segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Os Mistérios da Escritura

Arnold Doolan

Bíblia encontramos a palavra “mistério” usada várias vezes. A palavra grega usada no Novo Testamento é “musterion”, e significa fundamentalmente que esteve escondida ou desconhecida até ao momento em que foi revelada. É uma verdade que, até certo ponto da história não tinha sido revelada e que o homem, pelo seu próprio intelecto não pode compreender. É necessária a revelação de Deus ao homem, pela qual Ele descobre o mistério e torna-o compreensível. Convém ainda notar que na versão J. F. Almeida da Bíblia, a palavra “segredo” é usada algumas vezes (exemplo Rom. 11:25). Esta palavra é correctamente traduzida em outras versões pela expressão “mistério”.

OS MISTÉRIOS DO REINO DO CÉU
— Mateus 13:3-50 —
Os mistérios do Reino do Céu (v.11) estão apresentados neste capítulo na forma de sete parábolas. Nos capítulos iniciais de Mateus o Senhor Jesus Cristo apresenta-se perante Israel como o Messias — o Rei. No capítulo 12 os líderes religiosos dos judeus rejeitaram-No, acusando-O de fazer milagres pelo poder do demónio. Agora que o Rei é rejeitado, o reino surge de uma forma diferente. É precisamente isso que lemos em Mateus 13. Estas sete parábolas são a descrição do reino durante o tempo da rejeição do Rei até ao Seu regresso para reger sobre a terra. O Rei está agora ausente, porém, o Seu Reino pode ser visto onde qualquer homem escolher reconhecê-Lo como Rei.

O MISTÉRIO DO ENDURECIMENTO DE ISRAEL
- Rom. 11:25 -
Uma vez que Israel rejeitou o Senhor Jesus Cristo, Deus causou um endurecimento judicial sobre a nação judaica. Isto explica porque muitos judeus têm uma grande dificuldade em aceitar Jesus como Messias. Este endurecimento (algumas pessoas chamam-no cegueira) não é total nem final. Existem alguns judeus que vêem Jesus como o Messias de quem os profetas falaram. Este endurecimento continuará até que a “plenitude dos gentios” tenha chegado, até que o Senhor tome a sua Noiva, a Igreja, para estar com Ele. Então, um remanescente de Israel volver-se-á para Cristo.

O MISTÉRIO DO ARREBATAMENTO
— 1Cor. 15:51,52 —
Até ao momento em que este mistério foi revelado, todos pensavam que todas as pessoas iriam morrer mais cedo ou mais tarde. Agora, o apóstolo Paulo declara que nem todos os crentes irão morrer. Aqueles que viverem no tempo do Arrebatamento subirão ao céu sem passarem pela morte. Eles serão transformados, isto é, eles receberão corpos glorificados e eles nunca verão a morte. Aqueles que já tiverem morrido em Cristo serão ressuscitados e levados para o céu com os crentes que estiverem vivos. Este mistério está também explicado em 1 Tess. 4:13-

O MISTÉRIO DA IGREJA
— Rom. 16:25 —
A Igreja foi um segredo escondido desde o princípio do mundo até ao tempo dos apóstolos. Aí foi relevado aos apóstolos e profetas do período do Novo Testamento (Ef. 3:5). É essencial compreendermos as várias feições da Igreja, tal como revelada no Novo Testamento.
1). A Igreja é o corpo de Cristo (1Cor. 12:12,13).
2). Cristo é a Cabeça do Corpo, sendo este a Igreja (Cl. 1:18).
3). Todos os crentes nascidos de novo são membros do Corpo (1Cor. 12:13).
4). Os crentes judeus e gentios compartilham a mesma esperança, tendo a antiga
inimizade entre Judeus e Gentios sido abolida através de Cristo (Ef. 3:6; Cl. 1:26,27; Ef. 2:14,15).
5). A Igreja é a Noiva de Cristo (Ef. 5:26,27,31,32).
6). É o propósito de Deus fazer de Cristo a Cabeça do Universo redimido (Ef.
1:9,10), com a Igreja reinando como Sua Noiva e participando da Sua glória para sempre.

O MISTÉRIO da INIQUIDADE
— 2 Tessalonicenses 2:7,8 —
Mesmo nos primeiros dias da existência da Igreja, já o espírito da iniquidade estava a operar. Havia muitos anticristos. Apesar disso, o espírito da iniquidade foi restringido por um grande Poder. Entendemos perfeitamente que este grande poder era o Espírito Santo. Quando este poder que restringe, ou seja, o Espírito Santo, for retirado, então o iníquo (rebelde), o Anticristo, aparecerá no palco da história. Ele será a personificação do mal. O mundo nunca terá uma tão elevada concentração do mal numa única pessoa.

O MISTÉRIO DA FÉ
— 1 Timóteo 3:9 —
Este mistério refere-se a toda a doutrina cristã, chamada «a fé». Muitas destas verdades eram desconhecidas nos tempos do Antigo Testamento.

O MISTÉRIO da DIVINDADE
— 1 Timóteo 3:16 —
Este verso refere-se ao Senhor Jesus Cristo. Antes da vinda de Cristo nunca ninguém tinha visto a perfeita piedade (grg - eusébia= devoção) numa vida humana. Quando Cristo veio, Ele deu uma demonstração prática de como uma pessoa divina é. Paulo diz que este é um grande mistério, significando que é maravilhoso. Notemos que este mistério está em absoluto contraste com o mistério da iniquidade (2 Tess. 2:7,9). É o contraste entre Cristo e o Anticristo.

8)
O MISTÉRIO das SETE ESTRELAS
— Apocalipse 1:20 —
As sete igrejas na visão de João são os anjos ou mensageiros das sete igrejas da Ásia. Os sete castiçais de ouro são as sete igrejas. Nos dois capítulos seguintes, o Senhor endereça carta aos anjos das sete igrejas. Estas cartas podem ser compreendidas de três formas diferentes:
1). Eram sete cartas literais escritas a sete igrejas literais que existiam no tempo de João;
2). As cartas substanciam uma visão cronológica da história da Igreja desde o Pentecostes até ao fim da era da Igreja;
3). Elas descrevem as características que pode ser encontradas na Igreja Universal em qualquer época da sua história.

O MISTÉRIO de DEUS
— Apocalipse 10:7 —
Quando soar a sétima trombeta do Apocalipse, o mistério de Deus será cumprido. O som desta trombeta será acompanhado por altas vozes celestiais dizendo «Os reinos deste mundo vieram a ser do nosso Senhor e do Seu Cristo, e Ele reinará para todo o sempre»  Apoc. 11:15. Daqui conhecemos que a sétima trombeta soará no fim da Grande Tribulação quando Cristo vier para a Terra para implantar o Seu Reino - Apoc. 11:17. Nesse tempo, aqueles que tiverem sido fieis perante o Senhor durante o período da Grande Tribulação serão galardoados e os Seus inimigos serão destruídos - Apoc. 11:18. Então, o mistério de Deus será cumprido na sua plenitude. O mal que tem sido tão persistente e que tem causado tanta miséria, será finalmente abolido. O reino do pecado que foi permitido por Deus para triunfar durante algum tempo, como em Salmo 2, terminará com um indubitável e glorioso triunfo de Cristo. A humanidade não conhece isto, nem crê assim nos dias de hoje. Deste modo, é um mistério revelado apenas aos Seus «servos e profetas».

O MISTÉRIO da BABILÓNIA
— Apocalipse 17:5-7 —
Neste capítulo encontramos o cenário de uma prostituta sentada sobre uma besta, a qual tem sete cabeças e dez chifres. Ela é designada por "grande Babilónia, a mãe das prostituições e abominações da terra. Nos versículos 8 a 18 encontramos a explicação deste mistério. A mulher é uma grande cidade que governa sobre os reis da terra (v.18). A Besta é um império que já existiu no passado, que deixou de existir, depois reavivado novamente e por fim destruído (verso 8). Os dez chifres são dez reis que se unirão em federação formando este império (verso 12). A prostituta irá governar sob a permissão da besta por algum tempo, mas depois será destruída pela besta (v.16). Finalmente, o império será ele próprio destruído pelo Senhor (v.14). Como devemos interpretar esta passagem ? Permitam-se sugerir a seguinte interpretação: A mulher representa um grande sistema religioso que terá a sua "sede" em Roma. Será uma igreja mundial com enormes recursos financeiros. Porque razão é esta igreja mundial chamada de «prostituta» ? Precisamente porqueela cometeu fornicação com os reis e habitantes da terra. A sua relação ilícita com o sistema do mundo é contrária à crença e comportamento da verdadeira Igreja de Jesus Cristo. A Sua Igreja é uma assembleia que é chamada para fora do mundo, para ficar separada dele. As sete cabeças são os sete montes (verso 9). Ora, Roma é conhecida como a cidade dos «sete montes». Os sete reis (verso 10) são as cabeças do Império Romano. Quando João recebeu esta visão, cinco dessas cabeças (governadores) já tinham caído. Eram precisamente Júlio César, Tibério, Caligula, Cláudio e Nero. O anjo disse então: «e um existe» (ou seja, Domictio, o último dos césares que estava vivo aquando da altura em que João escreveu o Apocalipse).
"Outro ainda não é vindo». A sua identificação é clara. Uma outra cabeça do império romano ainda está para vir. Será o Anticristo, inspirado e completamente dominado por Satanás. Depois de apoiar a igreja mundial por algum tempo, o governador do Império Romano Reavivado voltar-se-á contra esse sistema e o destruirá. Para maiores detalhes, estude Apocalipse 18.


+ MAIS QUATRO MISTÉRIOS

1.CORÍNTIOS 2:7 - Paulo refere-nos que quer ele quer os outros apóstolos falavam da sabedoria de Deus oculta em mistério. Ele explica que falavam de verdades que tinham estado escondidas às gerações anteriores, mas que agora estavam a ser reveladas pelo Espírito Santo.
1.CORÍNTIOS 4:1 - Neste versículo, Paulo referencia que eles eram dispenseiros dos mistérios de Deus. A palavra «mistério» é aqui usada no sentido geral e comum, abrangente das revelações da dispensação da Graça de Deus.
1.CORÍNTIOS 13:2 - Somos recordados que é inútil conhecer todos os mistérios e ter todo o conhecimento se não tivermos amor. Ainda que se conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, se não tivéssemos amor, nada seria.
1.CORÍNTIOS 14:2 - Finalmente, Paulo diz-nos nesta passagem que se alguém fala numa língua estrangeira sem a presença do devido intérprete, não decorre benefício algum para alguém, mesmo que essa pessoa esteja a falar dos mistérios mais profundos.

sábado, 24 de novembro de 2007

Entrevista com Russell Shedd

"Doutor Bíblia"

Virgínia Rodrigues


(entrevista concedida à Revista Enfoque Gospel)

Ele foi, oficialmente, o primeiro colunista da Enfoque. Em 2001, tive o prazer de lhe fazer o convite pessoalmente em sua própria casa, em São Paulo, onde me recebeu com carinho e toda a humildade, que lhe é constante. Enfoque nem existia no papel, mas ele acreditou no projeto, deu-me a sua confiança e foi um dos primeiros pilares de nossa revista.

Russell P. Shedd é PhD em Novo Testamento pela Universidade de Edimburgo, Escócia, fundou a Edições Vida Nova há 44 anos e é consultor da Shedd Publicações. É também missionário da Missão Batista Conservadora no Sul do Brasil com sede nos EUA, já lecionou na Faculdade Teológica Batista de São Paulo, viaja pelo Brasil e exterior fazendo conferências em congressos, igrejas, seminários e escolas de Teologia e é membro da Igreja Batista do Jardim Consórcio, em São Paulo.

