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quarta-feira, 6 de novembro de 2019

A influência do líder cristão - Amor sacrificial



A INFLUÊNCIA DO LÍDER CRISTÃO

Provavelmente nenhum estrangeiro exerceu uma maior liderança sobre as pessoas de Shaohsing, na China, em princípios do século vinte, que o doutor Claude H. Barlow (1876 - 1969). Este missionário médico, que foi homem modesto, foi a personificação do domínio próprio.
Uma estranha enfermidade, cuja cura era desconhecida, estava matando as pessoas e não se dispunha de um laboratório no qual pudessem se realizar, sobre a doença, pesquisas apropriadas. O doutor Barlow encheu seu caderno de notas com observações acerca das peculiaridades da enfermidade em centenas de casos. Então, avendo se apoderado de uma pequena proveta que continha os micróbios da enfermidade, navegou até os Estados Unidos. Pouco antes de chegar, aplicou os germes em seu próprio corpo e foi rapidamente até o Hospital da Universidade Johns Hopkins, onde havia estudado.
Claude Barlow estava muito enfermo, de maneira que se pôs nas mãos daqueles que haviam sido seus mestres, oferecendo-se como cobaia, para que eles estudassem e experimentassem sobre seu corpo. Encontraram a cura e o jovem médico se recuperou. Regressou de novo ao barco para a China com o tratamento científico que curaria aquela praga e logrou salvar a vida de multidões inteiras.
Quando lhe perguntaram acerca de sua experiência, o doutor Barlow disse simplesmente: “Qualquer um faria o mesmo. Por acaso em encontrei na situação adequada e tive a oportunidade de oferecer meu corpo”. Que tremenda humildade! Que grande amor o seu!
Não é de estranhar, portanto, que as multidões seguissem a liderança de Barlow, depois de seu regresso. Demonstrou o domínio do amor. Arriscou a vida e digamos que também sua reputação e seu futuro ministério, tentando o impossível e motivando a outros graças a seu amor que foi manifesto na entrega de todo o seu ser para o benefício do próximo. E a qualidade inigualável desse amor foi seu autodomínio, seu controle de si mesmo.
É essa classe de líderes a que atrai seguidores e os faz desejar seguir atrás de um tal condutor.
John Haggai

(Traduzido do livro 502 Ilustraciones Selectas, de José Luis Martínez).


sexta-feira, 1 de março de 2019

Não preste atenção na montanha – O aprendizado de Bill Hybels na Índia



Este é o primeiro princípio para vencermos os problemas: a fé vem pelo olhar para Deus, não para a montanha.
Há alguns anos, um membro do coral da minha igreja e eu fomos convidados por um líder cristão para ir ao sul da índia. Ali nos reuniríamos a um grupo de ministério composto por pessoas de diversas regiões dos Estados Unidos. Foi-nos dito que Deus nos usaria para alcançar para Cristo muçulmanos, hindus e pessoas sem religião. Todos nós nos sentimos chamados por Deus para ir, embora sem saber o que nos aguardava.
Ao chegarmos, o líder indiano nos convidou para ir a sua casa. No decorrer dos dias, falou-nos de seu ministério.
O pai dele, orador e líder dinâmico, havia iniciado a missão em uma região de domínio hindu. Certo dia, um líder hindu pediu a seu pai que orasse.
Ansioso para orar com o homem, na esperança de levá-lo a Cristo, aquele cristão conduziu-o a uma sala particular, ajoelhou-se com ele, fechou os olhos e pôs-se a orar. Enquanto orava, o hindu tirou uma faca da roupa e apunhalou-o repetidas vezes.
Meu amigo, ouvindo os gritos do pai, correu em seu auxílio. Tomou-o nos braços, enquanto o sangue se espalhava pelo assoalho da cabana. Três dias depois, o pai morreu. Em seu leito de morte, falou ao filho: "Diga, por favor, àquele homem, que ele está perdoado. Cuide de sua mãe e continue com este ministério. Faça o que for necessário para ganhar pessoas para Cristo."
Com mais coragem e fé do que a maioria das pessoas jamais sonharia em obter, este homem de Deus obedeceu. Há mais de vinte anos vem trabalhando com fervor inacreditável. Fundou mais de cem igrejas, uma clínica médica, além de vários tipos de ministérios.
Todo ano, geralmente em fevereiro, ele aluga um enorme parque, monta um palco e um sistema de som improvisados, pendura algumas lâmpadas e dirige reuniões evangelísticas durante uma semana. Faz publicidade das reuniões por intermédio de cartazes e alto-falantes por toda a cidade. As pessoas acorrem aos milhares e sentam-se no chão, em frente ao palco, homens de um lado e mulheres e crianças, do outro.
As reuniões da noite começam às 18 horas. Por cerca de meia hora eles ouvem música instrumental gravada, seguida por alguns números especiais. Depois, vem o sermão de aquecimento. Instrutivo, prático e relevante para a vida diária, seu objetivo é mostrar aos ouvintes que o Cristianismo faz sentido.
Mais ou menos às 20 horas, mais dois números musicais são apresentados, antes da mensagem principal, que é sempre centrada na pessoa de Jesus Cristo. O pregador fala sobre quem era Jesus, o que Ele fez, como morreu, como sua morte paga o preço pelo pecado, como sua ressurreição dá poder àqueles que colocam sua fé e confiança nele.
Das 21h até 21h30, os ouvintes, quer sejam hindus, muçulmanos ou não religiosos, são convidados a crer em Cristo. São chamados à frente para receber perdão, purificação e vida eterna, depois são desafiados a abandonar outros deuses ou sistema religioso que trouxeram consigo para a reunião, e a colocar fé e confiança somente em Jesus.

