de junho de 2017

Lutero: Atleta de Cristo


Lutero: Atleta de Cristo
P. em. Dr. Martim N. Dreher (Portal Luteranos
Lutero teve formação como monge. Quis ser obediente, pobre, casto, afastar-se do mundo e rezar. O mosteiro era ilha isolada. Havia obediência aos superiores e o monasticismo tinha longa história. Foi dos grandes poderes do Ocidente. Mas teve seu fim com o movimento de Lutero. Ordens religiosas continuaram a existir após a Reforma, mas não tinham mais a importância de outrora.
O monge assumia a castidade e negava a sexualidade. Rompia com o temporal, dedicando-se apenas à contemplação do Eterno. Não fazia mais parte da história de gerações: não gerava filhos. Após anos de isolamento monástico, Lutero ficou confuso ante o mundo e seus desafios e ansiou pela tranquilidade do mosteiro.
Os primeiros eremitas eram “anacoretas”, pessoas que fugiam dos pesados impostos, se ocultavam no deserto, onde polícia alguma se aventurava a procurá-los. Não produziram livros. As informações que temos deles vêm de lendas. No deserto, rezavam e dedicavam-se a tecer esteiras. Únicos companheiros eram os demônios que os visitavam com frequência, pois a ascese não evitava as tentações. E eles queriam ser tentados. Pediam pela graça de poderem morrer pela espada, mas os demônios preferiam torturá-los e matá-los lentamente. Sangravam a alma ao invés do corpo.
Tortura preferida dos demônios era a sexualidade. Desde os monges egípcios a humanidade passou a considerar mulheres como a origem do mal. Essa ideia tomou conta do cristianismo. As tentações de Santo Antão, para o qual o diabo sempre se apresentava na forma de bela mulher, foram lidas nos mosteiros. O antifeminismo tem sua história, e em seu decorrer foi amenizado pela devoção a Maria. Mas não desapareceu por completo e se manifestou especialmente nas Regras das Ordens Religiosas. A regra dos agostinianos considerava pecado fitar mulher, e os confrades estavam obrigados a denunciá-lo, seguindose: prisão com os pés algemados, a pão e água.
Lutero afirma não ter olhado para mulher nem mesmo quando lhe ouvia confissão. Estava mais preocupado com outra questão. Não era muito chegado a visões e arrebatamentos, oferecidos pela mística da época, com suas fantasias sexuais, nas quais o noivo Cristo era beijado, e acariciado em casamentos místicos. Lutero não seguiu essa tendência. O pouco tempo em que “namorou” com a mística alemã, foi quando buscava acesso direto a Deus.
Para Lutero, “libido” envolvia o ser humano como um todo e toda a sua vida. “Carne” é a pessoa com todas as suas qualidades que são o contrário de uma alma que busca Deus. Quando fala de sua tentação, fala de ira, impaciência, cobiça. Jamais vai dizer que a libido é a maior delas.
Lutero está repetindo a relação dos sete pecados capitais segundo o catálogo de monges que buscavam vida perfeita diante de Deus: soberba, inveja, ira, indiferença, avareza, gula, luxúria. Após o vício maior, a soberba, seguem os vícios da área espiritual e, depois, os três vícios da vida corporal. Não recitava todos eles. Muitos não lhe diziam respeito por estar no mosteiro. O que mais o marcou talvez tenha sido a “indiferença”, relacionada à hipocondria. Lutero enfrentou muita depressão. Além disso, tinha explosões de “ira”, mas logo buscava reconciliação.
A soberba vinha à frente dos pecados. Dava origem aos demais. A soberba se manifestava, quando o eremita se distanciava do mundo e das pessoas. Buscava conseguir primazia em relação aos demais mortais. Poucos seriam os perfeitos, muitos os fracos. A soberba se manifestava na ascese dos pais do deserto. Foi no deserto com suas altas temperaturas durante o dia e o frio gélido das noites que se desenvolveram as mais absurdas formas de monasticismo. Ascese era, originalmente, designação para o treinamento dos atletas profissionais. Por isso, os primeiros eremitas designavam-se de “atletas de Deus” e travaram verdadeiras competições entre si para ver, quem atingia os mais altos índices. Os primeiros deles até que foram comedidos. Não tinham Regra e não estabeleceram castigos, quando começaram a se reunir em comunidades. Só queriam ser diferentes dos pagãos. Usavam vestes escuras para se diferenciarem dos filósofos gregos que usavam manto branco. Também descuidavam do corpo. Em seus dias as pessoas ricas da Antiguidade passavam o dia em banhos e saunas. Os eremitas só consumiam um mínimo em alimentos. Em breve, porém, alguns deles passaram a serem considerados heróis, taumaturgos e exemplos que estabeleciam recordes ascéticos. O primeiro desses recordes a ser estabelecido era o da solidão. A curiosidade das pessoas do mundo urbano que os visitavam no deserto queria mais. Por isso, alguns “atletas de Deus” amarraram pesadas correntes ao corpo, fazendo se enterrar. O auge entre essas figuras foi estabelecido por Simão, o estilita. Pessoa de saúde admirável, primeiro fez-se enterrar por dois anos; depois, subiu em coluna de vinte metros de altura, sobre a qual passou os últimos trinta anos de sua vida. Na pequena plataforma no alto da coluna, Simão orava e fazia genuflexões. Um admirador tentou calcular quantas teriam sido. Com elas estava mais próximo a Deus. Após sua morte, muitas construções surgiram em torno da coluna. Simão foi utilizado pela igreja por representar exemplo de vida cristã. O cálculo dos exercícios desse “atleta de Cristo” motivou críticas de Lutero.
No deserto surgiu o mosteiro com Regra, sob a direção de um Abade e atividade produtiva. Preguiça deveria ser eliminada. Eremitas teciam esteiras. Os mosteiros variaram a produção. O organizador do primeiro mosteiro, Pacômio buscou por “ordem” num mundo em “desordem” e se tornou protótipo. E os mosteiros se transformaram em importantes centros de produção. Além disso, tornaram-se centros de cultura e de preservação, em oposição aos eremitas que a negavam. O monge tinha que ler e escrever, decorar a Bíblia. Estabeleceram-se regras, disciplina supervisionada. Foi nesse tipo de mosteiro que Lutero ingressou.
Lutero se desenvolveu nessa mais antiga forma de vida cristã. Movimentos reformatórios sempre de novo invocaram os primórdios do cristianismo, se bem que pensassem nas formas anteriores ao surgimento de eremitas e mosteiros. Lutero estava convicto de que acontecera crescente “decadência” e que era necessário retorno às origens.
 “Reforma” foi conceito que acompanhou a história dos mosteiros, que é contada em ciclos de “decadência” e de “reforma”. Quando Lutero ingressou na Ordem dos Agostinianos esta se encontrava dividida. Havia grupo que exigia reforma e outro que se lhe opunha. “Obediência” era um dos votos dos monges. Ela era prestada em relação ao superior da ordem, mas não impedia desobediência em relação a outras instituições como o papado. Até os dias de Lutero, os agostinianos se vangloriavam de ser a ordem mais obediente e de jamais haverem produzido um herege.
“Pobreza” era outro dos votos. O monge era pobre; o mosteiro era rico. Grande era considerado o abade que fosse grande administrador, fazendo crescer o Reino de Deus. Os mosteiros medievais preservaram a Antiguidade, quando as ordens bárbaras invadiram a Europa. Essa preservação manteve o que de mais precioso foi criado pelo ser humano. Também contribuíram para o progresso econômico das regiões em que se estabeleceram. Secaram pântanos, dominaram florestas, conformaram a Europa, hospedavam viajantes, cuidaram de enfermos. Mas não eram pobres. Patrocinavam as artes. Foram proprietários de grandes
extensões de terras. Alguns abades eram designados de príncipes e viviam como se o fossem.
Não havia pobreza no mosteiro de Lutero. Os agostinianos não eram tão ricos quanto os beneditinos, mas tinham posses. No século XVI, a acumulação de bens e de privilégios de parte dos mosteiros era tão grande que um reordenamento se fazia necessário. Do lado da igreja se falava na “ganância” do Estado, do lado do Estado se falava na “ganância” da igreja. Os agostinianos eremitas detinham 103 mosteiros na Alemanha.
O de Erfurt existia desde 1256. Lutero trajava-se com o hábito negro, preso com cinto de couro preto. Sobre ele vestia escápula branca. Camisa de lã servia de camiseta. Durante a noite vestia escápula com touca branca. Lutero usou o hábito negro muito tempo após haver rompido com Roma. O mosteiro de Wittenberg foi sua residência até à morte.
No mosteiro, foi “o monge” como se o imagina: foi tentado pelos demônios e acossado pelos pecados da soberba, da ira, da tristeza e do coração indeciso. Observou os votos monásticos, menos um: o da obediência. Não foi atleta de Cristo, não estabeleceu recordes ascéticos, não foi santo, sua ordem não os tinha. Queria algo bem simples: um Deus misericordioso. Sua desobediência consistiu em procurá-lo por caminhos diversos dos oficiais. Nisso consistiu sua heresia.
O autor é Pastor e Professor
emérito da IECLB, residente
em São Leopoldo/RS