Esse doutor em conhecimento e humildade, é autor de vários livros já bem conhecidos (veja box) e tem ainda uma Bíblia com seu nome, onde escreveu os comentários de rodapé. No dia 10 deste mês, pastor Shedd completa 77 anos. A ele dedicamos estas páginas para que, através de suas palavras de esclarecimento e ensino, o leitor também seja presenteado. De volta à sua casa, foi edificante notar que cinco anos se passaram e esse amigo e colunista continua repleto de excelentes palavras para oferecer. Saí de lá pensando: “Como o mundo precisa de gente assim! Como a gente cresce ao conversar com esse homem!”

ENFOQUE – Há mais de 40 anos no Brasil, como contempla o panorama da teologia no país? Que diferenças percebe entre o período de sua chegada ao país e os dias de hoje?

SHEDD – Uma das mais notáveis diferenças que observo é a imensa abertura para a existência de denominações e grupos evangélicos diferentes. Antes o cenário era bem definido, com paredes altas para que ninguém saísse de tal igreja e fosse para outra diferente. Quando cheguei ao Brasil em 1962, foi justamente no período em que as denominações estavam se dividindo por causa da força do pentecostalismo. Os tradicionais não aceitavam muito e um pastor não admitia que sua ovelha fosse para uma igreja da Assembléia de Deus, por exemplo.

ENFOQUE – Ou seja, na época não havia muita tolerância com o diferente?

SHEDD – Exatamente. Hoje, a liderança é mais tolerante, mais aberta. Talvez seja o espírito pós-moderno que permite diferentes opiniões e idéias. Eu tenho a minha, você tem a sua e vamos conviver. Não dá para excluir tudo só porque não há concordância. Essa é uma diferença que impressiona. Antes, havia batistas, presbiterianos, metodistas bem definidos e era quase uma transgressão migrar de uma denominação para outra, principalmente se era para uma igreja pentecostal.

ENFOQUE – Mas hoje a abertura tem relação com os grupos religiosos tanto quanto com as manifestações nas igrejas, não acha?

SHEDD – Sim, antes não se batia palmas em uma igreja batista, por exemplo. As pessoas não levantavam as mãos em igrejas mais tradicionais. Falar em línguas e presenciar manifestações divinas eram experiências apenas dos ambientes pentecostais.

ENFOQUE – Por que razão acha que essas mudanças acabaram acontecendo?

SHEDD – Acho que há várias razões: o espírito da pós-modernidade, a capacidade do homem em se adaptar e se adequar, e a ação do Espírito Santo. Acho que hoje já caiu a idéia de que uma igreja é absolutamente certa, que a tradução bíblica que recebi é absolutamente certa e os outros estão absolutamente errados. Eu me lembro que nos reunimos na Faculdade Teológica a fim de considerar que todas as denominações têm alguma coisa para nos ensinar. Mas isso não foi aprovado. Era 1963. Tais coisas também aconteciam por causa do orgulho que nós herdamos.

ENFOQUE – Como percebeu as conseqüências desse orgulho?

SHEDD – Veja quanta coisa ocorreu com os batistas a fim de nos humilhar. Aconteceram quedas morais, financeiras, administrativas. Instituições quebraram, bens se perderam etc.

ENFOQUE – Que análise faz desse novo cenário de igrejas que se formou, com o surgimento de tantas denominações novas como a Universal do Reino de Deus, Igreja da Graça, Sara Nossa Terra? O que isso desencadeou?

SHEDD – Entendo que podemos aceitá-los como irmãos. Por que temos que combatê-los como hereges?

ENFOQUE – O senhor acha que tudo isso trouxe um pouco de confusão do que significa ser evangélico hoje?

SHEDD – Há mais de 30 anos, o Evangelho era muito definido aqui. Existiam presbiterianos, batistas, metodistas e congregacionais. E a Assembléia de Deus era marginalizada. Agora a situação mudou completamente. Os países do chamado Primeiro Mundo estão muito mais fragilizados espiritualmente do que aqui, ainda que muita gente não reconheça. Eles perderam a fé. Pelo menos, a Universal coloca em todos os lugares que “Jesus Cristo é o Senhor”. Enquanto na Alemanha, por exemplo, ser pastor é uma profissão. Há igrejas lá em que no estatuto está escrito que o pastor tem que ser crente.

ENFOQUE – E quem é marginalizado hoje?

SHEDD – A Universal ainda é, com certeza, discriminada por grande parte dos evangélicos. E uma das razões é que eles não procuram a gente, não participam de nenhum evento nosso. Parece que não querem se chegar. É mais ou menos como era a Assembléia de Deus nos anos 60, época em que eu nunca recebia convite da denominação para pregar. Hoje, quase um terço das minhas conferências são nas Assembléias de Deus.

ENFOQUE – Como avalia o desenvolvimento do mercado editorial no Brasil?

SHEDD – Sabemos que a cultura brasileira não é de leitura, é de televisão. Poucos aqui lêem e, mesmo assim, a leitura feita por evangélicos só aumenta. As pessoas se interessam mais, compram mais livros, procuram títulos novos, buscam assuntos. E as editoras investem. Ninguém está jogando dinheiro fora. E os preços dos livros no Brasil não são baratos. Se o público compra é porque interessa.

ENFOQUE – Como acha que a igreja pode transformar quantidade em qualidade, já que o percentual de evangélicos só aumenta no país?

SHEDD – Fazer isso é complicado pelo simples fato de que não há nenhum controle. Ninguém pode controlar a vida e as atitudes de ninguém. Penso que o importante é que existam boas escolas teológicas, melhor preparo para a liderança; que existam líderes de referência e boa literatura para as pessoas que não estejam satisfeitas com o que têm recebido e desejam algo mais substancial. Que haja, pelo menos, uma ação.

ENFOQUE – Logo, é preciso contrapor um Evangelho que tem sido muito superficial, não?

SHEDD – Sim, mas não apenas com campanhas disso ou daquilo. Acho que o caminho deve ser bíblico, buscando a glória de Deus, e não uma vantagem. Tem gente que vive fazendo uma espécie de barganha com Deus.

ENFOQUE – Em sua opinião, o crente pode perder a salvação?

SHEDD – Biblicamente, não. Mas o que ele mesmo pode demonstrar é que nunca foi realmente salvo. Para nós, salvação é uma decisão inicial. A Bíblia ensina a salvação como algo que começa com uma matrícula chamada batismo. E pelo resto da vida você continua aprendendo. Se alguém não aprende, mostra que não se entregou. Então a decisão foi falsa.

ENFOQUE – Há tantas pessoas que estiveram por tanto tempo na igreja, comprometidos com Deus e não estão mais. O que dizer sobre isso?

SHEDD – Talvez estivessem ali por ansiedade, medo, circunstâncias, conveniência. Talvez por uma tentativa de ver se Deus iria lhes dar algum benefício que tanto queriam. Não estavam pensando em Deus, mas em si mesmos.

ENFOQUE – Que modismos vieram e se foram em todos esses anos?

SHEDD – Boa pergunta. Tem tanta coisa que veio e ficou, tantas que não existem mais. Hoje não se cantam mais hinos, não se faz mais os cultos de quarta-feira nas igrejas. A Escola Bíblica Dominical também está fora de moda. Começou em 1800 e está acabando. Muitos sentem falta dessas coisas. Há outras coisas que não sei se podemos chamar de modismo, mas já tivemos os milagres dos dentes de ouro e das folhas que brilhavam como fogo sob o frio de reuniões de oração nos montes. Ninguém fala mais disso.

ENFOQUE – E o que acha de manifestações como essas?

SHEDD – Acho legítimas, saudáveis, reais. Porque algumas desapareceram, eu não sei. Mas creio que foram, no geral, manifestações angelicais, embora outras tenham sido demoníacas. A Bíblia diz que os demônios fazem as mesmas coisas que os anjos, só que eles não estão servindo a Deus, estão servindo ao seu deus. Demônios também fazem cura. Mas essa manifestação de cura vem para confundir ou para que as pessoas, de uma forma indireta, glorifiquem o demônio.

ENFOQUE – O que fazer para que as pessoas leiam mais a Bíblia, já que hoje existem tantos recursos, como comentários e versões?

SHEDD – O mais importante de tudo é uma tradução que o povo entenda. Essa é uma das vantagens da Bíblia que possui linguagem contemporânea. Outro ponto para tornar a Bíblia mais interessante é mostrar que ela soluciona os problemas. A gente tem problemas, mas não sabe que a Bíblia tem a solução. A questão é que não basta ler, mas seguir.

ENFOQUE – O que pensa sobre angeologia? Como atuam os anjos?

SHEDD – Anjos são ministradores dos dons espirituais: profecias, dons de línguas, discernimento de espíritos demoníacos. A gente não sabe se um anjo é de luz ou não, eles enganam. Então eles [os anjos verdadeiros] têm que nos dar a possibilidade de discernir se vêm de Deus. Em síntese, os anjos são ministradores do Senhor.

ENFOQUE – Mas se eu não tenho o dom de línguas, por exemplo, eles podem me acompanhar?

SHEDD – Não tenho anjo me acompanhando, tenho o Espírito Santo.

ENFOQUE – Então não acredita que cada pessoa tenha o seu anjo?

SHEDD – Tem, se for pequenino. Foi o que disse Jesus em Mateus 18.10: “Os seus anjos (dos pequeninos) sempre vêem a face do meu Pai que está no céu”. Pequenino quer dizer criança, pessoas começando a vida cristã. E talvez haja acompanhamento angelical para casos especiais. Anjos se manifestam e acompanham por causa da sua utilidade, para a glória de Deus, pois eles vêm para ministrar. Os dons não são para nós mesmos, são para o benefício da igreja. Então, certas pessoas são muito mais abertas aos dons. Crianças são mais sensíveis à presença de anjos.

ENFOQUE – O que acha de uma certa “rejudaização” que acontece em algumas igrejas?

SHEDD
– É uma prática que não vai ajudar. Sou contrário a elas. Com o Novo Testamento aconteceu o fim da lei, o fim de todas aquelas práticas do Velho Testamento. Por que voltar para trás, para o que existia antes de Cristo? Voltar é perder o próprio Cristo, que veio para o novo.

ENFOQUE – Como tem avaliado o nível dos pastores de hoje?

SHEDD – Eles precisam realmente estudar a Palavra, usar os argumentos que estão na Palavra. Enfim, a Palavra deve entrar na cabeça do pregador, que precisa ter a mente de Cristo.

ENFOQUE – O que sente em relação à sua participação na Enfoque durante esses anos?

SHEDD – Bem, a revista me impôs uma disciplina que eu não tinha antes. Cada mês tenho de saber e escrever alguma coisa. Tenho que procurar escrever sobre algo. É desafiante. E, durante cinco anos, fui percebendo que a revista tinha a possibilidade de se manter. Porque a primeira pergunta, quando comecei, foi: “Será que essa revista vai dar certo?” E ela resistiu. A revista está firme, tem textos muito bons. Não sei se meus artigos estão valendo a pena para os leitores (risos), mas tenho gostado desse desafio.