Uma missão assustadora na índia

De terça até quinta-feira, minhas tarefas foram viáveis. Eu falava em uma reunião bem pequena, na parte da manhã ou pregava o sermão de aquecimento, à noite. Na sexta-feira, o líder do ministério disse: "Eu recebi orientação de Deus e quero que você se encarregue do sermão principal desta noite."
Estarrecido, fiquei imaginando por que eu não havia recebido uma orientação semelhante.
A barreira do idioma parecia quase intransponível, mesmo com o tradutor.
Eu não estava familiarizado com a cultura e minha palavra seria de pouca ou nenhuma relevância para a situação das pessoas. Seria difícil usar ilustrações engraçadas. Eram tantas incógnitas que, toda vez que eu tentava orar, depois de trinta segundos era impedido por dúvidas e temores. De que adianta?, pensava. As barreiras são intransponíveis.
A noite chegou. Pegamos um riquixá para o parque. Ao nos aproximarmos, ouvi a primeira mensagem pelo alto-falante. Havia um pouco de tempo para acalentar minha paranoia.
Sentamos no fundo do palco. Olhei, e vi o maior mar de rostos que já vira na vida. Um dos líderes indianos me cutucou e disse: "Temos vinte mil hoje, talvez trinta."
Depois desta, qualquer migalha de confiança que eu pudesse ter, desapareceu. Vai ser um desastre - pensei. O que estou fazendo aqui?
Olhei para trás do palco. O líder do ministério e diversos líderes de sua confiança, com os rostos em terra, oravam.
Sei a respeito do que estão orando - refleti. Já se deram conta de que o americano que vai pregar o sermão principal é bem capaz de esvaziar o parque em questão de minutos!
Era do meu conhecimento que aqueles homens viviam na pobreza e lutavam com dificuldades incríveis para pregar a Palavra de Deus. Haviam dado suas vidas para que as pessoas presas em sistemas religiosos falsos pudessem conhecer a verdade de Jesus Cristo. Como as reuniões anuais eram o ponto alto de seus esforços de todo um ano, sentia-me angustiado com o revés que o trabalho deles iria sofrer devido à minha pregação inepta.

Grande é a tua fidelidade

Àquela altura, o primeiro pregador terminou a mensagem. Eu teria ainda cerca de dez minutos antes de entrar na linha de fogo. Pouco depois, a solista da minha igreja se aproximou do microfone, para cantar.
Tenho que sustentá-la em oração - pensei - mas serei o próximo, e quando o navio está afundando, é cada um por si.
Minha oração tornou-se mais veemente. Oh, Senhor, livra-me. Faça chover. Faça com que eu desapareça!
A montanha parecia tão grande que eu não via porque pedir a Deus para removê-la. Eu ficaria feliz se ela caísse sobre mim e me libertasse da angústia.
Enquanto minhas orações lastimáveis dançavam em minha mente cheia de dúvidas, eu ouvi timidamente a solista.

Grande é a tua fidelidade, meu Pai celestial,
Não há sombras ao teu lado;
Tu não mudas, tuas misericórdias jamais se acabam;
Como tu eras, sempre serás.
Grande é a tua fidelidade! Grande é a tua fidelidade!
Tuas misericórdias se renovam a cada manhã;
Tua mão provê todas as minhas necessidades —
Grande é a tua fidelidade para comigo, Senhor!

Como eu, a cantora não sabia a língua dos ouvintes. Portanto, ela não podia apenas cantar uma canção; devia haver uma comunicação de coração para coração, ou nada aconteceria. Ao mesmo tempo em que ela se comunicava, de coração para coração, com milhares de pessoas diante do palco, também se comunicava com um pastor angustiado, inseguro, sem fé, que precisava bem mais daquela música do que a própria multidão. Algo aconteceu comigo ao ouvir a letra de: "Grande é a tua fidelidade". Enquanto as palavras penetravam em meu cérebro, lembrei-me para onde eu havia direcionado a minha atenção durante todo o dia. Em mim mesmo: a barreira da linguagem, minha perplexidade cultural, minha inexperiência, minha fraqueza, meu medo de fracassar, meu pavor de uma multidão tão grande. Eu estava olhando apenas para a minha montanha, e só conseguia ver minha incapacidade para removê-la.
Minhas orações eram lamentáveis porque eu olhava para minha insuficiência, em vez de olhar para a suficiência de Deus!

Mudança de direção

À medida em que o hino continuava, disse a mim mesmo: Espere um pouco, vou mudar a direção agora mesmo. Vou olhar para Deus, não para Hybels.
Eu tinha pouco tempo, e comecei a orar com fervor: "Oro ao criador do mundo, rei do universo, o Deus Todo-Poderoso, onisciente e fiel. Oro ao Deus que criou as montanhas e que, se for preciso, pode movê-las. Oro ao Deus que tem sido sempre fiel a mim, que jamais me desapontou por mais assustado que eu estivesse ou por mais difícil que fosse a situação. Oro ao Deus que deseja produzir frutos por meu intermédio, e confio que serei usado por Ele esta noite, não por ser quem eu sou, mas por quem Ele é. Ele é fiel."
Quando o hino terminou, o meu interior era de uma pessoa diferente. Eu bem que aceitaria um substituto, caso alguém se oferecesse, mas não me sentia mais apavorado. Estava pronto para começar, porque um Deus fiel era o objeto de toda a minha atenção. Quando subi à plataforma com o tradutor, fiz a oração que move montanhas, porque estava firmemente direcionada para a suficiência de Deus, e não, para a minha insuficiência.
Naquela noite falei com a confiança concedida pelo Espírito Santo, baseada na suficiência de Deus. Contei àquelas pessoas que alguém havia derramado o sangue para pagar pelos seus pecados. Este alguém não era Buda, nem um deus hindu, ou um personagem de um mito, ou conto de fadas. Foi um ser humano de verdade chamado Jesus, o único Filho de Deus. Repeti inúmeras vezes: "Você é importante para Ele. Ele derramou o próprio sangue para perdoar os seus pecados e vocês podem ser libertos se colocarem sua fé e confiança nele."
Eu sabia que Deus estava operando enquanto eu falava.
Terminei a mensagem e as pessoas foram convidadas para aceitar a Cristo.
Voltei para o fundo do palco, caí de joelhos e comecei a orar: "Senhor, sei como estas pessoas são importantes para ti. Traga-as para junto de ti."
Centenas e centenas de pessoas vieram à frente: hindus, muçulmanos, incrédulos de todos os tamanhos e formas, cores e idade. Foram tantos que pensei que meu coração fosse explodir. Estava me rejubilando por todos os que encontraram uma nova vida em Cristo e, também, porque naquela noite Deus, por intermédio da oração, havia pego uma montanha chamada medo e a havia lançado nas profundezas do mar.
Naquela noite eu aprendi que, para Deus, não existem barreiras. Deus está pronto para me usar. Quando eu me concentrei em Deus e não na montanha, Ele pode operar por meu intermédio.

Bill Hybels

Trecho do livro Ocupado Demais Para Deixar de Orar (Editora United Press).


segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Biografia de Casiodoro de Reina, principal tradutor da Bíblia conhecida como Reina-Valera


Seu nome é amplamente conhecido no mundo cristão de língua hispânica – mas a sua história não. Associado à Bíblia de maior prestígio e difusão, muitos tem chegado a atribuir a sua versão da Bíblia o caráter de «inspirada».
Casiodoro de Reina e seu assistente Cipriano de Valera –na versão da sua Bíblia tal como é conhecida hoje–, formam a dupla mais conhecida de nomes quase sagrados para o povo evangélico de língua hispânica.
Além de sua condição de tradutor da Bíblia, Casiodoro de Reina representa a sorte e o destino de muitos cristãos da sua época. Perseguições, difamações, estreitezas econômicas, incompreensões dos seus próprios irmãos, formaram parte do caminho que teve que seguir o homem que, sem sabê-lo, teria que abençoar a tantos na posteridade.
Por detrás da tradução da Bíblia que hoje tanto desfrutamos, há uma vida oferecida a Deus no altar do holocausto.