domingo, 18 de junho de 2017

Textos de Lutero: Escutarei o que Deus, o Senhor, disse



Leia em sua Bíblia: Salmo 85

Escutarei o que Deus, o Senhor, disser, pois falará de paz ao seu servo e aos seus santos; e que jamais caiam em insensatez”. (v. 8)


A minha primeira preocupação deve ser ouvir a palavra de Deus. Para alguém se converter, tornar-se piedoso e cristão, não resolvem orações nem jejuns; isso há que ouvir do céu, e de pura graça, quando Deus, pela promessa do evangelho, atinge o coração de tal maneira que sinta e diga que jamais lhe ocorrera que pudesse alcançar tal graça. Antes mesmo que Abraão arriscasse a pedir, mesmo antes de pensar em conversão, Deus se antecipa. Ele o arranca do engano e lhe dá um novo ser. Quem quer tornar-se piedoso jamais diga: A partir de agora começarei a fazer boas obras, para alcançar a graça. Antes, diga assim: Esperarei até que Deus me conceda sua graça e seu Espírito por meio da palavra. É a palavra que terá que fazê-lo, do contrário tudo estará perdido.


sábado, 6 de maio de 2017

Textos de Lutero: Firme até o fim


Leia em sua Bíblia: Salmo 27.1-6 
“O Senhor é a fortaleza da minha vida; a quem temerei?” (v. 1) 

 Certamente, também há repouso, mesmo em meio à tentação. Agora, Deus faz com que as coisas sempre vão morro acima, morro abaixo e, logo, outra vez, morro acima. Ora é noite, ora é dia, e logo volta a ser noite, e nem sempre é dia. O dia e a noite se sucedem, assim que ora é noite, ora é dia e, logo em seguida, é noite outra vez. É assim que ele governa a sua Igreja cristã, como mostram todas as histórias do Antigo e do Novo Testamento. 
E isso se chama força, a saber, que o Senhor não é um conselheiro e consolador daqueles que se limitam a palavras e não fazem nada além disso. Não, ele também ajuda para que tudo seja superado. Quando estamos em meio à tentação, ele nos dá seu fiel conselho e nos fortalece com sua palavra, para que não desfaleçamos de fraqueza, mas possamos ficar firmes. Agora, quando é chegada a hora e já sofremos o suficiente, ele se põe do nosso lado com seu poder, para que superemos o momento crítico e saiamos vitoriosos. Precisamos de ambas as coisas: o conselho para nos consolar e sustentar no sofrimento, ou seja, consolo em meio às tentações e sofrimentos, para que não sucumbamos, mas tenhamos esperança e paciência. É assim que ele dirige toda a cristandade. É assim que ele governa. Quem desconhece isso, não sabe o que significa ter Cristo por Rei.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Textos de Lutero: Permanecei no meu amor



Leia em sua Bíblia: João 15.5-11
Como o Pai me amou, também eu vos amei; permanecei no meu amor”. (v. 9)

O diabo não procura outra coisa senão destruir o amor entre os cristãos, promovendo bastante ódio e inveja. Ele tem nisso seu prazer e alegria. Pois ele sabe muito bem que a cristandade é edificada e sustentada pelo amor.
Por essa razão, Cristo nos admoesta ardentemente a que antes tudo permaneçamos no amor, e apresenta seu Pai e a si mesmo como modelo, como o mais nobre e mais perfeito exemplo. Meu Pai (ele está querendo dizer) me ama tanto assim, que dirige para mim todo o seu poder e força. De momento, ele permite que eu sofra, mas tudo que faço e padeço ele toma como se fosse feito a ele. E depois vai ressuscitar-me dentre os mortos, me fará Senhor sobre todas as coisas e glorificará sua majestade divina em mim. Assim (diz ele) eu amo vocês. Pois não os deixo em seus pecados e na morte, mas dou meu corpo e minha vida por vocês para que se livrem deles, e transfiro para vocês minha pureza, santidade, morte e ressurreição, bem como os demais méritos.
Por isso tenham também vocês o mesmo amor uns para com os outros. Mesmo que por minha causa vocês sejam duramente tentados e pressionados a se afastarem de mim, fiquem firmes. Deixem que meu amor seja mais forte, maior e mais poderoso do que o sofrimento ou a dor que vocês sentem.
Por isso, seguindo o exemplo de Cristo, devemos aprender a pôr em prática este mandamento, cada um amando o próximo dentro do seu respectivo estado (N. T.: os diferentes estados aos quais Lutero de refere são os de pai, mãe, filho, empregado, etc.).