O QUE SHEDD JÁ PUBLICOU

Andai Nele
A Justiça Social e a Interpretação da Bíblia
Disciplina na Igreja
A Escatologia do Novo Testamento
Alegrai-vos no Senhor
O Mundo, a Carne e o Diabo
Nos Passos de Jesus
Lei, Graça e Santificação
Imortalidade
A Solidariedade da Raça
Justificação
A Escatologia e a Influência do Futuro no Dia-a-dia do Cristão
A Oração e o Preparo de Líderes Cristãos
Fundamentos Bíblicos da Evangelização
Adoração Bíblica
O Líder que Deus Usa
Palavra Viva
Teologia do Desperdício
Missões – Vale a Pena Investir?
Criação e Graça – Reflexão Sobre as Revelações de Deus
Avivamento e Renovação

Bíblia em Ação (CD-ROM)
Comentários de rodapé da Bíblia Vida Nova e da Bíblia Shedd, publicados por Edições Vida Nova e Shedd Publicações.

Notas sobre o manejar de conflitos

Marcos Gilson G. Feitosa
(ex secretário de capacitação da ABUB)

(este artigo foi escrito inspirado num artigo do pastor Gary Preston, da Igreja Betânia, no Colorado)

Eu estava num acampamento de carnaval com o pessoal da minha igreja e tinha convidado um assessor-auxiliar novo na ABU que me visitava para me acompanhar.
Minutos antes que eu começasse o estudo devocional da segunda manhã, este assessor me chama à parte e me diz o seguinte: "Olha, Marcos, eu não creio que homens de Deus devem ficar brincando como qualquer pessoa fica. Nós temos de ser sérios, reservados; afinal o Senhor nos chama para sermos santos."
E continuou no mesmo tom solene: "Observe bem, eu não estou dizendo isso para repreender ou qualquer coisa assim, mas acho que servos de Deus não devem se portar dessa forma". "De que forma, meu irmão?", perguntei, tentando me conter, enquanto imaginava que espécie de blasfemo comportamento eu tinha tido. Ele não soube explicar direito, mas deu a entender que o que lhe perturbava era o temperamento brincalhão que ele me atribuia. "Servos de Deus são sérios, não ficam brincando".
Fiquei com muita vontade de retrucar e citar uma meia dúzia de homens de Deus que tinham um temperamento que guardava certa semelhança com aquele que ele atribuia ser meu problema, mas de repente percebí que argumentar e discutir naquele instante só me perturbaria ainda mais antes da devocional para a qual já estavam me chamando. Agradecí o conselho e saí perturbado para dar o estudo devocional.
Dois tipos de conflitos tinham se caracterizado. O primeiro era de ordem pessoal, pois enquanto eu caminhava para a reunião ficava pensando que hora "magnífica" ele tinha escolhido para falar, mesmo se o problema tivesse sido real. Eu o via agora como insensível não só em relação a mim, mas também em relação àqueles que estavam para ser ministrados. Por seu lado, ele me via como alguém que não agia como servo de Deus e possivelmente tinha se ofendido com meu comportamento.
O segundo era um conflito de visões de mundo. De uma lado estava alguém que acreditava que temperamento alegre e brincalhão não faz parte da maneira de ser de um servo de Deus, e do outro alguém que achava que não há uma relação direta entre um estilo específico de temperamento e o ser servo de Deus. Para este tipo de conflito, epistemologicamente mais profundo, a resolução estaria dependente de sensibilidade e de uma conversa franca e fraterna.
Uma parte de mim, enquanto dava o estudo, ficava pensando no acontecido e no que dizer a ele depois da reunião. "Isso; tenho de tratar com ele imediatamente!", pensava. Mas esta não é uma boa idéia quando se está lidando com resolução de conflitos. A seguir listo algumas notas sobre resolução de conflitos, fruto de vivência em alguns deles.

1) Resista o impulso que vem naturalmente.
De uma forma geral, no ministério, seguir os instintos funciona perfeitamente bem em grande número dos casos. Alguns pastores têm falado que quando estão num funeral, num leito de hospital, ou até compartilhando o evangelho com não-cristãos, os seus instintos pastorais normalmente os guiam na direção certa.
Mas isto não funciona quando a questão é lidar com conflito. Para algumas pessoas, a reação inicial ao conflito é fuga, é esquecer, fazer de contas que a ofensa não aconteceu, e aí procurar algo para fazer, ou então dormir, ao mesmo tempo que a mágoa e ressentimento vão se alojando no coração. Para outras, o que vem naturalmente é o desejo de resolver a questão na hora, em cima da bucha, e obviamente com toda a "sabedoria" da reflexão do tempo gasto desde a instalação do conflito até a reação, o que em alguns casos, não passa de segundos.
Em ambos os casos, é saudável resistir ao impulso que vem naturalmente. Para os fujões, que são tentados a pretender que nada aconteceu, é bom sentar e refletir sobre a situação, assumindo consigo mesmo o compromisso que vai tomar uma atitude positiva em relação à situação. Para os arrojados, que se arremetem contra o conflito na maioria das vezes sem ter nenhuma idéia do contexto amplo que o gerou, é bom também sentar e refletir sobre a situação, assumindo o compromisso que só tomarão alguma atitude quando tiverem refletido o suficiente e tomado uma decisão positiva em relação à situação.

2) Converse com a pessoa sobre o assunto.
Depois de reflexão séria e tempo gasto em oração pedindo a orientação de Deus e a serenidade do Espírito, talvez seja a hora para conversar com a pessoa. Se você se sente suficientemente calmo e sereno, talvez dê para a conversa acontecer a dois. Se não, ter presente uma pessoa da confiança de ambos funciona às maravilhas.
Ao conversar, tente primeiro entender o ponto de vista do outro, os referenciais a partir do qual ele fala, mesmo que as suas atitudes lhe pareçam erradas; pois é a partir daquele ponto de vista que ele está agindo e para ele lhe parece certo.
Fundamental é decidir de antemão quem vai sair ganhando neste acerto: se você, se ele, ou se o Senhor vai ser honrado. Se a sua preocupação for honrar ao Senhor com o resultado, até a possibilidade de uma aparente derrota sua não vai ser de todo descartada. O Senhor obviamente se alegra com a verdade, mas exulta com o amor. Não adianta nada colocar a verdade de uma forma contundente sem que ela esteja permeada pelo interesse pela outra pessoa. Por isso, às vezes é necessário para pessoas de temperamento mais arrojado não cederem à tentação do acerto imediato, pois ressentimentos e rancores podem estar ainda em plena ebuliçâo.
A grande maioria de mal-entendidos ocorre porque temos panos-de-fundo diferentes. Uma palavra dita sem intenção de ofender pode suscitar em outros reações imprevisíveis, simplesmente porque o tom em que foi dita, ou a expressão que foi usada, ativou memórias do passado com tremendo potencial explosivo e corrosivo.
Por isso, é saudável usar a regra áurea; tente expressar a sua percepção da situação mais ou menos assim: "Olha, eu entendí essa sua ação, atitude, ou palavra como indicando isto... Entendí corretamente? Foi isso que você quís comunicar?" Dita no momento apropriado, esse tipo de postura pode fazer verdadeiros milagres.
Discordar não é motivo para conflitos. É bom num grupo existir opiniões divergentes. Pessoas podem discordar e ainda assim trabalhar juntas. O que não pode existir é desrespeito.

3) Mantenha pelejas pessoais no nível pessoal.
Imagine a seguinte situação: um líder estudantil tem lutado para conseguir que o seu grupo se organize, planeje com antecedência suas atividades, dando assim margem para improvisar com mais segurança e criatividade num imprevisto. Mas existe uma pessoa no grupo que reage fortemente a isso. Depois de um certo tempo, o grupo começa a mostrar os frutos de trabalho sério e planejado, e numa reunião da liderança com os pastores da cidade, os líderes estudantís expressam seu contentamento pelo trabalho bem feito durante o semestre e os pastores comentam que estão impressionados com a capacidade de organização, seriedade e planejamento do grupo. Aí o líder que sempre enfatizou essas coisas comenta: "Ah, que bom ouvir isso; embora existam pessoas que não gostam muito disso, e acham que tudo deve ser feito por pura inspiração do momento". Mesmo sem mencionar nome, ficou claro para todos os estudantes a quem ele se referia. O ataque anti-ético e público de uma disputa privada criou um clima ruim numa reunião muito boa.
Portanto, mantenha as disputas pessoais que você tenha com alguém privadas.

4) Pratique atos de bondade.
A melhor maneira de realizar uma "vendetta" é com atos de bondade; fazendo algo para o bem da pessoa difícil. As possibilidades são inúmeras. Um certo pastor tinha um membro de sua igreja que era uma pessoa particularmente difícil. Nunca parecia estar satisfeito. E quando esta pessoa lhe dirigia a palavra era sempre "pegar no pé"; com criticas irônicas e destrutivas. A saída do pastor durante algum tempo foi evitá-lo.
O pastor depois mudou de atitude; decidiu amá-lo: fazer atos de bondade em relação a esse homem. Um dia, convidou-o para pescar, sabedor das habilidades dessa pessoa na área: "Você poderia ir pescar comigo no próximo sábado? Gostaria que você me desse algumas dicas: em pescaria eu sou um verdadeiro iniciante". O outro irmão topou. Foram; não só uma, mas quatro vezes. Depois de algumas semanas o pastor ouviu aquele homem alegremente se referindo às lições de pesca que tinha dado ao pastor em conversa com outras pessoas. Passado um tempo, o pastor foi com a família pescar. Conseguiu pegar um peixe grande o suficiente. Na volta, passou na casa daquele homem e ofertou a sua primeira grande pegada a ele, como um presente pelas lições que ele lhe tinha dado. O outro ficou exultante, e um início de uma nova relação começou.
Fazer atos assim é como colocar brasas na cabeça dos outros; um estímulo a que as pessoas acordem suas consciências e civilidade.
E quando tudo isso não dá certo?
E o que fazer quando você percebe que a pessoa com a qual você tem conflito, mesmo quando você mostra abertura e disposição para uma conversa honesta e construtiva, não parece ter a sua mesma disposição? Ou quando mesmo realizando atos de bondade, a outra pessoa em vez de acordar a consciência, vê seus atos como um sinal de que afinal ela estava absolutamente certa?
Não existem soluções fáceis. Cada pessoa e cada conflito têm os seus próprios contextos. Em alguns casos, talvez seja hora de um grande esforço e deixar claro para a pessoa a intenção de conversar depois, quando a situação talvez estiver mais amadurecida para ela.
Se o caso é que a pessoa não se mostra disposta a conversar, talvez seja interessante dar sinal a ela que você se preocupa como é que ela está processando a frustração que está passando. Fazê-la sentir que você se interessa e se preocupa.
E no caso da pessoa que a cada vez que você age com atos bondade em relação a ela, ela fica convencida que estava certa mesmo, é importante não parar de amá-la. Lembre-se; não somos chamados a gostar dos inimigos e dos que nos perseguem, mas a amá-los. E amar é procurar o bem do outro.
O apóstolo Paulo recomenda: "se possível, o quanto depender de vocês, tenham paz com todos os homens" (Rm 12:18). Ele sabia que há limites. Mas o quanto depender de nós, e se for possível, devemos procurar a paz. Há casos que não são possíveis, e podem existir pessoas que, por qualquer razão, não estejam interessadas em ter paz conosco.