Um frade dissidente
Casiodoro de Reina (ou Reyna, no espanhol antigo), nasceu em Montemolín, Badajoz, Espanha, por volta de 1520, apenas um ano depois que Lutero cravou as suas 95 teses na porta da catedral de Wittenberg.
Logo depois de estudar na universidade, ingressou no monastério jerônimo de São Isidoro do Campo em Sevilha; o qual, neste tempo tinha se transformado em um foco do «luteranismo», até o ponto de atrair sobre si a atenção da Inquisição.
O Novo Testamento de João Pérez de Pineda e outras obras protestantes, trazidas de contrabando pelo valoroso Julianillo Hernández, eram o alimento cotidiano dos frades daquele convento.
De fato, Casiodoro tinha se transformado no guia espiritual daquele lugar, e inclusive do grupo secular simpatizante das doutrinas da Reforma na cidade de Sevilha. Mas diante da repressão desencadeada, Casiodoro e outros companheiros, entre eles Cipriano de Valera, fogem para Genebra em 1557.
De todos os frades de San Isidro do Campo que fugiram de Sevilha, e se dirigiram para Genebra, Casiodoro de Reina foi o único que não teve que fazer estudos suplementares de teologia no Théodore de Bèze em Lausanne, e também o único a quem os Inquisidores sevilhanos no Auto de Fé do 23 abril de 1562 deram o honorável título de ‘heresiarca’, que quer dizer, mestre dos hereges.
Segundo testemunho dos próprios inquisidores, Casiodoro tinha propagado com muito êxito a doutrina evangélica entre os seculares de Sevilha. Inclusive um documento da inquisição assinalava que um Frei Casiodoro era o responsável pela súbita conversão ao luteranismo de todos os monges de San Isidro.
O próprio Casiodoro, em seu livro Sanctae Inquisitionis Hispanicae Artes, afirma que somente foram dois frades de San Isidro que deram início a este assunto, com o resultado de que em poucos meses quase todos os frades do convento, ou tinham se convertido, ou pelo menos simpatizavam com eles. Um destes iniciadores foi naturalmente o próprio Casiodoro, quem por modéstia ou cautela entra no anonimato, sendo ele mesmo o verdadeiro autor deste primeiro grande livro contra a Inquisição publicado em Heidelberg em 1567 sob o pseudônimo de Reginaldus Gonsalvius Montanus.

Permanência em Genebra
Quando Casiodoro chegou a Genebra, planejou de traduzir a Bíblia completa para o espanhol. Ele foi falar com Juan Pérez de Pinheiral sobre os seus planos, quem tinha apoiado na tradução do Novo Testamento de Francisco de Enzinas, publicada em 1543.
A estes mesmos planos Casiodoro certamente em um de seus encontros, fez menção a Calvino, quem não deixaria de lhe recordar como Enzinas tinha lhe solicitado, cinco anos atrás, intervir pessoalmente para assegurar o financiamento final de sua própria versão da Bíblia em espanhol.
 Calvino aceitou colaborar em tal empreendimento, mas o que Calvino não sabia era que a tradução de Enzinas não tinha sido feita à partir dos textos originais, mas da versão latina de Sebastian Castellion, apóstolo da tolerância religiosa, amigo íntimo de Enzinas e o homem mais odiado por Calvino e os calvinistas.
A excelente versão em latim clássico de Castellion, que fascinou, além de Enzinas, também a Fadrique Furió Cerol –primeiro caudilho espanhol da difusão da Bíblia em idioma vulgar–, devia gostar tanto de Casiodoro, que decidiu, a despeito de João Pérez, de Cipriano de Valera, e de outros espanhóis submissos a Calvino, de escrever uma carta a Castellion.
Casiodoro se tornou assim suspeito aos ultraortodoxos calvinistas de Genebra, por sustentar, além disso, que também deveria considerar como irmãos os anabatistas, por propagar entre os refugiados espanhóis o livro de Castellion  ‘que não se devia queimar os hereges’, e para dizer que Miguel Servet tinha sido queimado injustamente em Genebra. Os seus inimigos reprovaram a Casiodoro que ‘cada vez que ele passeava diante do lugar da fogueira de Servet, lhe saltavam as lágrimas’. E quando se inteiraram mais tarde que Casiodoro tinha partido para a Inglaterra para fundar ali uma nova comunidade cristã, não demoraram em lhe pôr o adjetivo de ‘Moisés dos espanhóis’, porque conseguiu levar consigo muitos dos seus compatriotas.
 Assim Casiodoro se tornou abominável para os genebrinos, e Genebra abominável para Casiodoro. Com efeito, o que Casiodoro viu em Genebra não foi do seu agrado: em 1553 executaram Miguel Servet e o tratamento dado aos dissidentes era muito controvertido. Reina se opunha à execução de hereges –reais ou supostos– por considerá-la uma afronta ao testemunho de Cristo. Traduziu secretamente o livro de Sebastián Castellion «Sobre os hereges», De herectis an sint persequendi, que condena as execuções por razões de consciência e documenta a rejeição original do cristianismo a semelhante prática.
Ainda que Casiodoro de Reina fosse firmemente trinitário e, portanto, não compartilhava as crenças unitárias por motivo das quais Servet foi queimado, não podia aceitar que alguém fosse executado por suas crenças. Entrou em tal contradição com João Calvino e a rigidez imperante, que lhe fez dizer que «Genebra tinha se convertido em uma nova Roma».