quarta-feira, 15 de março de 2017

500 anos de Reforma: Argula von Grumbach, defensora da fé

Argula von Grumbach,

 defensora da fé


Argula von Grumbach foi uma mulher valente que levantou a sua voz e a sua pluma para defender a Reforma desde os seus inícios. Argula tomou parte nos debates teológicos da época, desenvolvendo um ardente trabalho apologético a favor das doutrinas bíblicas e em defesa de Lutero, de Melâncton e doutros Reformadores. Diz-se que foi a primeira escritora protestante, e uma das poucas mulheres do seu tempo cujos poemas, cartas e escritos doutrinais se converteram em verdadeiros bestsellers da época, com dezenas de milhares de exemplares em circulação.



Argula nasceu em 1492 em Beratzhausen na Baviera, na Alemanha, filha de Bernhardin von Stauff e Katharina von Toerring, ambos de famílias nobres empobrecidas. Aos dez anos, foi enviada pelos pais para a corte do duque da Baviera, Alberto IV († 1508). Aí foi educada com as três filhas do duque, segundo o costume da época. Recebeu, por isso, uma esmerada educação. Quando foi enviada para a corte da Baviera recebeu dos pais um presente raro e caro para a época: uma Bíblia Koburger de 1483. Seus pais faleceram em 1509 vítimas da peste. Em 1515/6 enquanto ainda estava na corte do duque da Baviera casou-se com Friedrich von Grumbach, de família nobre da região da Francónia, ao qual deu quatro filhos.


Argula von Grumbach adotou a doutrina de Lutero, com quem travou amizade depois de 1522, tornando-se numa zelosa estudante da Bíblia. O seu primeiro passo na atividade literária foi resultado pela condenação de Arsacius Seehofer. Em 20 de setembro de 1520, não havendo ninguém que protestasse contra a forçada negação do Evangelho feita por Seehofer, ela endereçou ao reitor da universidade do Ingolstadt um protesto, que foi publicada e circulou amplamente.


A carta começava assim: «Ao honorável, digno, ilustre, erudito, nobre e excelso reitor e a toda a faculdade da Universidade do Ingolstadt: Quando ouvi o que tinham feito a Arsacius Seehofer sob ameaças de prisão e de fogueira, o meu coração e os meus ossos estremeceram. O que ensinaram Lutero e Melâncton exceto a Palavra de Deus? Vós os condenastes. Não os refutastes. Onde ledes na Bíblia que Cristo, os Apóstolos e os profetas encarcerassem, desterrassem, queimassem ou assassinassem a alguém? Dizem-nos que devemos obedecer às autoridades. Correto. Mas nem o Papa, nem o Imperador, nem os príncipes têm nenhuma autoridade acima da Palavra de Deus. Não penseis que podeis tirar a Deus, aos profetas ou aos apóstolos do Céu com decretos papais tirados de Aristóteles, que nem sequer era cristão. Não ignoro as palavras de Paulo de que a mulher deve guardar silêncio na igreja (1Tm 1:2), mas, quando nenhum homem quer ou pode falar, impulsiona-me a Palavra do Senhor quando disse “Aquele que Me confesse na terra, Eu o confessarei e aquele que Me negue, Eu o negarei.” (Mt 10:32; Lc 12: 8)


Procuram destruir todas as obras de Lutero. Neste caso, terão de destruir o Novo Testamento, que ele traduziu. Nos escritos em alemão de Lutero e Melâncton, não encontrei nada herético… Inclusivamente se Lutero se retratasse, o que tem dito continuaria sendo a Palavra de Deus. Eu estaria disposta a ir e debater convosco em alemão, e assim não precisariam usar a tradução da Bíblia do Lutero. Podeis usar a de  Koburger de 1483,que se publicou há 30 anos. Tendes a chave do conhecimento e fechais o Reino dos Céus. Mas estais derrotados. As notícias do que tendes feito a este jovem de 18 anos chegaram já a tantas cidades que logo todo o mundo o saberá. O Senhor perdoará a Arsacius, como perdoou a Pedro, que negou ao Seu Mestre embora não o tivessem ameaçado com a prisão nem com a fogueira. Ainda sairá muito bem deste moço. Não vos envio desvarios de mulher, mas a palavra de Deus. Escrevo como membro da igreja de Cristo contra a qual não prevalecerão as portas do inferno, ao contrário da igreja de Roma. Deus nos conceda a Sua graça. Ámen»


Pessoalmente, entretanto, ela não recebeu nenhuma resposta. As autoridades da universidade não se dignaram responder a uma mulher, mas solicitaram ao duque que a castigasse. O chanceler da Baviera Leonhard von Eck (c. 1475-1550) aconselhou a destituir o seu marido e enviá-la a ela para exílio. O seu marido, que era católico, foi destituído de governador de Dietfurt, uma região da Baviera. Os argumentos para que o marido de Argula perdesse o trabalho foram: “Ele não foi capaz de impedir que a sua esposa escrevesse, enviasse e publicasse cartas defendendo ideias reformadas.”


Argula von Grumbach continuou tendo um vivo interesse pela Reforma e manteve uma boa relação com os Reformadores até que morreu aos 64 anos de idade neste dia, 23 de junho de 1568, em Zeilitzheim na Baixa Francónia, situada no norte do estado da Baviera.


Argula von Grumbach é reconhecida hoje, a partir de pesquisas históricas, como sendo a primeira escritora protestante.Ela escreveu cartas que foram publicadas como panfletos, defendendo o ideal da Reforma Protestante com conhecimento teológico e citações bíblicas. E, desta forma, também entrou em conflito com os poderes da sua época. Foram publicadas oito cartas da sua autoria, escritas provavelmente entre setembro de 1523 e outono de 1524. Ela também manteve correspondência e conversas pessoais com os Reformadores. Martinho Lutero referiu-se a ela como “um instrumento especial de Cristo.”