Conclusão
Em relação ao caso do irmão que me repreendeu no acampamento, a situação ficou assim: depois da exposição, saímos para conversar e tentei explicar primeiro o conflito de visões de mundo, indicando a ele que embora as pessoas com as quais ele convivia diariamente eram de um temperamento mais reservado, não era mandatório para todos os crentes se comportarem daquela maneira. Isto não ficou completamente resolvido para ele, mas pelo menos ele deu sinais que tinha entendido o que eu tinha falado.
Quanto ao outro conflito, mais pessoal, reconhecí primeiro que o interêsse dele era em última análise me preservar de um comportamento que ele julgava inapropriado, e que eu o agradecia por essa preocupação. Pedí contudo que quando ele no futuro se sentisse impelido a fazer isso, não só comigo mas com outras pessoas, que considerasse com carinho qual seria a melhor hora e oportunidade para fazê-lo. Disse que tinha ficado perturbado na exposição. A este ele aceitou prontamente. E continuamos amigos e, pelo que me consta, respeitando as diferenças de temperamento que temos.

Marcos Gilson G. Feitosa foi secretário de Capacitação da ABUB por muitos anos.


www.abub.org.br.

Praticando a Presença de Cristo

Rebecca Pippert (Cap. 8 do livro "Out of the Saltshaker&into the World", IVP)

Eu estava andando no aeroporto O'Hare em Chicago, há pouco tempo atrás, quando minha bolsa caiu e minhas coisas se esparramaram no chão. Eu estava colocando tudo dentro de novo quando uma mulher com um bebê me perguntou que horas eram. Então ela, tensa e nervosa perguntou: "Você sabe onde posso comprar alguma bebida?".
Eu não sabia. Mas eu olhei seu rosto, vi que ela estava perturbada. Então eu me levantei e comecei a conversar com ela.
Ela rapidamente me interrompeu, perguntando: "Você sabe quanto deve custar uma bebida aqui?".
Eu vi que não estávamos chegando a lugar algum e, de repente, eu me ouvi dizendo, "Bem, eu não sei, mas você gostaria de procurar comigo um bar?".
"Puxa, você poderia? Eu realmente gostaria da sua companhia", ela respondeu.
Então nós saímos. E por todo o caminho eu ia me censurando por isso - indo a um bar à tarde com uma completa estranha. Que situação constrangedora! Então eu pensei, "O que Jesus faria numa situação como essa?".
Esse é justamente o ponto. O que Jesus faria?(…)
Freqüentemente somos cegos. Nós agimos como se os que estão à nossa volta não fossem realmente pessoas como nós. Se os vemos sangrando, nós achamos que não está realmente doendo. Se os vemos sozinhos, nós dizemos para nós mesmos que eles gostam de ficar assim.
Mas Jesus quer curar nossa visão. Ele quer que vejamos que nosso vizinho, ou a pessoa sentada ao nosso lado no ônibus ou na sala de aula não são interrupções na nossa agenda. Elas estão lá por mandato divino. Jesus quer que vejamos suas necessidades, sua solidão, seus anseios, e ele quer nos dar coragem para que os alcancemos. Se queremos fazer isso nós precisamos fazer duas coisas: assumir os riscos e se envolver com as pessoas abaixo da superfície.
Tomar a iniciativa nos abre para o risco da rejeição. Deixar as pessoas entrarem em nossas vidas é assustador, mas um ingrediente essencial no evangelismo. É arriscado abandonar nossas capas de proteção a fim de penetrar na vida dos outros. No aeroporto eu me perguntei o que eu deveria fazer agora, num bar, com uma mulher ansiosa que eu tinha acabado de conhecer. Eu percebi que Jesus provavelmente estaria mais preocupado no por que ela precisava de uma bebida do que no fato de ele estar indo num bar. Eu sabia que se eu não estivesse à vontade enquanto ela segurava uma bebida em sua mão e se não permitisse que Deus me guiasse ao que ele percebia como campo de missão, então eu não seria muito eficaz em comunicar o amor incondicional de Deus.
Depois que nós encontramos o bar, levou apenas alguns minutos antes que ela começasse a contar porque ela tinha decidido deixar seu marido. Seu marido, que não sabia de sua decisão, iria encontrá-la no aeroporto de Michigan. Ela estava aterrorizada imaginando a reação dele e se sentia completamente só. "Mas é ridículo eu estar falando isso para uma estranha. Como deve estar sendo entediante para você me ouvir!", ela comentou no meio da conversa.
A parte mais triste era sua inabilidade óbvia de acreditar que alguém se preocuparia com ela. Ela não confiava em quase ninguém. Quando eu mencionei a ela um problema que eu pude identificar, ela disse, "Então é por isso que você age como se importasse. Escute, você não tem medo de acompanhar estranhos como eu? Você deveria ser mais cuidadosa."
Quando eu comecei a falar com ela quem Deus era e que ele é quem me levava a situações como essa, ela parecia se prender a cada palavra. Logo estávamos indo para o seu avião, mas eu estava inquieta. Eu queria dizer a ela o quanto eu tinha sido tocada por seus problemas e que Deus se importava profundamente com ela. Mas ela era tão fria e defensiva que eu temi sua rejeição. Finalmente, no portão de embarque, eu peguei em sua mão e disse, "Escute, eu quero que você saiba que eu realmente me importo com você e eu estarei orando por você no minuto em que você chegar lá."
Ela me olhou fixamente, espantada. Então, virando-se, ela disse, "Hum... me desculpe - eu apenas não sei lidar com amor," e foi embora.
O encontro não foi um sucesso estrondoso, mas eu sabia que tinha sido obediente. Ser um cristão significa assumir: o risco do nosso amor ser rejeitado, mal compreendido ou mesmo ignorado. Agora, eu não estou sugerindo que corramos para o bar mais próximo por Jesus. Mas se você se encontrar em uma situação em que você acredita que Deus o colocou, então aceite o risco por sua causa.
Nós precisamos ver abaixo da superfície. Não devemos nunca presumir que uma pessoa não está aberta ao cristianismo. Mais de uma vez eu tenho visto que as que menos aparentam são as que estão mais abertas para Deus.
Há muitos anos atrás, eu estava em um ônibus sentada ao lado de uma mulher com mais de 60 anos. Sua face era dura, muito maquiada, fumava um cigarro atrás do outro, e seus olhos pareciam vazios. Eu iniciei uma conversa, mas suas respostas eram curtas e frias, então desisti e comecei a trabalhar numa palestra que eu iria proferir. Eu pensei que teria muito tempo para fazer isso porque ela estava espiritualmente fechada.
Poucos minutos depois, para minha surpresa, ela disse, "O que você está fazendo? Você parece muito ocupada. O que você está escrevendo?"
Eu tentei evitar responder sua questão diretamente, porque eu estava certa de que ela não iria entender. Mas ela disse, "Claro que é um dia agradável. Mas o que você está fazendo?"
Engoli seco, e lhe falei qual era a minha profissão e que eu estava preparando uma palestra para uma comunidade cristã.
"Você trabalha para Deus, hein?", ela respondeu cinicamente.
Eu sabia que isso era um ponto final, então eu disse, "Diga-me o seu nome. E o que você faz?"
Ela disse, "Meu nome é Betty. Escute, eu também sou muito ocupada, como você. Tenho muitos amigos. Eu nunca tenho um momento para mim mesma. Naturalmente eu... ah... bem, eu vivo sozinha. Mas eu tenho tantos hobbies que eu nem percebo isso." Sua resposta era tristemente reveladora.
"Sabe, eu nunca vivi sozinha. Acho que eu tenho um pouco de medo de ficar só," eu disse.
Repentinamente ela se virou em seu assento e olhou para mim vividamente. "Olhe, garota. Você fala sobre solidão? Eu sou tão só que eu quero morrer. Metade do tempo eu penso que eu já morri. O que eu disse sobre muitos amigos? Não, não os tenho. Ninguém se importa. Meu coração está doente, e quando eu não me sinto bem eu saio de casa, porque se eu morrer, pelo menos alguém saberá. Você fala sobre Deus. Eu vou te dizer uma coisa. Eu vim aqui ver um homem. Eu acho que ele gostava de mim. Ele era sozinho como eu e tínhamos começado uma amizade. Eu liguei em seu apartamento e ele não atendeu. Então eu liguei pro porteiro e perguntei a ele se Jack estava lá. Ele me disse para esperar. Quando ele voltou ao telefone, ele disse, 'Oh, Jack está aqui. Mas ele está morto. Parece que ele morreu há alguns dias. É uma vergonha. Eu vou cuidar disso. Tchau.' É isso que vai acontecer comigo? Estarei morta no chão por dois dias e ninguém saberá? O que o seu Deus diz a esse respeito?"(...)
Eu murmurei algo como, "Faz você se perguntar se realmente existe um Deus, não é? Faz você se perguntar em que mundo Jack está agora."
Ela respondeu, "Eu continuo me perguntando isso. Mas não encontro resposta. Tenho me questionado sobre isso continuamente desde que ele morreu. "
"Quando você soube que Jack tinha morrido, Betty?", eu perguntei.
"Ontem à noite. E fiquei acordada a noite inteira perguntando ao silêncio essa resposta", ela disse.
Eu queria chorar. Não apenas por sua tragédia, mas por minha cegueira e pela bondade de Deus para comigo. Eu queria ignorá-la por achar que era espiritualmente fechada, para então poder escrever minha palestra sobre evangelismo. Mas ela estava fazendo profundos questionamentos, numa oportunidade para que Deus a alcançasse.
Disse a ela que nunca tinha sentido uma dor como essa. Mas que conhecia outros que que experimentaram a tristeza da solidão. Falei-lhe de alguém a quem Deus deu sentido à vida, apesar de seu sofrimento. Betty me olhou com esperança por poucos segundos, então disse tristemente, "Você é tão jovem, tão jovem."
A conversa se direcionou a outros assuntos. Eu tentei pensar em uma maneira de revelar o amor de Deus. Mais tarde, na conversa, eu disse, "Escute, eu venho à Salem regularmente. Você gostaria que eu a visitasse quando vier?"
Foi a segunda vez que ela se animou. "Você realmente viria? Claro que eu gostaria. Escute, eu também sou uma boa cozinheira! Você poderia conhecer meu cachorro. Nós vamos ter um ótimo tempo!"
Mas quando nós chegamos em Salem, ela se fechou novamente. Assim que saímos do ônibus e ela abriu a porta da estação, ela disse, "Bem, criança, foi ótimo ter te conhecido. Nós nos vemos por aí." E ela foi andando embora. Um pouco mais adiante ela parou, virou-se, e olhando para mim com desespero disse, "Oh, Deus, Becky. Não se esqueça de me ligar. Por favor, não me esqueça." E ela se foi.
Eu sentei num banco e chorei. Eu queria um final feliz para essa história, mas não aconteceu. Eu a visitei. Gastei noites com Betty e seu cachorro. Trouxe estudantes para conhecê-la, e eles a amaram mais consistentemente e fielmente do que eu. Do que eu sei, Betty apenas recebeu. Ela nunca deu. Talvez ela não fosse capaz disso. De fato, ela nos usou.(...) Ela soube da fonte do nosso amor. Ela soube de Jesus. Mas ela nunca escolheu segui-lo, pelo menos enquanto nós a conhecemos. Eu a encontrei e a deixei como uma mulher solitária.
Betty não foi perda de nosso tempo. Ela era importante para Deus e importante para nós. Nós não falhamos. Mas não podemos fazer ninguém se tornar um cristão. Nós não somos julgados pelo nosso sucesso, mas por nossa fidelidade e obediência, apesar de ter sido uma obediência dolorosa e custosa para nós.
Nós nunca devemos presumir que as pessoas são como aparentam. Todos nós temos necessidades. Como Betty, a maioria de nós experimentou alguma forma de rejeição. Nós queremos ser tocados, ser apreciados, saber que somos especiais, mas não sabemos como pedir isso. Quando somos machucados, temos áreas sensíveis, como feridas abertas que nos fazem morrer de medo de sermos tocados e de nos expormos, apesar de ser isso o que mais desejamos. O que nós precisamos é de alguém que aja como Jesus, nos alcance, coloque seus braços ao nosso redor e diga "Venha para casa comigo. Eu me importo com você. Eu quero estar com você."
Isso é algo para o que nós somos chamados a fazer. nós não devemos esperar sermos curados, amados, e então alcançar os outros. É possível que um dos primeiros passos em direção à nossa cura vai se dar quando formos em direção a uma outra pessoa. Quando nós vamos além da superfície de uma pessoa, nós geralmente descobrimos um mar de necessidades. Nós precisamos aprender a interpretar as necessidades corretamente, assim como Jesus.(...)
A mulher samaritana teve cinco maridos e agora estava vivendo com um sexto homem. Os discípulos a olharam e pensaram, "Esta mulher? Se tornar uma cristã? Não tem jeito, olhe como ela vive!" Mas Jesus a olhou e teve uma conclusão oposta.(...) Não foi a necessidade dessa mulher por afeto que o alarmou, mas a sua busca em responder sua necessidade. Além disso, Jesus viu que sua necessidade indicava fome de Deus. Ele parecia dizer aos seus discípulos, "Vejam o quão arduamente ela está tentando encontrar a coisa certa nos lugares errados."
Quantos homens e mulheres samaritanos você conhece? Onde quer que eu esteja, eu vejo pessoas procurando freneticamente pelas coisas certas em todos os lugares errados. A tragédia é que minha resposta inicial é desconsiderar e presumir que eles nunca vão se tornar cristãos. Nós devemos nos perguntar, "Como eu interpreto as necessidades e estilo de vida de meus amigos? Eu olho para eles bebendo e transando e digo, 'Isso é errado' e vou embora? Ou eu vou além de suas máscaras e descubro por que eles fazem isso? E então, eu tento amá-los onde eles estão?"
A fim de estabelecer uma relação de confiança com as pessoas, nós devemos amá-las com a bagagem que elas trazem. Nós precisamos aceitá-las onde estão, sem comprometer nossos padrões cristãos.
Nós precisamos viver a tensão de sermos chamados para identificarmos os outros sem sermos idênticos a eles.
Uma menina se mudou para o apartamento debaixo do meu em Portland, Oregon. Toda vez que eu a via ela estava indo para uma festa. Nós trocávamos palavras amigáveis e um dia ela me disse, "Becky, eu gosto de você. Você é jóia. Que tal nos encontrarmos semana que vem e fumarmos um baseado, o.k.?"
Eu respondi, "Puxa, obrigada! Eu também gosto de você, eu adoraria gastar um tempo com você. Na verdade eu não gosto de fumar, mas a gente poderia fazer alguma outra coisa."
Claro que ela me olhou um pouco surpresa, não tanto porque eu não fumo baseado, mas porque eu expressei prazer ao pensar em gastar um tempo com ela. Eu poderia ter dito a ela, "Eu sou cristã e eu não quero saber dessas coisas", mas eu queria afirmar o que eu podia fazer sem abrir mão dos padrões cristãos. Muito freqüentemente nós espalhamos o que "não fazemos" quando deveríamos estar tentando descobrir pontos de contato genuínos. A maioria de nós tende ou a se superidentificar e se misturar de tal maneira que ninguém pode dizer que somos cristãos ou a nos separar, nos guardando seguros, mantendo pouco contato com o mundo. Nós devemos reconhecer qual é a nossa tendência e lutar contra ela.
Há algumas coisas que não devemos fazer. Um teste é se a atividade viola um princípio da Bíblia. Outro é se estamos violando nosso próprio senso de pureza. Aqui é importante nos conhecermos.
Nós precisamos saber onde somos vulneráveis. Na maioria das circunstâncias é perigoso nos colocarmos no que sabemos ser uma tentação real, mesmo que digamos que pedimos a Deus força para vencer a tentação. Freqüentemente estudantes me dizem que entraram em situações perigosas porque eles sentiram que eram as únicas pessoas que podiam testemunhar ali. Eu acredito que devemos assumir riscos como cristãos. Mas Deus não nos chama para situações em que ele sabe que nós não conseguimos lidar. Ele pode achar uma outra pessoa para ir ali que não lute nessa área.
Nós temos liberdade de falar. Isso também significa que nós temos a liberdade de sermos nós mesmos. Fique contente com o temperamento que Deus te deu e o use para os seus propósitos. Deus fez alguns de nós tímidos, outros extrovertidos. Nós devemos louvá-lo por isso. Mas se você é tímido, se lembre que sua timidez não é uma desculpa para evitar relacionamentos; pelo contrário, isso significa que você vai amar o mundo de uma maneira diferente que um extrovertido.
Uma garota me disse uma vez que era terrivelmente tímida. Só de pensar em falar com alguém ela ficava aterrorizada. Mas ela era uma cristã comprometida e sabia que tinha de achar caminhos para se relacionar. Percebeu que não deveria pedir a Deus para torná-la extrovertida. Mas ela orou pedindo a liberdade de olhar para fora, não para si mesma.(...)
O que me impressionou nela foi a eficiência de seu testemunho não-verbal. Ela falou com seus amigos sobre Jesus. Mas ela o demonstrou de maneiras diferentes também. Ela trabalhou para vencer sua timidez, mas descobriu que tinha o dom da serenidade. Pessoas se aproximavam dela porque sua presença trazia paz. Ela nunca teria percebido esse dom se não tivesse passado pelo processo doloroso de tomar iniciativa. Ela trabalhou nos limites de sua timidez, mas nesse processo Deus a abençoou com os dons de sua timidez.
É desalentador ouvir as pessoas dizerem que para mim é fácil evangelizar porque sou extrovertida. Ser extrovertida não é essencial para o evangelismo - obediência e amor são. Há muitas pessoas que eu nunca pude alcançar e eu provavelmente as intimidei por ser expansiva. Deus irá usar outros cristãos para alcançá-los. Mas não me sinto culpada por isso porque Deus não é glorificado em minha vida se eu tento ter a personalidade do meu melhor amigo. Eu preciso ser quem eu fui criado para ser. E preciso me relacionar com os outros de uma maneira sensível à pessoa com quem estou falando e consistente com minha própria personalidade.(...)
Mas você pode dizer que de fato tomar a iniciativa não é natural para você. Você é uma pessoa tímida. Na verdade, a habilidade de sairmos de nós mesmos e servirmos ao outro não é natural para ninguém. Mas ficarmos sentados e não fazermos nada não é uma opção. Nós somos chamados para amar, para servir, para identificar a necessidade e responder a ela. Não é fácil para ninguém, mas é o que o Espírito Santo nos ajuda a fazer a fim de nos tornarmos mais parecidos com Jesus. No entanto, na maneira de exercitar o nosso amor, no modo que encontramos para demonstrá-lo, na maneira que compartilhamos Cristo com os outros nós podemos escolher um estilo adequado a nós. Nós podemos tomar a iniciativa, seja discreta ou expansivamente.
Não devemos nos transformar, como John Stott falou, um cristão "coelho-na-toca" - o tipo que coloca sua cabeça fora do buraco, deixa seu colega de quarto cristão pela manhã e corre para a aula, procura freneticamente um colega cristão para sentar ao seu lado (uma maneira estranha de encarar um campo de missão). Assim ele procede aula após aula. No refeitório, ele se senta com os cristãos numa grande mesa e pensa, "Que testemunho!" De lá ele vai para o seu estudo bíblico, onde são todos crentes. E quem sabe ele ainda chega a tempo pra reunião de oração onde os crentes oram pelos não-crentes do seu andar. Então à noite ele volta rapidamente para junto de seu colega de quarto cristão. Seguro! Ele atravessou o dia e seus únicos contatos com o mundo foram aqueles corajosos períodos entre uma atividade cristã e outra.
Que perversa reversão do mandamento bíblico de ser sal e luz do mundo. O cristão "coelho-na-toca" permanece ilhado e isolado do mundo quando ele é ordenado a se infiltrar nele. Como podemos ser sal da terra, se nós nunca saimos do saleiro? (...)
Nós somos sal e luz. Nós fazemos diferença porque somos diferentes. E quando nós vivemos perante Deus como realmente somos, ele irá mudar o mundo no qual vivemos.