Errando como proscrito
Em tal encruzilhada, Casiodoro foi a Londres no final de 1558. Ali teve a alegria de recuperar os seus parentes mais próximos – entre eles o seu pai e a sua mãe – que tinham escapado da Inquisição espanhola. Casiodoro organiza ali uma Igreja para os de língua hispânica, aceitando também como membros a italianos e  holandeses caídos em desgraça em suas respectivas igrejas.
No princípio se reuniam três vezes por semana em uma casa que o bispo de Londres lhe fornecera, e mais tarde, na igreja de Santa Maria de Hargs, que gentilmente lhes concedeu a própria rainha Isabel I. Por este tempo, Casiodoro se casa.
Em janeiro de 1560, redige a ‘Confissão de fé feita por certos fiéis espanhóis, que fugindo dos abusos que a igreja Romana e a crueldade da Inquisição da Espanha fizeram à Igreja dos fiéis para ser nela recebidos por irmãos em Cristo’. E desde então não deixa de trabalhar na tradução dos livros sagrados que pensava levar a bom termo em um tempo razoável.
Essa era a sua pretensão. Mas não contava com as trapaças provenientes de dois grupos, que ainda que totalmente opostos em seus interesses, fizeram-se unânimes na vontade de impedir o trabalho do tradutor da Bíblia.
Por um lado, os inquisidores, que conseguiu infiltrar um agente provocador na nascente igreja – nada menos que Gaspar Zapata, o assistente de Casiodoro no trabalho de tradução –, e fizeram chantagem ou promessas a alguns membros fracos, dispostos a denunciar o seu próprio pastor diante das autoridades inglesas do crime execrável de sodomia.
E por outro lado, os ciumentos calvinistas das igrejas francesas e flamencas de Londres, que guiado por sua extrema desconfiança e antipatia por Casiodoro, não faziam senão esquadrinhar os textos traduzidos, ainda incompletos, procurar heresias por toda parte, e denunciá-las imediatamente a Genebra, chegando ao extremo de apoiar cegamente o duplo jogo montado a todas vistas pelo embaixador da Espanha em Londres, e por agentes da Inquisição.
O resultado desta dupla conspiração foi a fuga precipitada de Casiodoro de Reina para Amberes, em janeiro de 1564, e a imediata dispersão da comunidade espanhola de Londres.
Por sorte, Casiodoro pôde pôr a salvo os manuscritos, que lhe foram enviados semanas depois a Amberes pelo velho pároco de San Isidro, Francisco de Farías, ou por algum outro ex-frade de toda a sua confiança. Em Amberes passou enormes dificuldades econômicas para poder continuar com a tradução da Bíblia.
Foi então quando o Rei Felipe II pôs a cabeça do fugitivo a prêmio, como se lê em uma carta do governador de Amberes ao regente dos Países Baixos: ‘Sua Majestade gastou grandes somas de dinheiro para encontrar e descobrir ao dito Casiodoro, para lhe poder deter, se porventura se encontrasse nas ruas ou em qualquer outro lugar, prometendo uma soma de dinheiro a quem lhe descobrisse’.
Procurado em toda parte pelos guardas da Inquisição, e suspeito de heresia, ou de piores coisas, mesmo por seus irmãos de fé, Casiodoro andou durante mais de três anos entre Frankfurt, Heidelberg, o sul da França, Basiléia, e Estrasburgo, procurando um lugar onde estabelecer-se como ministro da igreja, ou como simples artesão, para poder terminar a sua tradução.
Naquela época, ele escreve: "Excetuando o tempo que tomei nas viagens de um lado para outro pela perseguição desencadeada pela Inquisição e outro tempo que estive doente, a pena não saiu da minha mão durante nove anos inteiros".
Em 1567 e 1568 o encontramos de novo ocasionalmente na Basiléia, na casa do banqueiro calvinista Marcos Pérez, quem já tinha protegido a Casiodoro em Amberes, e quem agora continuou lhe defendendo contra as acusações de seus correligionários, apoiando finalmente com os custos de impressão da Bíblia. Basiléia era na época o centro da tipografia reformada.