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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

Este texto é de livre utilização, desde que a sua ortografia seja respeitada na íntegra porque já está escrito com o Português do Novo Acordo Ortográfico e que não seja nunca publicado nem utilizado para fins comerciais; seja utilizado exclusivamente para uso e desfruto pessoal.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Textos de Lutero: Enviou ao seu povo a redenção...


Leia em sua Bíblia: Salmo 111
Enviou ao seu povo a redenção... santo e tremendo é o seu nome”. (v. 9)

Nós temos a grande, indizível honra de sermos chamados pelo nome desse Deus, que nele somos batizados e chamados, de sorte que se fundem o seu e o nosso nome; que temos um Deus que faz tão grandes coisas em nós, sendo nós chamados de povo de Deus, servos de Deus, herdeiros de Deus, reino de Deus, casa de Deus, obra de Deus e de outros nomes mais. Por causa desses nomes, somos considerados santos e em alta estima no conselho dos santos e perante todos os anjos no céu. E, dessa maneira, não temos apenas tais grandes milagres de Deus, mas, além disso, tal santo nome e maravilhosa honra.
Onde estão os que buscam e não sabem consegui-la? Estão sempre procurando sem nunca acharem nada. Se quer honra, deixe toda honra para Deus e com nada fique perante ele senão com a vergonha. Despreze-se a si mesmo e considere nada o seu fazer. Assim, você santifica o nome de Deus e dá a honra somente a ele. Veja, assim que fizer isso, já está coberto de honra maior que toda honra de reis e que permanece em eternidade. Pois Deus o decora e honra com seu nome, para que venha a ser servo de Deus, filho de Deus, obra de Deus, etc. Que mais poderia Deus fazer por você, ele que lhe dá tantos bens terrenos e eternos, acima disso tudo, o nome mais sublime, seu próprio nome e honra eterna? Creio que ele merece que lhe agradeçamos e o louvemos do fundo do coração. Quem poderia jamais agradecer e louvar o suficiente por uma só dessas dádivas?


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Textos de Lutero: Toda a escritura testifica de Cristo



Leia em sua Bíblia: 1 João 1.1-4
O que temos visto e ouvido anunciamos também a vós outros”. (v. 3)


Cristo, nosso Senhor, é, portanto, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, escolhido e ordenado para tanto pelo Pai. Pois ele deve ser a fonte mestra e o manancial de onde fluem graça e verdade, bem como justiça, para que dele alcancemos e possamos desfrutar graça e justiça, e dele recebamos graça sobre graça e verdade sobre verdade. Isso foi visto, ouvido, apalpado com nossos olhos, ouvidos e mãos, diz o evangelista, e pelas sua palavras e obras reconhecemos que ele é a Palavra da vida e a indizível fonte de toda graça e verdade. Se alguém anseia por graça e verdade, seja ele Abraão, Moisés, Elias, Isaías, João Batista, ou seja lá quem for, que venha para cá e as receba dele, e não de outra pessoa; do contrário, estará perdido para sempre. “Porque todos nós”, sem exceção, escreve o evangelista, “da sua plenitude recebemos graça sobre graça e verdade sobre verdade”. De igual modo, toda a Escritura Sagrada, do Gênesis ao Apocalipse, indica e aponta para Cristo. E, em se tratando da fonte onde devemos procurar e achar a graça e a verdade, não menciona nenhum dos outros santos. Portanto, só se pode receber graça e verdade da plenitude de Cristo; nossos bocados, migalhas, pingos ou pedacinhos não poderão fazê-lo.

domingo, 30 de outubro de 2011

Homenagem ao Dia da Reforma na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro


Convidamos Vossa Senhoria e estimada família para participarem da solenidade em comemoração ao Dia da Reforma Protestante, nessa segunda-feira 31/10 às 19h no Plenário da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Na ocasião, acontecerá a homenagem e entrega do conjunto de Medalhas Pedro Ernesto, a mais alta condecoração do Poder Legislativo Municipal, ao Pastor Mauricio Price. Antecipamos nossos agradecimentos por sua nobre presença. Que Deus os abençoe.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Religiosidade e o Misticismo da Idade Média - Lições Para os Nossos Dias

Por Solano Portela

A Igreja Medieval em grave necessidade de reforma

Encontramos a Igreja Católica, no ápice da idade média (séculos 13 a 15), com a maioria das práticas litúrgicas, incorporadas do paganismo, já institucionalizadas dentro da estrutura eclesiástica. O cenário está sendo preparado pelo Senhor da História para a Reforma do Século XVI. A religião foi transformada de uma devoção consciente a Deus, baseada no que conhecemos de Deus pelas Escrituras e exercitada pelas diretrizes da sua Palavra; no misticismo subjetivo, baseado em tradições humanas, exercitado em práticas obscuras.

A Igreja, que deveria aproximar as pessoas cada vez mais de Deus e de sua Palavra, na prática afasta os fiéis da religião verdadeira. Os rituais e a liturgia são realizados em uma língua desconhecida (Latim). Os seguidores são sujeitos a uma hierarquia estranha à Bíblia, na qual os administradores maiores se preocupavam mais com o jogo político do que com a situação espiritual dos fiéis. Aqueles que se dedicavam mais ao estudo da palavra, em vez de estarem próximos dos fiéis, conscientes de suas lutas, necessidades e pecados, isolam-se em mosteiros. Novas estruturas monásticas são formadas e multiplicam sua influência. Os poucos escritos refletem um misticismo que enaltece a trindade, mas, ao mesmo tempo, apresentam uma ênfase mística que os distanciam da realidade.

Outras cabeças pensantes da Igreja, em vez de procurar um retorno à teologia das Escrituras, embarcam num intelectualismo que pretende explicar de forma palatável à razão humana os mistérios de Deus – esses também distanciam a Igreja e sua hierarquia de sua missão e daqueles que a seguem em busca espiritual sincera ou por conveniência. Certamente, fica cada vez mais evidente que o caminho da reforma está sendo preparado por Deus. A Igreja está deteriorada em seu íntimo – os problemas aparecem. O remanescente fiel ficará mais evidente e desabrochará no tempo apontado por Deus.

Estudando a situação da igreja nesse período, identificamos três erros dignos de destaque e que servem de alerta para os nossos dias. Vejamos:

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segunda-feira, 27 de outubro de 2008

A VIDA E OS TEMPOS DE LUTERO

A propósito do Dia da Reforma, que é comemorado em 31 de Outubro, publicamos este excelente texto sobre aquele que Deus usou para dar início efetivamente à Reforma: Martinho Lutero.
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REVOLUCIONÁRIO POR ACIDENTE

Em sua busca por paz espiritual, Lutero não tinha idéia do tumulto que traria para seu mundo.