John Wesley (1703-1791)


Em 28 de junho de 1703 nascia em Lincolnshire, na Inglaterra, John Wesley, cuja mãe chamava-se Susanna, era o 12º dos dezenove filhos do reverendo Samuel Wesley, um pároco de Epworth.

Quando completava seis anos, quase perdeu a vida num incêndio à noite, provocado por um grupo de malfeitores. O fogo se alastrava no teto de palha da paróquia onde eles moravam, começando a estilhaçar brasas sobre as camas. Subitamente, Hetty Wesley, um dos irmãos menores, acordou assustado e correu até o quarto de sua mãe. E logo todo mundo estava em pé, tentando conter o domínio das chamas, enquanto a pequena criada, agarrando o bebê Charles nos braços, chamava as crianças para um lugar mais seguro. A essa altura, Twice Susanna Wesley forçava a porta contra as costas, numa tentativa desenfreada de proteger-se.


A família finalmente conseguiu sair de casa e, apavorada, reuniu-se no jardim, pois descobrira que o pequeno Jackie havia ficado lá dentro dormindo. Voltaram correndo, mas era tarde: a escada estava em cinzas e tornava impossível resgatá-lo. O rapaz chegou até aparecer na janela, porém não podiam segurá-lo, visto que a casa ficava no segundo piso. Todavia, um pequeno homem pulou sobre os largos ombros do pai de Wesley e, num esforço desmedido, conseguiu salvar a criança.

Um Estudante de Cristo

Conseqüentemente, uma profunda ternura passou a residir no coração de Jackie que, mesmo depois de homem, considerava que havia escapado aquela noite porque Deus tinha um propósito muito especial em sua vida. Várias vezes ele chegou a comemorar este dia em seu diário secreto que escreveu: “Arrancado das Chamas.”

Seis anos depois, em Charter House School, Jackie matriculou-se na Universidade em Oxford, tornando-se um estudante da igreja de Cristo. Quatro anos mais tarde graduou-se em bacharel de artes e em 1726 foi eleito acadêmico do Colégio Lincoln.

Enquanto John Wesley era ordenado ao ministério e ajudava o pai em casa, Charles, o irmão mais novo, organizava em Oxford um pequeno grupo de estudantes para orações regulares, estudos bíblicos e outros serviços cristãos. O Clube Santo, como era chamado, incluía vários integrantes, que, mais tarde, tornaram-se pioneiros de um avivamento, ocorrido no século XVIII, destacando-se, entre outros, George Whitfield.

Obedecendo ao Senhor, John Wesley viajou para colônia em Georgia, como capelão, em 1736. Charles nesta época era secretário do governador e o piedoso trabalho em Georgia, embora com muitas lutas, teve sucesso mais tarde. O reverendo George Whitfield, depois de visitar a sede do movimento, escreveu: “O eficiente trabalho de John Wesley na América é impressionante. Seu nome é muito precioso entre o povo, pois tem edificado as fundações que, espero, nem homens nem demônios a abalem.”