A impressão da Bíblia
Ali fez contato com o tipógrafo Juan Oporino, quem se comprometeu a imprimir 2.600 Bíblias, depois de uma antecipação de 500 florins que Casiodoro tinha entregue por conta da impressão – dinheiro que os refugiados espanhóis de Frankfurt tinham reunido para tal efeito.
Ainda que Casiodoro residisse habitualmente na Basiléia, estava acostumado a fazer viagens a Estrasburgo, onde tinha deixado a sua mulher. De volta de uma destas expedições, caiu gravemente doente; esteve cinco semanas de cama, e ao convalescer-se soube que Juan Oporino tinha morrido.
Recuperar os 500 florins entregues como adiantamento era um difícil empreendimento, porque Oporino tinha morrido arrasado em dívidas, e os seus bens não bastavam para cobri-las. Casiodoro foi aos seus amigos de Frankfurt, que enviaram o dinheiro suficiente para continuar a impressão. Ele mesmo não pôde ir buscar o dinheiro por causa da sua saúde frágil e o rigoroso inverno de 1568, e encarregou esta diligencia aos seus íntimos amigos Conrado Hubert e João Sturm.
Os inimigos espanhóis de Casiodoro, que tinham decidido reimprimir em Paris o Novo Testamento de Juan Pérez, com todas as notas marginais da Bíblia francesa de Genebra (Geneva Note), começaram a exigir para seu projeto uma parte do dinheiro dos fundos dos refugiados espanhóis. A este conflito o embaixador espanhol Dom Francês de Ávila pôs inesperadamente fim, pois, tendo notícia do projeto, fez deter provisoriamente no verão de 1568 ao impressor de Paris. Os cadernos já impressos deste Novo Testamento, caíram nas mãos do embaixador, que se apressou a enviar-lhe ao rei Felipe II como o mais estimado troféu. 
Menos êxitos tiveram o rei e seus agentes para impedir o projeto da Basiléia, possivelmente por não estar informados suficientemente sobre o tempo e lugar onde Casiodoro estava imprimindo a sua Bíblia. Possivelmente foi o próprio Casiodoro quem indiretamente lhes tinha dado uma pista falsa ao escrever a Théodore de Bèze, em abril de 1567, que estava disposto a submeter a seu controle o texto bíblico antes da impressão, que poderia muito bem ser efetuada na gráfica de Jean Crespin em Genebra. Naturalmente que Casiodoro com este ato de submissão não pretendia a não ser obter dos ministros genebrinos seu reconhecimento como ministro, não pensando em nenhum momento em pôr a sua tradução nas mãos dos seus contraditores, e muito menos de imprimi-la em Genebra.
Mas a notícia deve ter chegado aos ouvidos de algum espião da Inquisição, o qual se apressou em transmiti-la para Madri. Em todo caso, já no verão de 1568 a Suprema ordenou aos inquisidores dos portos da península, de estarem bem avisados sobre os livros que entrassem, pois ‘Casiodoro tinha imprimido em Genebra a Bíblia na língua espanhola’. A resposta do Tribunal de Granada não se fez esperar: ‘depois de muitos controles podemos assegurar as suas Excelências que neste reino [de Granada] não entrou nem um único exemplar da Bíblia de Casiodoro’. Bem podiam dizer, pois nessa data (2 de julho), a Bíblia de Casiodoro ainda não tinha começado a ser impressa, pois a morte de Oporino tinha ocasionado um posterior atraso.
Uma nova intervenção de Marcos Pérez, emprestando a Casiodoro a fundo perdido a soma de 300 florins (equivalente ao salário de 3 anos de um professor de universidade), serve para fechar um novo contrato com o impressor Thomas Guarin, quem imprimiu finalmente os 2.600 exemplares. A impressão aconteceu nas oficinas do próprio Guarin e não, como se tem sustentado, na pequena gráfica de Samuel Apiario, de onde não saíam senão livros de pequeno formato e textos limitados.
Mas a impressão não esteve isenta de novas dificuldades. A saúde de Casiodoro era frágil; sentia constantemente dores de cabeça e contínuas febres. Quando começou a impressão de sua Bíblia, a tradução de Casiodoro não estava nem ao menos terminada, apenas a do Novo Testamento, e à medida que avançava o trabalho das prensas, o intérprete se viu cada vez mais apressado pelo tempo. Até maio de 1569 a impressão não tinha chegado aos Atos dos Apóstolos, e faltava por traduzir da segunda Epístola aos Coríntios até o fim.
As esperanças que Casiodoro tinha de utilizar ainda a revisão do Novo Testamento de João Pérez que era impressa em Paris, viram-se frustradas em 1568 pela intervenção do embaixador espanhol acima mencionado. Só ficavam, pois, a versão de Enzinas, e as cartas paulinas traduzidas por Valdés, de onde Casiodoro às vezes incorporava literalmente frases ou expressões em seu próprio texto, ou às vezes as indicava somente na margem como ‘outras variantes’.
Ao chegar ao Apocalipse, o trabalho do impressor havia quase já alcançado a do tradutor, e a Casiodoro não restou outro remédio que servir-se às mãos cheias do correspondente texto de Enzinas, contentando-se meramente com uma rápida revisão. Isto não significa um menosprezo do trabalho de Casiodoro, pois como monumento de alta piedade e erudição, ou como modelo de precisão e propriedade da língua espanhola, tanto vale a deliciosa e elegante prosa de Enzinas, como a ligeira e brilhante de Casiodoro.
Além das dificuldades anteriores, ele se encontrava sem dinheiro; necessitava de pelo menos 250 florins para acabar o livro, e não tinha recobrado nem um centavo da herança de Oporino, apesar das reclamações que fez ao Senado da Basiléia.
Apesar de tudo, um mês depois, em 14 de junho, deu aos seus amigos a boa notícia de ter recebido a última folha da Bíblia: ‘postremum folium totius texti biblici tam Veteris quam Novi Testamenti’; e pergunta-lhes se era conveniente dedicá-la à rainha da Inglaterra. João Sturm devia escrever a dedicatória latina, e assim o fez; mas finalmente preferiu encabeçá-la aos príncipes da Europa e especialmente aos do Sacro Império Romano.
Casiodoro gostaria enormemente de usar a simbólica imagem de um urso que Apiario já não utilizava como marca tipográfica desde muito tempo atrás, e, ou comprou, ou pediu emprestado o mencionado clichê para ilustrar a capa que depois seria chamada a Bíblia do Urso. Em todo caso, o próprio Casiodoro confirmou em sua dedicatória autografada no exemplar presenteado à Universidade da Basiléia, que a impressão tinha sido efetuada na tipografia de Guarin. Além disso, no catálogo ou pôster de vendas que Guarin imprimiu para a feira de livros de Frankfurt de 1578, figurava a Bíblia de Casiodoro: ‘Bíblia in Hispanicam linguam traducta’.
Em 6 de agosto, Casiodoro envia a Estrasburgo, por meio de Bartolomeu Versachio, quatro grandes tonéis de Bíblias para que Huber os recolhesse com o objeto que ele sabe; sem dúvida, para introduzi-los no Flandes, e dali na Espanha.
Por razões óbvias de cautela para difundi-la em terras católicas – a fim de prevenir a inevitável proibição imediata por parte da Inquisição – Casiodoro faz passar a sua Bíblia como uma obra católica, respeitando a ordem dos livros bíblicos segundo a Vulgata, cujo canon tinha sido recentemente confirmado pelo concílio de Trento, e omitindo o nome do tradutor e o lugar de impressão.
Por isso, só um ano e meio mais tarde, em 19 de janeiro de 1571, o Conselho Supremo da Inquisição se inteirou de que ‘a Bíblia em romance’ havia sido impressa na Basiléia, e ordenou o recolhimento de todos os exemplares que fossem descobertos. Dez anos depois, em 1581, o titular do bispado da Basiléia, Blarer von Wartensee, denunciava ao cardeal Carlo Borromeo que na Basiléia tinha sido impresso com data de 1569 uns 1600 exemplares da Bíblia em espanhol, e que 1400 delas acabavam de ser enviados de Frankfurt a Amberes.
Em Amberes finalmente, trocaram-se as capas de muitos destes exemplares pelo frontispício do célebre Dicionário de Ambrogio (ou Ambrosio de) Calepino (1435-1511), a fim de podê-los melhor difundir na Espanha. Este estratagema nem sempre funcionou, como demonstra o caso de um envio descoberto pela Inquisição em 1585, que deu lugar a um novo aviso aos tribunais da província: ‘Bíblias em espanhol, cobertas com folhas de Calepino, estão proibidos’. Muitos outros exemplares ficaram durante decênios depositados nas mãos dos membros da família de Casiodoro em Frankfurt, que fizeram ‘renovar’ periodicamente os exemplares não vendidos, atualizando as capas. Isto explica o porquê existem exemplares com o falso rodapé de impressão em ‘Frankfurt 1602’, Frankfurt 1603’ ou ‘Frankfurt 1622’.
A Bíblia de Reina não foi a primeira versão completa das Sagradas Escrituras em espanhol. Existia a versão de Alfonso X o Sábio de 1260, mas esta já tinha a partir de então um valor meramente histórico. Os judeus de Ferrara tinham editado todo o Antigo Testamento em castelhano em 1553, mas essa era uma versão de difícil linguagem, por ser muito literal. E, como se tem dito, o Novo Testamento já tinha sido traduzido para o espanhol por Francisco de Enzinas e por João Pérez de Pineda com antecedência a que fizera Reina.
Mas a versão de Casiodoro de Reina é a primeira tradução da Bíblia para o castelhano a partir do hebreu e do grego, completada após doze anos de árduo trabalho.