Por James M. Kittelson

Portal Cristianismo Hoje - http://www.cristianismohoje.com.br/

Um conselheiro de turistas do século 16 afirmava que as pessoas que voltassem de suas viagens sem ver Martinho Lutero e o papa “não tinham visto nada”. Mais tarde, este homem tornou-se bispo da Igreja Católica Romana e um dos oponentes de Lutero.
Outra pessoa leu os trabalhos de Lutero e declarou: “A igreja nunca viu maior herege!” Mas depois de alguma reflexão, declarou: “Somente ele está certo!” Este homem tornou-se um reformador e Lutero regularmente se confessava com ele.
Como pôde um frei e professor evocar tais reações conflitantes?
A resposta é a própria simplicidade. Este homem, que continua a falar depois de meio milênio, ou ensinou a base da fé cristã corretamente ou ainda está desviando almas. Como ele mesmo disse, “Outros antes de mim contestaram a prática. Mas, contestar a doutrina, isso sim é pegar um ganso pelo pescoço!”

Infância comum
Ao contrário de algumas especulações românticas, a infância de Lutero não teve quase nada a ver com o fato de ele tornar-se um teólogo revolucionário. Ele nasceu quase em trânsito em 10 de novembro de 1483, em Eisleben (cerca de 220 quilômetros ao sudoeste da moderna Berlim), onde seus pais podem ter trabalhado como empregados domésticos.
Dentro de um ano, a família mudou-se para Mansfeld, onde seu pai, Hans Luder (como era pronunciado na região), encontrou trabalho nas minas de cobre locais. Hans subiu rapidamente, talvez com a ajuda de parentes, a proprietário, ou sócio de várias minas e fundições. Até mesmo tornou-se um membro do conselho da cidade. A pintura de Cranach, do Luder mais velho, mostra-o num casaco finamente tecido com uma gola de pele.
Lutero lembra de sua infância em parte por (nos termos de hoje) seu abuso físico. Ele apanhava de seus pais de modos aterradores. Ele distanciou-se tanto de seu pai que, em uma ocasião, que seu pai lhe pediu perdão. Mas como Hans veio até seu filho, Lutero também se lembra que “ele me queria bem”. Talvez a dura disciplina refletisse apenas uma família que desejava ser bem-sucedida, e o foi. Não havia, com certeza, nada de incomum nisso.
Também não há evidência de nada incomum ou rebelde acerca da piedade da família. Margaretha, a mãe de Lutero, tinha as superstições comuns da época. Por exemplo, ela culpava uma vizinha pela morte de um de seus filhos, pois a considerava uma bruxa. Hans se unia a ela, buscando uma indulgência especial para a igreja local. Quando jovem, Lutero absorveu uma religião na qual uma pessoa tinha que lutar pela futura salvação da mesma forma que tinha que trabalhar pela sobrevivência material.

Uma decisão perspicaz
Neste ponto, dois assuntos comuns mudaram o rumo de Lutero.
Primeiro, Hans (que poderia ter ficado satisfeito quando o menino aprendeu a ler, escrever e fazer cálculos e então entrar no negócio da família) mandou o menino para estudar latim, e finalmente para a universidade de Erfurt. Ao tomar esta decisão perspicaz, Hans foi ambicioso não apenas por seu filho, mas pela família inteira. Se fosse bem-sucedido, o jovem Lutero se tornaria advogado, que, fosse numa igreja ou na corte, traria um bom sustento para os pais e irmãos.
Segundo, o jovem deixou o lar antes de fazer 14 anos e provou ser extraordinariamente inteligente. Concluiu o bacharelado e o mestrado no menor tempo permitido pela lei. Ele provou ser tão adepto a disputas (debates públicos era a maneira principal de ensinar e aprender) que ganhou o apelido de “O Filósofo”. Hans ficou tão feliz que deu ao seu filho um presente caro: o texto principal para estudos legais da época, o Corpus Juris Civilis.

Da lei ao legalismo
Infelizmente, para os planos de Hans, o estudante novato de direito começou a ter dúvidas sobre o estado da sua alma e também sobre a carreira que seu pai tinha assegurado para ele. Em 1505, quando ainda não tinha 22 anos, ele tirou uma licença oficial, mas inexplicada, da universidade. Ele visitou sua família para buscar, aparentemente, conselho sobre seu futuro. No seu retorno para Erfurt, quando lutava contra uma severa tempestade, um raio atingiu o chão perto dele.
“Me ajude, Santa Ana!”, Lutero gritou. “Eu me tornarei monge.”
Depois deste voto a Santa Ana, a conhecida padroeira dos mineiros, Lutero passou várias semanas discutindo sua decisão com seus amigos. Então, em Julho de 1505, como era a exigência para entrar na vida monástica, ele doou todos os seus bens – seu alaúde, com o qual bastante tinha habilidade; seus muitos livros, incluindo o Corpus Juris Civilis; suas roupas e utensílios para comer – e entrou para o Black Cloister of the Observant Augustinians (Mosteiro Negro dos Vigilantes Agostinianos). Como de costume, ele passou mais de um mês examinando sua consciência e sendo interrogado pelas autoridades competentes antes de proceder ao noviciato (um ano adicional de escrutínio antes de se tornar um frei).
Com toda evidência, Lutero foi extraordinariamente bem-sucedido (“impecável” foi a descrição) como um agostiniano, assim como quando foi estudante. Ele não começou simplesmente a jejuar, orar e fazer práticas devotas (como ficar sem dormir, suportar o frio cortante sem cobertor e se flagelar), ele os fazia dedicadamente. Como comentou mais tarde: “Se alguém pudesse ter herdado o céu pela vida de um monge, teria sido eu.”
Ele tornou-se um padre em menos de dois anos depois de entrar para o Mosteiro Negro. Foi mandado a Roma como companheiro de viagem de um irmão mais velho a negócios, que seriam cruciais para os agostinianos na Alemanha. Além disso, seus superiores ordenaram que estudasse teologia para que pudesse se tornar um dos professores da ordem.

Digno de estudo
Naquele momento, o próprio Lutero começou a ser alguém digno de estudo. Os medos e ansiedades que o dirigiram para o Mosteiro Negro o deixaram durante seu primeiro ano lá, mas então se intensificaram. Embora buscasse amar a Deus com todo seu coração, alma, mente e força, ele não achava consolo. Ficava cada vez mais com medo da ira de Deus: “Quando é tocada por esta inundação que vem do eterno, a alma só se alimenta e bebe da eterna punição e nada mais.”
A ordem para estudar a teologia acadêmica significava que ele podia investigar suas lutas intelectualmente. Lutero, mais tarde, comentou que foi “aonde as tentações me levaram”, querendo dizer que ele ousou investigar as questões que mais o atormentavam. Mas isso acontecia devagar: “Eu não aprendi minha teologia toda de uma vez... mas como Agostinho, através de muito estudo, ensino e escrita.”
No processo, os ataques de dúvida de Lutero acerca de sua salvação tornaram-se uma realidade objetiva que ele estudou – quase da maneira que um matemático se debruça sobre um problema difícil.