Aprendendo a Confiar

Em contato com German Moravian Christians na América, Wesley questionava sobre as verdades cristãs. Sabia muito bem que o êxito de seus trabalhos estava nas mãos de Deus e, por isso, começou a buscá-lo em oração. Não demorou muito tempo e, em 24 de maio de 1738, acabou encontrando a resposta quando, de volta para a Inglaterra, resolveu registrar tudo quanto acontecera naquele dia: “À tarde, visitando a sociedade em Aldersgate Street, li o ‘Prefácio da epístola aos Romanos’ na versão de Lutero, cujas palavras tocaram-me profundamente. Senti meu coração bater fortemente. E, desde aquele momento, aprendi a confiar em Cristo como meu Salvador. Estou seguro de que os meus pecados estão perdoados. Me salvei da lei do pecado e da morte.” Esta experiência mudou o rumo da vida de Wesley que, a partir daquele momento, passou a ser uma nova criatura, sendo consagrado o maior apóstolo da Inglaterra.

John Wesley começou o trabalho de pregação ao ar livre quando viajava para Bristol a fim de ajudar George Whitfield, que na época era conhecido como o mais eloquente pregador da Inglaterra. Wesley, a princípio, rejeitou a idéia, mas uma vez convencido da vontade de Deus, acabou se tornando mais famoso que Whitfield. Viajava 11 quilômetros por ano. Experimentou os mais cruéis sofrimentos e oposições em toda sua vida. Estava frequentemente em perigo.

Embora fosse sábio e proeminente, o itinerante evangelista era um homem simples e executou muitas obras sociais. As suas poderosas mensagens muito influenciaram a igreja que, no ano de 1739, adquiriu uma sede para o movimento protestante, que crescia vertigiosamente. Comprou uma casa de fundição em ruínas, na cidade de Moofield, e transformou-a num templo. O prédio passou por uma rigorosa reforma que custou, na época, 800 libras (quantia superior ao da compra que foi de 115 libras), mas valeu a pena. Depois de pronta, a capela passou a comportar cerca de mil e quinhentas pessoas.

Era o primeiro edifício metodista em Londres, onde a verdadeira doutrina de Cristo era proclamada. Pessoas sedentas por ouvir a gloriosa mensagem do evangelho cruzavam todos os domingos a escuridão das estradas de Moorfield com lanternas, para ouvir os ensinamentos de Wesley. O prédio dispunha de sala de reuniões, com capacidade para 300 pessoas, sala de aula e biblioteca.

Mais tarde, John Wesley instalou a sua própria casa na parte superior da capela, onde passou a morar com a sua família. Em 1746, abriu um centro de atendimento médico e escola gratuitos, com capacidade para 60 estudantes, contratou farmacêutico, cirurgião e dois professores e, em 1748, alugou uma casa conjugada para refugiar viúvas e crianças.

Muitos foram os patrimônios conseguidos pela igreja durante os 40 anos do movimento metodista em Moorfield, organizada por John Wesley. Entretanto, devido a expiração do contrato imobiliário, a sede teve de mudar-se para um outro lugar.

Próximo dali, em City House, encontrava-se um vasto campo onde jaziam os túmulos de Bunhill Field e o de sua esposa Susana Wesley. Um lugar de pântanos, recentemente aterrado, onde foi construída a catedral de Saint Paul. Havia também no local algumas pedras de moinho, utilizadas para moer milho trazido do Thames, que era transformado em trigo.

John Wesley alugou quatro mil metros quadrados destas terras em 1777 para construir a nova capela. E, finalmente, em 21 de abril do mesmo ano, sob forte chuva, lançou a pedra fundamental, com a seguinte gravação: “Provavelmente, esta pedra não será vista por algum olho humano, mas permanecerá até que a terra e o trabalho sejam consumados.” Naquele dia, Wesley improvisou um púlpito sobre a pedra e pregou em Nm 23.23.

A Recompensa

Em 1º de novembro de 1778, dezoito meses depois, no Dia de Todos os Santos, a capela estava próxima de ser aberta para a adoração pública. Apesar dos ventos das dificuldades (além de ter contraído muitas dívidas, os trabalhadores tiveram as ferramentas roubadas), Deus recompensou grandemente o esforço de Wesley, levantando voluntários dentre os membros. O rei George III, por exemplo, doou mastros de navios de guerra para o suporte das galerias.

Conta a história que um certo dia Wesley ficou de um lado do templo e Taylor, um dos cooperadores do outro, com os chapéus nas mãos, e conseguiram arrecadar 7 libras; o suficiente para a conclusão das obras. Toda a galeria foi coberta com gesso e os bancos de madeira de carvalho, doadas pelas igrejas da América, Canadá, Sul da África, Austrália, Oeste da Índia e Irlanda. As janelas vitrificadas, as impressões no teto foram trabalhados no estilo Adams (réplica antiga), e a casa de Wesley construída num pátio em frente à capela. Estas raridades, depois de reformadas em 1880, no centenário da morte de Wesley, memorizam as epopéias deste bravo soldado de Cristo.

Sua Morte

Mesmo depois de velho, quase cego e paralítico, John Wesley continuava pregando em City Road e Latherhead. E, quando percebeu que sua vida estava chegando ao fim, sentou-se numa cama, bebeu um chá e cantou:


“Quando alegre eu deitar este corpo e minha vida for coroada de bênção, quão triunfante será o meu fim! Eu glorificarei a meu Criador enquanto tenho fôlego; E, quando a minha voz se perder na morte, empregarei minhas forças; em meus dias o glorificarei enquanto tiver fôlego até o fim de minha existência.”


Wesley foi enterrado no Jardim-túmulo, em frente à capela em City Road, sob as luzes das lanternas, na manhã de 2 de março de 1791. Morreu com os olhos abertos e balbuciando a seguinte palavra: “Farwell” (adeus). Cerca de 10 mil pessoas acompanharam o funeral. E a lápide até hoje indica o significado histórico: “À memória do venerável John Wesley: o último companheiro do Lincoln College, Oxford...”


Fonte: Revista Obreiro Aprovado (Fev/Mar 1996)

ENTREVISTA com o sociólogo GEDEON ALENCAR

O Protestantismo Brasileiro é Sincrético

Para o sociólogo Gedeon Alencar, a teologia é mais fruto de contextualização cultural do que revelação divina.

Entrevista publicada na Revista Eclesia, março de 2006

O pensamento crítico não é lá muito valorizado no meio evangélico. Pudera – em boa parte das igrejas, qualquer questionamento costuma ser visto como rebeldia. Por isso, pensadores como Gedeon Freire de Alencar nem sempre têm seu trabalho reconhecido no segmento. Graduado em filosofia, mestre em ciências sociais e diretor pedagógico do Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos (Icec), além de presbítero da Igreja Assembléia de Deus Betesda, em São Paulo, Gedeon acaba de lançar um livro polêmico.
Protestantismo tupiniquim (Arte Editorial) é uma obra que analisa criticamente posturas e comportamentos da Igreja Evangélica nacional. Inclusive, algumas evoluções, como a mudança de atitude diante de manifestações artísticas e culturais até bem pouco tempo vistas como profanas.
Segundo Gedeon, muitas coisas que já foram consideradas pecaminosas pelos crentes de outrora hoje são vistas com outros olhos justamente porque nada tinham de espirituais ou carnais. “Esse juízo de valor nem sempre é apropriado. É o caso do rádio e da TV, que de malditos passaram a ser usados maciçamente para o evangelismo”, opina. Por isso mesmo, diz o pesquisador, é preciso analisar a teologia sob o ponto de vista contextual: “Embora os teólogos digam que teologia é uma produção divina, a verdade é que ela é uma produção humana adequada ao seu tempo”. O exemplo mais claro é a chamada teologia da prosperidade, que ganhou força nos anos 1970, acompanhando o processo de urbanização. “Ela só poderia florescer numa sociedade urbana e de consumo”, enfatiza. “É a legitimação do aburguesamento da classe média evangélica.”
No Icec, Gedeon leciona as disciplinas metodologia científica, filosofia, cultura e Evangelho e sociologia da religião. Além do seu trabalho docente, participa de diversas entidades acadêmicas, como a Associação Brasileira de História da Religião e a Rede de Teólogos e Cientistas Sociais do Pentecostalismo na América Latina e Caribe. Atua também como consultor e palestrante, sempre abordando a inserção do Evangelho nas questões sociais brasileiras. Nesta entrevista a ECLÉSIA, ele esclarece alguns pontos de seu livro e traça um panorama do modo como a fé evangélica tem influenciado a cultura nacional – e, em escala muito maior, como tem sido afetada por ela.

ECLÉSIA – Como o senhor define esse tal protestantismo tupiniquim, tema de seu livro?
GEDEON ALENCAR – Vou recorrer à definição que faço no fim do livro, que é a de um cristianismo brasileiro. E sendo brasileiro, ele é miscigenado, sincrético, pluralista e festivo, do jeito que o Brasil é. Ou seja, o protestantismo, aqui, não é melhor nem pior do que é o Brasil – ele está impregnado de miscigenação e sincretismo.

Então, a origem do protestantismo é sincrética?
Sim. O cristianismo, originalmente, é sincrético. Ninguém inventa a roda – ou seja, não existe religião pura. As festas judaicas, quando foram estabelecidas por Moisés, obedeciam ao ciclo agrícola. Eram festas que todas as civilizações da época tinham. Os mesopotâmicos tinham aquelas festas e os egípcios também, antes, durante e depois dos hebreus. A própria estrutura e o funcionamento do Tabernáculo tinham aspectos que templos de outros deuses da época também tinham. A diferença é que, no caso dos israelitas, havia uma revelação de um Deus específico e onisciente, mas a estrutura religiosa dos judeus, e aqui estou falando como sociólogo, era igual a qualquer outra. Ou seja, a religião tanto absorve costumes de sua época quanto influencia esses costumes.

Mas os evangélicos são críticos do sincretismo religioso.
Hoje, é muito fácil, e todo mundo faz isso, criticar a questão do sincretismo quanto a cultos afro. Uma das coisas que mais bato no meu texto é que essa nossa implicância com o culto afro tem muito mais a ver com o racismo subjacente. A gente absorve o folclore americano, o folclore europeu, o folclore de outros lugares. E esse folclore, só porque é de civilização branca e poderosa, não é pecado? Ora, veja as músicas dos nossos clássicos hinários. As músicas da Reforma Protestante, por exemplo, são do folclore alemão. Por que que eu posso cantar folclore alemão e não posso cantar folclore angolano? Para se ter uma idéia, um instrumento que foi sacralizado no mundo evangélico é o piano. O piano nasceu em ambientes, digamos, não tão santos. Ele apareceu primeiro nos bordéis, já que sua música é apropriada para danças. Agora, como veio a nós pelo viés anglo-saxão branco, foi divinizado. Por que o piano é santo e o atabaque é demoníaco? Então, essa nossa implicância protestante vem muito mais por viés racista do que teológico.

Os crentes, em geral, rejeitam as religiões afro por considerarem-nas demoníacas, dada sua inspiração em espíritos ancestrais e divindades ligadas à natureza. Na sua opinião, isto é manifestação racista?
É aí que está. Hoje, fazemos uma satanização da cultura afro como um todo. A gente não procura diferenciar religião afro de cultura afro. Religião afro, como qualquer outra religião, pode ser demoníaca. O protestantismo alemão na época do nazismo não era menos satânico do que a religião afro. E o cristianismo holandês na África do Sul, que legalizava o apartheid, era menos satânico do que os cultos de matriz africana? Toda religião tem erros, ora. Mas também tem acertos e belezas – e isso acontece tanto com as religiões afro quanto com o nosso cristianismo. Veja a musicalidade dos negros, a alegria que eles têm diante da vida. Suas danças são inspiradoras. E por que que eles são obrigados a celebrar Deus à maneira dos europeus e não à sua própria? Durante séculos, tivemos essa opressão contra os negros na África, e a transpusemos para o Brasil. Repito: é mais uma questão ideológica do que teológica.