Cipriano de Valera
A Bíblia de Cipriano de Valera, publicada 33 anos depois, em 1602, na realidade uma edição só levemente corrigida da tradução de Reina, tal como se reconhece nas versões contemporâneas Reina-Valera, a qual, no entanto, suprimiram os livros deuterocanônicos traduzidos por Reina e colocados como apêndices na edição de Valera, à maneira da Bíblia de Lutero.
O que Valera pretendia com a sua nova edição de 1602, era, não só suprir a falta de exemplares, reimprimindo a tradução que seu antigo mestre Casiodoro tinha levado a bom termo, mas também o seu verdadeiro intento mais ou menos consciente era acabar de uma vez por todas com o fato, vergonhoso aos olhos de alguns estreitos calvinistas espanhóis, de ter que utilizar uma Bíblia que tanto na ordem dos livros como nas notas teológicas marginais não correspondiam exatamente às Bíblias oficiais de Genebra.
Ao sair a Bíblia de Casiodoro, os pastores de Genebra a examinaram minuciosamente. E certo é também que, não obstante ‘à sinistra opinião’ que dizem seguir tendo de Casiodoro, não encontraram absolutamente nada que reprovar na edição, a não ser um insignificante engano tipográfico em Gênesis 1:27 (‘macho fêmea os criou’). Também ele se deu logo conta do engano, fazendo imprimir um adesivo com as palavras ‘e fêmea’, que ele mesmo inseriu na correspondente linha de um grande número de exemplares. Das verdadeiras ‘heresias’ exegéticas, que Casiodoro introduziu engenhosamente nos epígrafes de muitos capítulos de sua Bíblia, nem se inteiraram os pastores de Genebra, nem tampouco Cipriano de Valera, pois os deixou intactos em sua revisão.
Não obstante esta aprovação tácita da versão de Casiodoro pelos pastores de Genebra, Valera ficou por volta de 1580 em Londres, por sua própria conta, para revisar a Bíblia de Casiodoro, quem naquele caso era duplamente suspeito: por seus ‘servilismos’ passados, e por seu ofício presente de pastor da igreja luterana. Mas para evitar a acusação de comportar-se como um plagiador, Valera esperou até a morte de Casiodoro, que aconteceu em Frankfurt em 15 de março de 1594, para publicar em Londres em 1596 uma ‘própria’ edição do Novo Testamento. Esta edição de Valera não parece ter sido muita difundida no continente, pois três anos mais tarde, com a ocasião da edição do Elias Hutter do Novo Testamento em doze línguas, Nuremberg 1599-1600, o texto ali impresso não é o de Valera, mas o da Bíblia de Casiodoro.
A diferença na realidade, não se havia feito muito notar, pois o trabalho de Valera em sua edição do Novo Testamento não tinha consistido em muito mais que em tirar ou acrescentar notas marginais, alterar de vez em quando o texto, e omitir de todo o nome o tradutor que havia morrido. Tal silêncio, naturalmente, Valera não pôde manter no todo em sua edição da Bíblia completa, impressa em Amsterdam em 1602, e é por isso que no longo prefácio, ao verdadeiro tradutor Casiodoro vêm dedicadas umas poucas linhas, não carentes de reticências, enquanto que o nome do revisor, Cipriano de Valera, figura em grandes letras no meio da capa.
Mas também nesta ‘revisão’, como era de esperar, o próprio trabalho de Valera consistiu, sobretudo em acomodar a ordem dos livros ao canon reformista (que é na realidade o canon hebreu-cristão), e em tirar ou acrescentar notas marginais, seguindo especialmente as notas das Bíblias de Genebra. As alterações do texto não significam sempre melhoria, e o mesmo se pode dizer de sua escrupulosa eliminação de expressões como ‘porventura’, que Valera apagou, como ele mesmo escreve, ‘por ter sabor de gentilidade’. Tais alterações não superam, em todo caso, 1% do texto.
  Portanto, é justiça sublinhar que o mérito maior da Bíblia Reina-Valera é de Casiodoro de Reina, quem, contra ventos e marés, até face à oposição de muitos dos seus próprios irmãos, fez uma tradução que nenhum outro cristão espanhol depois da segunda metade do século XVI foi capaz de fazer.

O comerciante de sedas
Tendo concluído a sua grande obra na Basiléia, Casiodoro saiu desta cidade e se dirigiu a Frankfurt, Alemanha, onde lhe foi conferido o título de cidadão ilustre. Dali foi para Amberes, Bélgica, para encabeçar em 1579 a congregação dos franceses que se aderiram à Confissão de Augsburgo, igreja que reorganizou e que desdobrou uma grande atividade.
Quando Amberes caiu nas mãos de Alejandro Farnesio (espanhol opositor dos emancipados de Roma) em agosto de 1585, deixou esta cidade e voltou para Frankfurt, onde a sua figura foi muito respeitada entre os cristãos que tinham emigrado para a Holanda, sendo sustentado por seu próprio trabalho com um comércio de sedas.
Algum tempo depois, em 1593, tendo mais de setenta anos, foi eleito pastor auxiliar na igreja de Frankfurt. Durante oito meses ainda pôde exercer o seu ministério, até que dormiu no Senhor em 15 de março de 1594. O seu filho Marcos foi, dois anos mais tarde, eleito sucessor do seu pai.
A Inquisição o queimou em figura no ‘Auto de Fé’ celebrado em Sevilha em 1562, e seus escritos foram postos no Índice de Livros Proibidos.
A versão de Reina-Valera é até hoje a mais usada pelos cristãos de língua hispânica. Foi durante séculos a única tradução acessível em espanhol, e foi reconhecida até pela Igreja Católica, como superior às duas versões delas, a versão de Scío (1793), e a editada por Torres Amat (1825, tradução de José Miguel Petisco), ambas mais tardias e únicas até tempos muito recentes.
Quando seus inimigos mencionavam o abuso que se podia cometer pelo mau uso das Escrituras na língua vernácula, Casiodoro replicava que seria como se «o rei ou o príncipe, porque há muitos que fazem mal uso do pão, da água ou do vinho, do fogo, da luz, e das outras coisas necessárias à vida humana, ou as proibisse de tudo, ou fizesse da venda delas algo muito caro, e com grande escassez».