O dilema de Lutero
Como um iniciante no estudo da teologia, Lutero foi ensinado sobre a ortodoxia predominante, e parte de suas palestras iniciais como professor mostra que ele cria nisso.
Seus professores, seguindo a Bíblia, ensinaram que Deus exigia absoluta justiça, como na passagem, “sejam perfeitos, como é perfeito vosso Pai que está no céu”. As pessoas precisavam amar a Deus absolutamente e seus próximos como a elas mesmas. Elas deviam ter a fé inabalável de Abraão, que estava disposto a sacrificar o próprio filho.
Além do mais, quando não eram perfeitas, as pessoas deviam se arrepender de um modo totalmente contrito, e não pelo propósito egoísta de salvar a si mesmas. E onde o indivíduo não pudesse ser absolutamente justo, a Igreja entraria com a graça dos sacramentos.
Lutero declarou mais tarde: “Eu estava tão bêbado, aliás, tão submerso nas doutrinas do papa, que eu teria alegremente matado (ou cooperado com alguém que matasse) quem quer que tirasse uma sílaba da obediência devida a ele.”
Mas Lutero foi atacado por um problema, e finalmente este o levou para longe do que havia sido ensinado. Os seres humanos são incapazes de ter os atos e estado da mente sem o egoísmo que as Escrituras exigem. O mais difícil para Lutero era a obrigação perfeita das Escrituras de ser contrito e se arrepender.
No fim da Idade Média, o arrependimento ocorria mais comumente no curso dos sacramentos da confissão e da penitência. De acordo com o que o pecador confessasse, era perdoado e então cumpria as ações de penitência que lhe fossem ordenadas e o processo estava completo. Mas Lutero sabia que no meio deste ato crucial era justamente quando ele era mais egoísta. Estava confessando seus pecados e cumprindo sua penitência apenas pelo instinto humano de salvar a sua pele. E, também, pela tendência humana de pecar, ele não conseguia se confessar o suficiente.
Este assunto crítico permaneceu vívido na mente de Lutero. Ele comentou depois: “Se alguém confessasse seus pecados na hora certa, ele teria que carregar um confessor no seu bolso!” Como seus professores sabiam, ele de fato podia levar ao desespero (ou como acreditavam então, o pecado contra o Espírito Santo). No caso de Lutero, ele era de vez em quando levado ao desespero mesmo.

Quem pode ser justo?
Durante seus anos iniciais, quando Lutero lesse o famoso “Texto da Reforma” — Romanos 1.7 — seus olhos seriam levados não para a palavra fé, mas para a palavra justo. Quem, afinal, podia “viver pela fé”? Somente aqueles que já eram justos. O texto era claro sobre o assunto: “O justo viverá pela fé.”
Lutero observou: “Eu odiava aquela frase, ‘a justiça de Deus’, pela qual eu tinha sido ensinado de acordo com o uso e costume de todos os professores... [que] Deus é justo e pune o pecador injusto.” O jovem Lutero não podia viver pela fé porque não era justo – e ele sabia disso. Durante sua confusão, Lutero muitas vezes abordou Johann von Staupitz, seu superior, sobre as suas dúvidas, pecados e ódio de um Deus justo. Ele fazia isso tão freqüentemente que uma vez Staupitz o mandou sair e cometer um pecado de verdade: “Você quer ficar sem pecado, mas você não tem pecados de verdade... o assassinato de um dos pais, vícios públicos, blasfêmia, adultério, coisas assim... Você não deve inflar os seus pecados mancos, artificiais e fora de proporção!”
Mas Lutero não se conformou: “Mesmo que minha consciência nunca me dê segurança, ainda assim sempre duvidei e disse, ‘Você não fez aquilo corretamente. Você não confessou tal coisa’.”

Contradizendo tudo
O momento, ou melhor, os momentos críticos na vida de Lutero resultaram de uma decisão de seus superiores. Eles, particularmente Staupitz, ordenaram que ele fizesse seu doutorado e se tornasse um professor bíblico na Universidade de Wittenberg. Dependendo do ponto de vista, esta foi a mais brilhante ou a mais estúpida decisão da história do cristianismo latino.
Lutero resistiu ao chamado, dizendo, “Será a minha morte!”, mas finalmente aceitou. Ele logo adquiriu sua própria identidade madura como professor ou doctor ecclesiae (ou professor da igreja), na qual freqüentemente buscava refúgio, até mesmo ao ponto de assinar seu nome normalmente, D. Martinus Lutherus.
Mais importante que isso, a revolução em seu pensamento teológico ocorreu na sala de palestra e estudo dos professores, de 1513 a 1519. Ele começou reinterpretando a justiça de Deus e então estendeu sua interpretação para questões centrais da teologia cristã.
No fim de 1513, início de 1514, quando chegou ao Salmo 72, explicou aos seus alunos: “Isto é o que é chamado julgamento de Deus: como a justiça ou força ou sabedoria de Deus, é com isto que somos sábios, justos e humildes ou pelo qual somos julgados.”
Esta é uma frase notável: a última frase é sobre o que ele foi ensinado; era a ortodoxia daquele tempo: Deus julga por sua justiça. Mas a primeira frase – Deus nos dá justiça – é a que ele ensinaria cada vez mais. De fato, um pouco mais tarde, durantes as palestras, rejeitou totalmente a doutrina comum e afirmou o contrário, ao dizer que todos os atributos de Deus, – “verdade, sabedoria, salvação, justiça” – eram “as coisas com as quais ele nos faz fortes, salvos, justos e sábios”.
Junto com estas mudanças vieram outras. A Igreja não era mais a instituição que se gabava de sucessão apostólica; pelo contrário, era a comunidade daqueles que tinham recebido a fé. A salvação não vinha pelos sacramentos por si só, mas pelo seu papel em nutrir a fé. A idéia de que os seres humanos tinham uma faísca de bondade (suficiente para buscar a Deus), não era uma fundação em teologia, mas ensinada pelos tolos, que não conheciam teologia. A humildade não era mais a virtude que ganhava graça, mas uma resposta necessária ao dom da graça. A fé não mais consistia em obedecer aos ensinos da Igreja, mas em confiar nas promessas de Deus e nos méritos de Cristo.
Em resumo, Lutero trabalhou numa revolução que contradisse tudo o que lhe havia ensinado. Como certos revolucionários em seu próprio tempo, estava tudo ali, pronto para explodir, e nem mesmo o líder principal tinha consciência de seu potencial.