Os evangélicos são avessos também a um dos pontos básicos da fé sincrética, que é a veneração de imagens...
Quando o texto bíblico dos Dez Mandamentos fala em adoração de imagens, a gente simplifica dizendo que trata-se das imagens de escultura e logo associa com os santos católicos. Mas o que é imagem e o conceito de idolatria? O ídolo é toda e qualquer mediação que se coloca entre você e Deus. Em alguns momentos das nossas histórias denominacionais, alguns líderes e membros de determinadas igrejas adoram muito mais a sua igreja e sua tradição do que a Deus. Cria-se todo um processo idolátrico, em que o indivíduo diz que a sua igreja é melhor do que as outras. Isso sem falar dos ícones, de algumas figuras do meio evangélico que têm um patamar de ídolo. Existem líderes em nosso meio evangélico que não pisam no chão. Ninguém pode aproximar-se ou falar diretamente com eles. Há quase um processo de veneração da personalidade do líder. Nesse sentido, tal comportamento é tão pecaminoso e satânico quanto qualquer outra forma de idolatria.

É possível dizer que existem ritmos santos e ritmos profanos?
Veja bem, todos os ritmos são do mundo. Eu acho uma profunda estupidez satanizar um ritmo e divinizar outro. O louvor a Deus não passa pelo ritmo, mas pela transcendentalidade divina e pela subjetividade humana. Um axé pode ser sensual, mas um blues, ou um jazz, também podem. O samba pode ser sensual, mas uma marcha também pode. Mas o que Jesus disse à mulher samaritana? Que os verdadeiros adoradores devem adorar ao Senhor em espírito e em verdade. O que Jesus quis dizer ali é que adoração não tem a ver com uma categoria de pessoas, não tem a ver com o local e não tem a ver com dias determinados. Ou seja, adoração é transcendentalmente acima de temporalidade e do espaço. Logo, se o reduzirmos à questão do ritmo, o louvor não passa por um determinado tipo de música ou dos instrumentos musicais utilizados – passa por um ideal de vida, que é muito mais sublime do que qualquer outra coisa.

O senhor acha que a cultura nacional tem influenciado a Igreja Evangélica?
Sim, e graças a Deus por isso. Nos primórdios do protestantismo no Brasil, a Igreja Evangélica aqui instalada não tinha nada a ver com a realidade brasileira. Quando a Igreja Anglicana chegou por aqui, no século 19, tinha toda sua celebração em inglês. A Igreja Luterana, da mesma forma – era toda alemã, tinha muito mais a ver com a sua raiz étnica do que com o Brasil. Já no século 20, tivemos a Congregação Cristã do Brasil, que até a década de 1940 só fazia cultos em italiano e cantava músicas em italiano. Até a Bíblia era em italiano. Isso só começou a mudar dapois da Segunda Guerra Mundial, porque tudo o que era ligado à Itália e à Alemanha – países que o Brasil combateu no conflito – passou a ser considerado suspeito. A partir dos anos 1950, contudo, as igrejas já nascem aqui com cara brasileira.

Mas a matriz evangélica adotada no Brasil é incontestavelmente de influência americana. Logo, essa dominação americana sobre a Igreja brasileira não acabou?
Aí, entra uma outra particularidade da cultura brasileira, e os evangélicos também estão inseridos nessa cultura. O Brasil hoje é um dos países mais multiculturais do mundo. E somos extremamente abertos a novidades, principalmente aquelas oriundas de nações mais desenvolvidas do que nós. Uma das características mais básicas da cultura brasileira é a imitação. O brasileiro adora imitar o estrangeiro, sobretudo o que vem dos Estados Unidos. E o gospel moderno, tanto na literatura como na música, é uma imitação do que se faz lá. Nada mais brasileiro que imitar o estrangeiro. Podemos dizer que temos uma Igreja brasileira, mas com cara americanizada. Além da americana, há outras influências culturais sobre a Igreja brasileira? Sim. Em muitas igrejas pentecostais brasileiras, está havendo um retorno a tradições e origens judaicas, que provavelmente vai dar o que falar. Isso tem uma carga ideológica e racista de sionismo forte, num mundo onde se acirrou muito a questão da luta religiosa, influenciada pela direita americana. Eu conheço igrejas em São Paulo que têm a bandeira de Israel no altar. Em outras, o pastor instrui os fiéis a guardar o sábado e a utilizar objetos rituais como o candelabro e outros utensílios do antigo Tabernáculo hebreu. Para quê isso? Uma coisa é você abençoar a geração de Abraão; outra é abençoar a atual nação de Israel. A nação de Israel hoje é a manifestação política de uma outra época, há um longo abismo desde os tempos de Abraão. Eu acho esse sionismo evangélico só traz problemas.

Por quê?
Eu que pergunto: por que certas coisas têm que ser resgatadas e outras não? Se é para obedecer ao Levítico na literalidade, precisaríamos fazer sacrifícios de animais e excluir as mulheres da liturgia. E é claro que não devemos fazer isso. Essa adaptação ao judaísmo não é conveniente para os crentes, pois como é que ficaria então nossa relação com o sacrifício de Jesus? Isso causa um problema teológico seríssimo.

E a Igreja brasileira tem influenciado a cultura nacional?
Sim e não. Um exemplo claro foi sua postura diante do golpe militar de 1964. No início da ditadura militar, todas as igrejas evangélicas, como batistas e presbiterianas, mandaram telegramas para o general Castelo Branco, um dos líderes do movimento e que se tornou presidente da República, parabenizando-o pelo golpe. Eles estavam certos de que aquilo era a direção de Deus, mas anos depois a gente viu no que deu. Com o presidente Collor e, mais tarde, com o próprio Lula, foi a mesma coisa. Qualquer manifestação contra ou a favor é uma manifestação secular, social. É uma inserção da Igreja nessa sociedade, ao mesmo tempo que pode ser uma manifestação espiritual. Há 50 anos atrás a Igreja satanizava o futebol; hoje, não. O futebol deixou de ser pecaminoso ou a igreja melhorou? Nem uma coisa nem outra. Futebol não deixou de ser futebol e igreja não deixou de ser igreja. No decorrer dos anos todos mudam, pois há uma adequação natural. Não tem como ser diferente.

Essa adequação não é prejudicial?
Para não tipificar de forma muito pejorativa a Igreja, vamos relacioná-la com o PT. O PT de 20 anos atrás era aquele grupinho coeso, de uma honestidade a toda a prova. Pobre, pequeno, com inimigos mil ao redor – essa é uma tendência natural do agrupamento social minoritário. Num grupo pequeno, seus inimigos são sempre exteriores. Na medida em que esse agrupamento vai crescendo, seus inimigos mudam. E aí começa aquela história de fogo amigo. Os maiores inimigos tornam-se os internos. Voltando à questão da Igreja, à medida que ela vai crescendo – e ela cresceu muitíssimo nas últimas décadas –, vai perdendo seu poder de influência.

O natural não seria o contrário?
Acontece que ela ficou quantitativamente grande, mas tornou-se qualitativamente heterodoxa. É uma Igreja que não influencia mais a sociedade, porque ficou menos coesa.

Hoje assistimos a uma explosão do chamado mercado gospel. A produção cultural evangélica tem influenciado “o mundo”, para usar uma expressão bem comum entre os crentes?
O problema da nossa produção cultural é que a gente entra no mercado não para alterar alguma coisa, mas seguindo os padrões vigentes de produção, de consumo, de estética – e, dizem as más línguas, de falcatrua. Isso é mais evidente em relação à chamada indústria de música gospel. Da mesma forma, com a chamada indústria evangélica de literatura. Há até indústria de testemunhos! Há algum tempo, os evangélicos achavam errado estar presente no mundo. Só que o grande problema não é a gente estar presente lá no mundo, mas seguir o mesmo padrão dominante. Transportando isso para a questão do comportamento social, não existe mais aquele perfil evangélico do indivíduo que não bebe, não fuma, não é desonesto e não faz coisas erradas. O evangélico de hoje não tem mais aquele carimbo de santidade na testa. Algumas vezes, faz coisas até piores do que os outros.

E o que dizer das qualidade da produção cultural evangélica?
Se a gente pegar algumas canções de louvor e adoração que são cantadas hoje, veremos que são muito rasas. Os caras escrevem umas quatro linhas que não dizem nada e ficam repetindo essa baboseira por meia hora. Isso é desonesto. Eu já ouvi músicas da nova safra gospel que considero um lixo. Não têm qualidade musical, não têm conteúdo, não têm letra, não têm arranjo, não têm estilo. É uma porcaria, com todas as letras. Também tenho lido livros evangélicos de ponta a ponta e no final não consigo entender o tema daquilo. O autor não diz nada e você fica com a sensação de que gastou dinheiro e não aprendeu nada. Ou então, no culto, o pregador fica 40 minutos dizendo absolutamente nada. Ou seja, uma mensagem vazia é tão desonesta qanto um CD ou um livro que não dizem nada. E ainda tem aquela coisa da fabricação de astros da música, de ídolos da literatura, de estrelas do púlpito. A gente vê isso nos livros, nos CDs, nos cultos, nos congressos... .

A teologia também é uma produção cultural?
Apesar dos teólogos sempre dizerem que teologia é uma revelação divina, a verdade é que ela é uma produção humana adequada ao seu tempo. Do ponto de vista sociológico, teologia é a legalização do estado social. Nesse sentido, a teologia da prosperidade jamais poderia fazer sucessso na década de 1920, quando ocorreu uma grande crise econômica do mundo. Não havia ambiente social nem cultural para isso. A teologia da prosperidade nasce junto com o neoliberalismo econômico. Quer dizer, ela junta a fome com a vontade de comer. Ou seja, as teologias são sempre produzidas de acordo com a época. A teologia da prosperidade nasce num processo de urbanização fundamental. Essa teologia não poderia ter nascido numa sociedade rural. Ela tinha que aparecer num mundo urbanizado com o de hoje, com demandas de consumo inimagináveis. A teologia da prosperidade legaliza essa classe média evangélica que se aburguesou. E isso não é um fenômeno exclusivamente contemporâneo. A teologia calvinista do século 17 surgiu como forma de legalização da burguesia ascendente da época. E assim por diante.

Então a teologia desses grupos é meramente utilitária?
Tanto quanto de outros grupos. O segmento neopentecostal tem uma ética relativista e uma estética muito consumista. Isso também tem uma teologia, conforme a tese que o sociólogo Ricardo Mariano elaborou sobre o neopentecostalismo, que relativizou a ética e se aproveitou da estética.

Onde mais se observam contextualizações sociais ou políticas na teologia protestante?
Para não ficarmos somente na teologia da prosperidade, veja o escatologismo exagerado do pentecostalismo nas primeiras décadas do século passado. Há uma razão histórica para explicar tamanha ênfase num eventual fim dos tempos. O pentecostalismo nasce na passagem do século 19 para o 20. Toda passagem de século tem uma efervescência escatológica muito forte. E logo nos anos seguintes, veio a Primeira Guerra Mundial, que trouxe uma mudança fundamental no processo bélico, que foi a inclusão dos aviões – uma tecnologia nova – em combates. Num panorama de destruição daqueles, a ênfase escatológica foi tão grande que os crentes pensavam que Jesus estava às portas, prestes a voltar a qualquer momento. Depois, veio a Segunda Guerra, trazendo mais destruição e ainda por cima a figura de Hitler, considerado por muitos como o próprio anticristo. Logo, tudo apontava para uma volta iminente de Cristo, e a teologia produzida na época refletia isso.