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Heróis da Fé: Conde Zinzendorf e os Morávios


Embora se plantassem igrejas nos territórios colonizados por nações protestantes, a obra missionária sempre fora largamente negligenciada nos primeiros SÉCULOS da Reforma Protestante. Até que um movimento realmente missionário e totalmente desvinculado do colonialismo surgiu em 1727. Ele foi não apenas o primeiro, mas, por 200 anos, o maior dos movimentos missionários da HISTÓRIA do protestantismo. O lema deles: “Nosso Cordeiro já venceu. Vamos segui-lo.” Eram os Irmãos Morávios.
As origens dos Irmãos MORÁVIOS são anteriores à Reforma. Dissidentes do Catolicismo, são filhos espirituais de John Huss, o pré-reformador queimado na fogueira em 1415. Com o início da Reforma deflagrada por Lutero, a igreja moraviana abraçou o novo movimento. Durante a Guerra dos TRINTA Anos (1618-1648) foram expulsos de sua terra, a Morávia, e, violentamente perseguidos, espalharam-se por toda a Europa. A partir de 1722 conseguiram encontrar um porto seguro na Saxônia, onde um jovem conde, Nikolaus Ludwig von Zinzendorf (1700-1760), permitiu que instalassem sua comunidade em suas terras. Desde sempre um dedicado e autêntico cristão, Zinzendorf logo passou a LIDERAR a comunidade morávia, que crescia mais e mais, atraindo entusiastas de toda a Alemanha.
Numa viagem à Conpenhague, na Dinamarca, Zinzendorf conheceu nativos da Groênlândia e das Índias Ocidentais. Seu coração foi incendiado pelo ARDOR missionário, e ao voltar aos morávios compartilhou sua visão com os irmãos. Em pouco tempo eram enviados missionários à Groenlândia e às Ilhas Virgens. O próprio Zinzendorf dedicou-se a viagens missionárias, e nos anos seguintes grupos de morávios foram enviados à Jamaica, Suriname, GUIANA, África do Sul, Argélia e outros países. Em 1842, havia 42 núcleos missionários morávios ao redor do mundo, quase sempre em locais de difícil semeadura.
Nesse pequeno espaço, é impossível relatar as muitas histórias de heroísmo e sacrifício de que os morávios foram protagonistas. Nunca na história da igreja um grupo tão pequeno fez tanto por MISSÕES. Seu exemplo de devoção e empenho serviu de inspiração para homens como John Wesley e William Carey, e inspirou a criação de algumas das primeiras agências missionárias.

A Igreja dos Irmãos Morávios, cujo nome oficial é UNITAS Fratrum (Unidade de Irmãos), atualmente encontra-se espalhada por diversos países. 

Sammis Reachers
in Revista Passatempos Missionários #4 - Biografias Missionárias

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Heróis da Fé: Robert Reid Kalley, um missionário para a lusofonia

Recém-formado na Universidade de Glasgow, o jovem ESCOCÊS Kalley conseguiu trabalho como médico de bordo num navio, atividade que levou-o a conhecer muitos países. Algum tempo depois, já medicando na Escócia, Kalley tem reacesa sua fé cristã e passa a nutrir o desejo de tornar-se missionário, tendo a CHINA como objeto de seus sonhos. Mas, em face da saúde precária de sua esposa, alguns o aconselharam a estabelecer-se na ilha da Madeira, possessão portuguesa que abrigava uma pequena colônia de escoceses. Assim, em 1838 o casal estabeleceu-se na ilha, dando origem à primeira comunidade protestante em território português.
 Na Madeira, Kalley fundou um hospital e diversas escolas, além de promover a distribuição de Bíblias. Em 1843 é preso, passando alguns meses na CADEIA. Em 1845 é fundada a igreja presbiteriana, mesmo de maneira clandestina, pois Portugal reprimia o culto protestante entre portugueses. A jovem igreja passou a ser duramente perseguida, sendo a casa dos Kalley incendiada em 1846. Com muito custo, Kalley conseguiu fugir para os EUA. Mas a perseguição continuou: 2.000 madeirenses evangélicos foram expulsos ou fugiram da ilha, espalhando-se então por diversos PAÍSES.
 Estando nos EUA (onde os refugiados madeirenses chegaram até a fundar uma cidade, Jacksonville), Kalley deparou-se com o livro Reminiscências de viagens e permanências nas Províncias do Sul e Norte do Brasil (1845), do Rev. Daniel Parrish Kidder, que por sua vez tivera uma experiência missionária no BRASIL. O livro impactou Kalley, que, quando viu surgir uma oportunidade, partiu como missionário para o Brasil, em 1855. Nesse mesmo ano, já instalado na cidade de Petrópolis (RJ) os Kalley iniciaram a primeira Escola Bíblica Dominical. Vendo que a terra estava sedenta, Kalley solicitou ajuda dos irmãos de Jacksonville, que enviaram alguns OBREIROS para auxiliar na obra. Em 1858 Kalley fundou a Igreja Evangélica Fluminense, considerada a primeira igreja protestante do Brasil a ministrar em português. Kalley possuía uma visão abrangente do Evangelho, sendo avesso a denominacionalismos, e instituiu um modelo de governança onde cada IGREJA era independente.
 Depois de plantar diversas igrejas em território nacional, não sem passar por polêmicas e provações as mais diversas, as quais suportou com bravura, Kalley retornou para a Escócia em 1876, onde faleceu em 1888. A CAUSA do Evangelho no Brasil e em Portugal é grande devedora de seu esforço e visão.

 Sammis Reachers

in Revista Passatempos Missionários #4 - Biografias Missionárias

sábado, 24 de agosto de 2013

Entrevista com a missionária Kelem Gaspar






Entrevista sobre a obra missionária

 1 - Temos certeza que muitas vezes já foi perguntado sobre como iniciou sua caminhada neste campo e não podemos deixar de perguntar–lhe. Conte–nos como foi que você “descobriu” que tinha um chamado missionário e se possui alguma impressão diferente daquela que tinha no inicio do chamado?

> Não aconteceu nada de sobrenatural no início da minha chamada, não vi um anjo, não ouvi uma voz, não recebi uma profecia, nada disso. Eu estava assistindo um culto, em que uma missionária pregou e falou sobre os desafios da obra de missões, essa palavra entrou no meu coração e eu tomei uma decisão: sacrifiquei meus projetos pessoais aos pés de Cristo e ofereci a Ele minha vida para seu serviço. Foi a melhor decisão que tomei em minha vida, Deus é absolutamente digno de confiança. Como a missionária trabalhava com índios, naturalmente foi o povo que me interessou também e, a partir desse momento, passei a me preparar para servir a esse povo.

2-Fale-nos da sensação de estar pela primeira vez no campo missionário e da sensação que foi “voltar à sua realidade”, o que muda nessa primeira vez? E essa mudança é passageira ou ficou marcada para a caminhada de missões?

> É uma mistura de sentimentos muito grande: medo do desconhecido, alegria em estar finalmente no lugar que Deus havia preparado para mim, saudades de casa, desejo de colher logo os primeiros frutos, enfim, não é fácil lidar com esse turbilhão de sentimentos. Tudo era diferente do que eu conhecia, tudo era novo, mas eu tinha uma certeza: eu estava ali para servir, não para ser servida. Eu não era a grande mãe branca que havia chegado com todas as respostas. Eu desenvolvi um grande respeito pelo povo e por sua maneira de viver, trabalhávamos juntos, comíamos juntos, tínhamos comunhão, tentei me adaptar ao máximo a essa nova maneira de viver. Readaptar-se à nova realidade depois da volta pra casa também não foi fácil. O que tornou a situação mais suportável foi a íntima compreensão de que nossa motivação está calcada no compromisso com Cristo e no amor às almas perdidas, e, diante disso,nenhum sacrifício deve ser considerado grande demais.