Reação em cadeia
De fato, o que aconteceu foi mais uma longa e poderosa reação em cadeia do que uma explosão repentina. Começou na Noite de Todos os Santos, em 1517, quando Lutero fez uma objeção formal ao modo como o pequeno e atarracado Johann Tetzel estava pregando uma indulgência plenária.
As indulgências eram documentos preparados pela Igreja e comprados por indivíduos para si mesmos ou em favor dos mortos. Conseqüentemente, o comprador vivo ou morto seria liberado do purgatório por determinado tempo. No segundo exemplo, uma indulgência plenária, ou total, libertaria completamente a pessoa e raramente era oferecida. De qualquer modo, o dinheiro da venda de indulgências era usado para sustentar os projetos da Igreja, como por exemplo, no caso das vendas de Tetzel, a reconstrução da basílica de S.Pedro, em Roma.
Tetzel orquestrou cuidadosamente seus comparecimentos para excitar o interesse do público. Ele preparava seus sermões para agradar e persuadir, muitas vezes terminando com a famosa frase: “Quando uma moeda no cofre tilintar, uma alma do purgatório para o céu vai voar!”
Lutero simplesmente queria questionar o tráfico de indulgências da Igreja. Ele desafiou todos os que ali estavam para debater a prática do modo acadêmico adequado. Mas os eventos tomaram a questão das suas mãos.
Suas 95 Teses foram traduzidas para a língua popular e espalhadas pela Alemanha dentro de duas semanas. Lutero foi convidado para debater os aspectos teológicos em Heidelberg, durante o encontro regular dos agostinianos na primavera de 1518. Então, ele passou por uma entrevista excruciante com o cardeal Cajetam, em Augsburg, naquele outono. Foi tão doloroso que, Lutero lembra, ele não podia nem andar a cavalo, porque seu intestino esteve solto da manhã à noite.

Oposição à autoridade
Lutero tinha boas razões para estar ansioso. O assunto rapidamente deixou de ser a respeito de indulgências, ou as indulgências de Tetzel, (que eram extraordinárias sob qualquer ponto de vista), mas a autoridade da Igreja: o papa tinha o direito de cobrar tais indulgências?
O assunto da questão original – se os seres humanos podem tirar do tesouro dos méritos de Cristo, confiados à Igreja, para alterar sua posição diante de Deus – não era uma grande preocupação para os oponentes de Lutero. Na verdade, eles eram repetidamente proibidos de debater com ele a esse respeito. A questão era, ao contrário, se a Igreja podia declarar que era assim e esperar obediência.
O assunto central do debate de Leipzig tornou-se público no fim de junho, em 1519, uma ocasião magnífica. Os estudantes de Wittenberg foram armados com bastões. O bispo local tentou proibir o debate, e o duque George da Saxônia, que o patrocinou, colocou uma guarda armada para garantir que tudo aconteceria dentro da ordem. No fim, ficou claro que Lutero estava formando uma revolução que atingiu a própria Igreja.
Em resumo, Lutero declarou que “um simples leigo armado com as Escrituras” era superior tanto ao papa e aos concílios sem elas. Dessa forma, Lutero ricamente mostrou-se merecedor da bula (documento papal), que o ameaçava de excomunhão, que veio em 1520. Ele respondeu a ela queimando tanto a bula quanto a lei do cânon.

Seus três ensaios mais importantes
Lutero, então, explicou nos mínimos detalhes as conseqüências práticas de sua teologia. Naquele verão ele escreveu os que são, indiscutivelmente, seus três tratados mais importantes: Discurso à nobreza cristã, O cativeiro babilônico da igreja e A liberdade do cristão. Com estes três ensaios, ele colocou a si mesmo e aos seus (então) muitos simpatizantes em oposição à quase toda a teologia e prática da cristandade no fim da Idade Média.
No primeiro, ele pede aos líderes que tomem em suas próprias mãos a reforma necessária da Igreja, ao mesmo tempo em que argumenta que todos os cristãos são sacerdotes.
No segundo, reduziu os sete sacramentos; primeiro a três (batismo, Ceia do Senhor e penitência), depois para apenas dois, enquanto alterava radicalmente seu caráter.
No terceiro, disse aos cristãos que eles eram livres da lei (em particular das leis da Igreja), ao mesmo tempo em que eram prisioneiros em amor do seu próximo.

“Não me retratarei”
A Dieta (ou encontro) de Worms, que aconteceu na primavera de 1521, foi, portanto, em um sentido, pouco mais do que um efeito marola de um navio que já havia zarpado. O imperador de Roma, Charles V, (que também era Charles I da Espanha) nunca tinha estado na Alemanha. Ele convocou a Dieta para encontrar os príncipes da Alemanha, os quais conhecia muito pouco e precisava cortejar desesperadamente. Mas este frei conhecido pelo nome de Lutero também precisava ser abordado.
Lutero deixou Wittenberg para estar presente na Dieta convencido de que finalmente teria a audiência que pediu em 1517. Quando foi introduzido na Dieta, Lutero ficou surpreso em ver o próprio imperador Charles V. Ele estava cercado pelos seus conselheiros e representantes de Roma, tropas espanholas, vestidos com seus melhores trajes de desfile, eleitores*, bispos, príncipes de território e representantes das grandes cidades. No meio desta augusta assembléia estava uma mesa com uma pilha de livros.
Lutero foi questionado se havia escrito os livros, e se havia alguma parte que ele desejava retratar. Ficou surpreso; aquilo não ia ser um debate judicial, mas um interrogatório. Lutero ficou bastante confuso, tropeçou e implorou por outro dia: “Isto toca Deus e sua Palavra. Isto afeta a salvação de almas. Eu imploro, dê-me mais tempo.”
Ele teve um dia e, de volta aos seus aposentos, escreveu: “Assim como Cristo é misericordioso, eu não retirarei nem um pingo do texto.”
No dia seguinte, os negócios da Dieta atrasaram o retorno de Lutero até tarde da noite. A luz das velas tremeluzia sobre a multidão de dignitários que se espremiam na grande sala.
Ele foi novamente questionado: “Você defende estes livros, todos juntos, ou você deseja retirar algo do que disse?” Lutero replicou com um pequeno discurso, o qual repetiu em latim.
Havia três tipos de livros na mesa, ele declarou. Alguns eram sobre a fé cristã e as boas obras, e estes ele certamente não corrigiria. Alguns atacavam o papado e corrigir estes seria encorajar à tirania. Finalmente, alguns atacavam o indivíduo (e, Lutero admitiu, talvez de maneira muito difícil), mas ainda estes não podiam ser corrigidos porque estas pessoas defendiam a tirania papal.
Com certeza, veio a resposta, um indivíduo não podia colocar dúvida na tradição de toda a Igreja! Então o examinador declarou: “Você deve dar uma resposta simples, clara e própria.. Você se retratará ou não?”
Lutero replicou: “A menos que eu possa ser instruído e convencido com evidências na Palavra de Deus ou com raciocínio aberto, claro e distinto... Então, não posso e não me retratarei, porque não é seguro ou sábio agir contra a consciência.”
Então, ele completou: “Isto é o que penso. Nada posso fazer diferente disso. Que Deus me ajude! Amém.”