Falando em termos sociológicos, esse escatologismo levou os evangélicos à alienação?
Exatamente. O grande mal que essa teologia produziu foi uma alienação absoluta da realidade. Como as pessoas pensavam que Jesus já estava voltando, achavam que não deveriam mais ter nada a ver com este mundo. A teologia pentecostal, nos seus primeiros anos, e mesmo até hoje em alguns setores, levou os evangélicos a achar que só a vida espiritual deveria ser cuidada – e o mundo que se explodisse. O fato de se pensar somente em morar no céu produziu uma profunda alienação. Olha, eu tenho muitas reservas contra os dogmáticos de plantão, os donos da verdade teológica, que dizem que isso ou aquilo é pecado e está errado. Pode ser que não seja. Como eu não sou teólogo ou pastor, posso me dar ao luxo de relativizar. Como sociólogo, não tenho essa preocupação dogmática. E acho que os crentes em geral também não devem ter.

Marcos Stefano
Jornalista da revista Eclésia

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

A TRANSFIGURAÇÃO DE JESUS



Textos: Mateus 17.1-13; Marcos 9.2-13; Lucas 9.28-36

(Estraído da revista A Vida de Jesus, Estudos nos Quatro Evangelho Harmonizados, vol III, da Editora Batista Brasileira, Rio de Janeiro, 2ª edição, 2006, págs 47 a 50)

Fazia pouco tempo que Jesus enviara seus doze apóstolos, de dois em dois, pelas vilas e cidades da Galiléia, que multiplicara pães e peixes para mais de cinco mil pessoas, que multiplicara nova-mente pães e peixes para outra multidão de mais de quatro mil pessoas, e que ouvira de Pedro o reconhecimento de que ele, Jesus, era o Cristo, o Filho do Deus vivo. Lucas diz que faziam oito dias do episódio da confissão de Pedro e, certamente, tudo isto estava muito vivo nas mentes dos seus discípulos.
De acordo com S.L.Watson e W.E.Allen (op.cit. Pág. 91) Jesus estava em território de Herodes Filipe, a nordeste do mar da Galiléia, na região de Cesaréia de Filipe e, em determinado momento separou Pedro, Tiago e João para estar a sós com ele, e se dirigiu a um alto monte para orar (pela região pode-se deduzir que seria o monte Hermon).
Enquanto orava seu rosto mudou de aparência (Lc 9.29) e tornou-se resplandecente como o sol (Mt 17.2). Suas vestes também foram transformadas e tornaram-se extre-mamente brancas e resplandecentes (Mr 9.3). Ao mesmo tempo em que foi transfigurado, apareceram dois grandes profetas dos judeus, Moisés e Elias, conversando com Jesus.
Pedro e os outros dois apóstolos estavam dormindo quando isso aconteceu e, quando acordaram já encontraram aquele quadro diante de si. Pedro, sem saber o que dizer (Mr 9.6), quando já os dois profetas se retiravam, disse a Jesus que era bom estarem ali e que deveriam fazer três cabanas: para Jesus, Moisés e Elias. Enquanto Pedro ainda falava (Lc 9.34) todos foram cobertos por uma nuvem da qual saiu a voz de Deus que dizia: “Este é o meu Filho amado, o meu eleito, em quem tenho o meu prazer; a ele ouvi."
Percebendo que era o próprio Deus quem falava, os três caíram com o rosto em terra e ficaram assim, cheios de temor (Mt 17.6). Mas, Jesus chegou-se a eles e tocando-os mandou que se levantassem e não tivessem medo. Eles levantaram os olhos e não viram mais ninguém, a não ser Jesus sozinho.
Iniciaram a descida e Jesus ordenou-lhes que não contassem a ninguém sobre o acontecido, até que o Filho do homem (ele próprio) fosse levantado dentre os mortos. Essa ordem desencadeou dúvidas nas mentes dos três apóstolos, que giravam a respeito da ressurreição de Elias.
Do episódio da transfiguração e dos ensinamentos de Jesus, podemos destacar o seguinte:

A TRANSFIGURAÇÃO DE JESUS MANIFESTOU A SUA NATUREZA DIVINA
Mt 17.2; Mr 9.3; Lc 9.29

Talvez motivado pela sua natureza de pecado o homem sempre tem a tendência de olhar para Jesus somente como um homem. Isso não acontece somente em nossos tempos; já acontecia nos tempos de Jesus. Para confirmação do que é afirmado, é só observarmos a intensidade da revolta e da incredulidade dos judeus quando Jesus afirmava ser o Filho de Deus.
Os discípulos de Jesus não eram exceção. Por certo o reconheciam como alguém muito especial, vindo de Deus, mas até a sua ressurreição sempre tiveram dificuldades em vê-lo como divino, como o Filho de Deus.
A transfiguração de Jesus manifestou a pelo menos três dos seus discípulos que ele era realmente divino, que tinha uma natureza pré-existente, essencial-mente diferente da humana, de uma glória inigualável. O surgimento dessa natureza gloriosa, divina, fez com que o seu resplendor fosse manifestado em uma visão indes-critível. Seu rosto tinha um brilho tão intenso quanto o sol e suas vestes eram tão brancas que resplandeciam como a luz. Nenhum homem poderia ter essa aparência.

NO MOMENTO DA TRANSFIGURAÇÃO FORAM MANIFESTADAS REALIDADES CELESTIAIS
Mt 17.3; Mr 9.4; Lc 9.30,31

Certamente a Bíblia não nos revela todas as realidades celestiais, porém, somente algumas. Mas as que nos são reveladas são confor-tantes e nos deixam plenos de esperança e alegria pela salvação. Por palavras de Jesus registradas nos Evangelhos sabemos que o céu é um paraíso, que é o lugar onde ele está e onde estaremos juntos com ele. Pela visão do Apocalipse sabemos que é um lugar mara-vilhoso, cheio de resplendor, onde não existem dores, tristezas, aflições, pecados e tudo o mais que nos faz sofrer tanto neste mundo.
No momento da transfiguração foi formado um quadro vivo que deixou à mostra algumas outras realidades celestiais:
1. A identidade do ser pessoal de quem é salvo é mantida nos céus. A nossa individualidade, a nossa personalidade essencial é mantida. Para o judeu o nome representava o ser na sua essência e note-se que Moisés continuou a ser Moisés no céu e que Elias também continuou a ser Elias. Certamente o Senhor Jesus, ao conversar com eles os chamava por seus nomes. Não fosse assim, como Pedro, Tiago e João poderiam saber quem era, se já se depararam com a cena quando acordaram? É certo que, boquia-bertos, ficaram a ouvir a conversa. A prova disso é que sabiam do que falavam (Lc 9.31).
2. Os salvos mantêm a consciência das realidades do reino de Deus. No céu não existem “zumbis” ou seres automatizados sem raciocínio e alienados das coisas a respeito do reino de Deus. Em poucas palavras Lucas deixa essa realidade regis-trada quando afirma que falavam da partida de Cristo que estava para acontecer em Jerusalém. Ao que parece, de repente Jesus se viu no céu (deve ser registrado que ele estava orando Lc 9.29) parlamen-tando com seus servos do passado, conversando a respeito da sua morte, ressurreição e retorno ao céu. Moisés e Elias estavam no céu participando do que acontecia com respeito do cumprimento do plano de Deus para a salvação do homem. Plano do qual eles fizeram parte ativa no período do Velho Testamento.
3. A glória celestial é tão mara-vilhosa que faz com que os crentes em Cristo desejem permanecer nela para sempre. A palavra súbita e impensada de Pedro demonstra isso. Acordou, viu a glória divina de Cristo, viu a presença dos grandes profetas do passado, ouviu a conversa e não pensou mais em voltar. Esqueceu-se de todos os companheiros e até de sua família. Ali, naquele lugar onde Deus estava presente, era muito bom. Por que voltar? Por que sair dalí? Pedro nem se preocupou com seu próprio abrigo. Só queria fazer abrigos para os três e ficar ali desfrutando daquela realidade celestial, mara-vilhosa, que nunca vira.

O FILHO DE DEUS PRECISA SER OUVIDO
Mt 17.5-13; Mr 9.7-13; Lc 9.35,36

Enquanto Moisés e Elias se apartavam de Jesus e Pedro falava com Cristo em ficar ali, uma nuvem resplandecente cobriu a todos. Era a glória de Deus que tomava conta do lugar. Mas não foi uma mani-festação silenciosa porque o próprio Deus Pai fez ouvir a sua voz dizendo que: a) Jesus é o seu Filho amado e escolhido; b) Ele, o Pai, tem prazer no seu Filho, Jesus; c) Os discípulos de Jesus têm que dar ouvidos a ele.
Que significado teria isso para a humanidade, principalmente para aqueles que se fizeram discípulos de Cristo? Primeiramente o signi-ficado do testemunho de três homens idôneos que ouviram, juntos, a voz do próprio Deus afirmando que Jesus não era um homem como outro qualquer, com a natureza humana somente. Jesus era o próprio Filho de Deus. Em seguida, a afirmativa de que Jesus é o Filho amado (conf, Mt e Mr), escolhido (conf. Lc), em quem estava o prazer do Pai, demons-trando que o que aconteceria com Jesus, que era o teor da conversa dele com Elias e Moisés, era resultado de um amor imenso pela humanidade, porquanto Deus escolhera seu único Filho, em quem tinha seu prazer, para ser sacrificado em favor da humanidade. Final-mente, o significado de uma ordem divina, direta aos discípulos de Cristo, para que dêem ouvidos ao Filho de Deus. De nada adiantaria Jesus ter vindo ao mundo, ter entregado a sua vida em sacrifício pela humanidade, ter ressuscitado gloriosamente, ter voltado ao céu, se ninguém desse ouvidos às suas palavras. A salvação só se realiza na vida daquelas pessoas que dão ouvidos às palavras de Cristo (Jo 5.24). Ninguém pode ser verdadeiramente discípulo de Cristo se não lhe der ouvidos (Jo 8.31). A fé em Cristo só acontece na vida do homem quando este dá ouvidos e crê na palavra de Cristo. Uma crença sábia porém humilde, que leve o discípulo a obedecer às ordens do seu Mestre, como aconteceu logo depois, ao descerem do monte, quando o Senhor lhes ordenou que não contassem nada a ninguém e eles obedeceram (Mt 17.9; Mr 9.10); que leve o discípulo a perguntar ao seu Mestre a respeito de coisas que parecem impossíveis aos homens (Mt 17.10-13; Mr 9.11-13) ao invés de ficar conjeturando através de filosofias humanas inúteis que não conseguem, de fato, decifrar as coisas espirituais.

CONCLUSÃO

Diante do registro histórico do episódio da transfiguração de Jesus só nos cabe reconhecer ou confirmar em nossos corações que Jesus é o Filho de Deus, nos alegrarmos pela salvação que nos destina à cidade celestial e nos humilharmos acei-tando as palavras de Cristo como sendo ordenanças e ensinamentos suficientes para uma vida feliz e de comunhão com o Pai.

Pr Dinelcir de Souza Lima
Pastor da Igreja Batista Memorial de Bangu
Diretor do Seminário Teológico Batista do Oeste Carioca