3- Sabemos que o missionário vai se deparar com muitas situações adversas, onde com certeza mexerão com suas emoções. Neste momento, como é lidar com esses extremos e seguir com a missão dada por Deus?

> Realmente são muitas as situações adversas. As crises emocionais são constantes. O missionário precisa entender acima de tudo que é um servidor e que não está na missão porque foi forçado; a decisão de servir foi tomada livre e conscientemente e, agora, espera-se dele que faça todo o possível por amor a Cristo e ao povo. Deus não prometeu conforto, não prometeu sucesso e nem ofereceu garantia de retorno, mas Ele assegurou estar conosco sempre, até o fim. Essa certeza nos sustenta e nos faz seguir adiante.

4 - Muitas pessoas sentem o chamado missionário, porém não sabem como proceder, muitos pensam que é pegar um avião e ir para África, outros, irem para Nordeste, Norte, Sudeste, enfim... Mas como você define missões? São lugares específicos ou são formas específicas, como: O sopão na madrugada, visita a hospitais e etc?

> Deus precisa de pessoas em todas as posições, e para Deus missões e evangelização são a mesmíssima coisa, ambos tem como objetivo levar as almas a Cristo. O cristão não pode ser apático ao ponto de não fazer nada diante da grande necessidade mundial. Sou favorável à ideia de que todos tem uma chamada tripla: todos devem orar por missões, todos devem investir financeiramente de alguma forma e todos devem ser testemunhas vivas de um Cristo vivo, ou seja, compartilhar o evangelho em todas as oportunidades possíveis. As almas têm o mesmo valor em qualquer lugar do mundo.Conheço pessoas que estão aguardando para ser uma bênção quando finalmente chegarem ao campo transcultural, porém enquanto esperam não produzem nada. Não acredite nesse tipo de chamada. Você quer ser missionário? Ótimo, agora vá ler biografias de missionários, vá estudar línguas, vá fazer um curso que lhe ajude no campo, tire seu passaporte, levante um trabalho na igreja local, ganhe almas, discipule, crie um novo projeto, dê frutos, enfim, faça a sua parte. Lembre-se, Deus faz o impossível, o absurdo, não.

5 – Missões, um lindo chamado, o qual precisa de compreensão, preparação e muita força de vontade. Por isso, gostaríamos de saber qual a maior decepção que o missionário pode ter no campo? E o que já a deixou surpreendida no campo missionário, segundo sua visão e experiência?

> Ser abandonado é um medo constante, tanto financeiramente, quanto espiritualmente ou emocionalmente. Existem muitos pastores não alcançados, que não têm responsabilidade, compromisso e amor pela obra e pelos obreiros. Esses pastores veem os missionários como pessoas de segunda classe e passam essa visão para a igreja; é por isso que muitos missionários recebem de oferta ventilador sem hélice, geladeira sem motor, ferro elétrico sem resistência e a “clássica” sacola com roupas usadas. Precisamos mudar a nossa visão e ver o missionário como ele realmente é: um embaixador do Reino.

6 – Como os índios, os quais você já evangelizou, assimilam a vida cristã em sua cultura? Como foi este choque cultural para quem queria levar Jesus para um povo que luta por sua própria cultura, que é diferente em quase 80% (ou até mais) da cultura vigente em seu país?

> Precisamos de atenção e de muita dependência de Deus para entender o que implica em salvação e o que não implica. O trabalho missionário não é criar uma filial de sua igreja no campo; a cultura deve ser respeitada ao máximo e devemos adaptar o que for possível à cultura local e aquelas questões que implicam de fato em condenação devem ser trabalhadas com cautela, sempre buscando soluções em oração.

7 - Compartilhe sobre o projeto que vocês desenvolvem hoje e como as pessoas que querem participar, de alguma forma, devem proceder?

> Estamos há oito anos no município de Maracanã, interior do Estado do Pará,na região amazônica. Aqui temos uma creche escola missionária que atende setenta crianças carentes da comunidade, onde elas são alfabetizadas, discipuladas, alimentadas e orientadas diariamente; não é um trabalho fácil, não temos ajuda da prefeitura e nem de nenhuma outra organização, mas Deus tem cuidado de nós. Vivemos exclusivamente na dependência de Deus, e Ele tem despertado pessoas para nos ajudar, sem que precisemos sair para pedir nada. Funciona assim: nós oramos e Ele desperta alguém para que a necessidade seja suprida. O dinheiro de Deus está no bolso dos crentes. É uma verdadeira parceria, uma sociedade. A única obra que Deus fez sozinho foi a da criação; para todas as outras, Ele opera no homem e através do homem. Desenvolvemos também um curso de missões transculturais que prepara jovens missionários para alcançarem indígenas, ribeirinhos, quilombolas e povos minoritários. Os alunos aprendem disciplinas missiológicas, ministradas por excelentes professores, mas não nos esquecemos de também treiná-los para o dia a dia do campo missionário: eles moram em casas de barro, carregam água, comem comidas típicas, enfim procuramos antecipar o cenário que ele encontrará no campo. Se o aluno não tiver chamada divina e disponibilidade para sofrer as privações que esse tipo de obra acarreta, é melhor que ele descubra isso aqui do que depois de ter sido enviado. Não é fácil manter esse curso, mas Deus tem cuidado de nós. Além desses dois trabalhos, desenvolvemos algumas obras missionárias paralelas, como na “Ilha do Derrubado” e no "Bacabal" (localidades isoladas dentro do Município de Maracanã), também mantemos um casal de missionários no Peru, entre os índios kulinas e kashinauás. Todas essas obras são em áreas carentes e de difícil acesso, e para todas elas precisamos de apoio espiritual, emocional e financeiro. 
Para aqueles que se sentirem tocados por Deus, podem ajudar de muitas maneiras, como mandar qualquer encomenda para: PA 127, km 39, Ramal Caiacá, 05, Maracanã-Pa. CEP 68.710-000. (podem ser livros, brinquedos, material escolar, objetos de uso pessoal, material de escritório, enfim, qualquer coisa que Deus tocar no seu coração) ou se comprometer com uma oferta mensal de qualquer valor, que pode ser depositada no: Banco do Brasil, Ag. 1436-2, conta corrente nº 6993-0 ou Bradesco Ag. 0697, conta corrente nº 523.164-7. Também podem vir nos visitar ou nos adotar em oração, afinal a obra missionária nasce de joelhos e é de joelhos que ela se sustenta.
Kelem Gaspar