Cavaleiro George
Quando as negociações não tiveram êxito em conseguir qualquer concessão, Lutero foi condenado. Ainda assim, recebeu salvo-conduto, como havia sido prometido antes de ele vir, mas somente por 21 dias.
Mas assim que Lutero e seus companheiros começaram a voltar para Wittenberg, quatro ou cinco cavaleiros armados saíram da floresta, arrancaram Lutero de sua carruagem e o arrastaram de lá às pressas. Rapidamente, ele foi informado de que fora seu príncipe, Elector Frederick, O Sábio, que o seqüestrara para mantê-lo a salvo. Logo chegou a Wartburg, um dos castelos de Frederick. Lutero era um fora-da-lei; qualquer um podia matá-lo sem temer represálias de uma corte da lei.
Lutero detestava sua estada forçada em Wartburg. Como “cavaleiro George” (sua nova identidade), ele agora comia como um nobre e sua nova alimentação irritava seu aparelho digestivo. Ele sentia falta de seus amigos em Wittenberg, e odiava ficar afastado da luta. Até fez planos de fazer uma visita à Universidade de Erfurt, onde estaria fora da jurisdição. Isto falhou, mas ele conseguiu um cavalo e fez uma viagem até Wittenberg, de onde retornou muito aliviado com o curso dos eventos entre seus amigos.
Apesar de suas reclamações sobre solidão forçada e sua própria “preguiça”, os dez meses no gelo de Lutero estão entre os mais produtivos de sua vida. As obras teológicas e acadêmicas continuaram, com seu Comentário sobre o Magnificat, tocante e quase autobiográfico, o incompleto Postillae e a tradução do Novo Testamento, do qual ele fez um rascunho em 11 semanas.
Mas o que começou com suas palestras e as 95 Teses estava agora virando um movimento popular. Ele sentia-se obrigado a responder às perguntas práticas das pessoas. Ele o fez sob forma de tratados, tais como Sobre a confissão, A abolição das missas particulares, e acima de tudo, Sobre os votos monásticos.
O último se destaca como um dos mais extraordinários trabalhos jamais escritos por uma figura pública. Por toda a Alemanha, em particular Wittenberg, monges e freiras estavam fugindo de seus monastérios e clausuras – alguns por razões de consciência, outros por pura conveniência. Desprezar a religião estava virando algo comum. Ao mesmo tempo, os defensores da velha Igreja insistiam na inviolabilidade dos votos monásticos.
Totalmente consistente com seu A liberdade do cristão, Lutero tomou uma estrada intermediária. Toda a questão era se e como alguém podia servir melhor ao próximo. Se alguém o fizesse sob as ordens sagradas, então que permanecesse assim. Por outro lado, os votos monásticos não eram uma prisão, e se alguém serve o próximo melhor fora do monastério ou da clausura, então que viva no mundo. A liberdade de servir, portanto, tornou-se um marco na Reforma Luterana Alemã.

Decisões controversas
Conforme sua revolução se expandia, Lutero foi cada vez mais se atirando na arena pública. Ele retornou abertamente a Wittenberg, no início da primavera de 1522, e sem pedir a permissão do eleitor, retomou o púlpito e pregou sobre a obrigação de amar o próximo. A decisão de retornar nasceu de sua convicção de que o movimento incipiente da Reforma (alguns afirmavam que os cristãos deviam se casar e que os monges e freiras deviam tornar-se leigos) não estava respeitando a liberdade cristã ou as consciências fracas.
Em tempo, Lutero foi forçado a tomar outras decisões, muitas das quais ainda são controversas.
Quando houve agitação, resultante da Guerra dos Camponeses, em 1524–1525, ele primeiro condenou os príncipes e depois os exortou a esmagar a revolta.
Quando Erasmus, famoso estudioso humanista, duvidou de que a verdade sobre se os humanos têm livre-arbítrio pudesse ser conhecida, Lutero replicou: “O Espírito Santo não é um cético”, e acusou Erasmus de não ser cristão.
Quando os reformadores suíços Zwingli e Oecolampadius questionaram se o corpo e sangue de Cristo estavam realmente nos elementos da Ceia do Senhor, Lutero respondeu: “Mera física!”, e ajudou a inflamar a controvérsia que por fim dividiu as Igrejas Luterana e Reformada.
Seu tremendo esforço em criar um novo clero e uma igreja reformada também trouxe as autoridades civis mais diretamente para o governo diário da Igreja.
Sua decisão de se casar com uma freira que fugiu, Katharina von Bora, escandalizou a muitos. Para Lutero, o choque era acordar de manhã com “tranças no travesseiro ao meu lado”.
Sobre o seu esforço contínuo de traduzir a Bíblia para o alemão, ele disse: “Se Deus quisesse que eu morresse pensando que sou um homem inteligente, não teria me colocado na missão de traduzir a Bíblia.”
Com todas estas decisões e ações, Lutero exibiu uma incrível consistência. O grande marco de sua vida é o modo como ele uniu sua personalidade e sua doutrina vigorosas. Para ele, a doutrina nunca foi uma questão meramente intelectual ou acadêmica. Pelo contrário, era a própria vida. No prefácio de “Large Catechism” [Grande catequese], ele insiste em que os cristãos leiam e releiam suas catequeses para que “com tal leitura, conversa e meditação o Espírito Santo esteja presente e derrame sempre luz e fervor cada vez maiores e renovados”. Ele queria que todos os cristãos se tornassem pessoas ensinadas por Deus.

Dr. James M. Kittelson é professor de História na The Ohio State University, Columbus, Ohio, e autor de Luther the Reformer [Lutero, o reformador] (Augsburg, 1986).

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