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quarta-feira, 22 de julho de 2026

A técnica de ler uma passagem bíblica 50 vezes: Depurando os tesouros da Escritura (Preparação para pregar ou ensinar)

 


Ler a Passagem Bíblica 50 vezes

Preparação para Pregar ou Ensinar

 

 Robson Costa¹

 

“Goteje a minha doutrina como a chuva, destile o meu dito como o orvalho, como chuvisco sobre a erva e como gotas de água sobre a relva. Porque apregoarei o nome do Senhor; dai grandeza a nosso Deus. Ele é a Rocha cuja obra é perfeita, porque todos os seus caminhos juízo são; Deus é a verdade, e não há nele injustiça; justo e reto é”.

Dt. 32:2-4

 

Ler a mesma passagem bíblica cinquenta (50) vezes é uma disciplina clássica e transformadora (não é um número obrigatório total, mínimo, máximo ou mágico; é apenas um referencial). Isso satura sua mente com as Escrituras e permite que o texto fale primeiro ao seu próprio coração antes de ser transmitido. Ore (1) antes pedindo que o Espírito Santo ilumine o significado da mensagem, (2) durante suas leituras/estudos e (3) depois que terminar.

 

Nota: Antes de focar especificamente no texto escolhido faça a Leitura Zero.

 

 

Leitura Zero (Leituras de Panorama/Ambientação): Leia ao menos duas ou três vezes todo o capítulo anterior ao texto escolhido, o capítulo seguinte (se houver) e também o capítulo inteiro do próprio texto escolhido, caso tenha escolhido somente alguns versículos.

 

 

Agora, vamos ao seu texto escolhido!

Para otimizar e ajudar nessa prática, siga este ciclo sugerido de leituras abaixo:

 

 

·  Leituras 1 a 10 (Visão Geral):

Leia em voz alta para ouvir a sonoridade do texto. O objetivo aqui é apenas assimilar a narrativa ou o argumento, sem se preocupar em tirar conclusões precipitadas. Deixe o texto falar por si. Será muito bom também ler de uma vez só (além das 10 básicas) em diferentes traduções para captar o sentido geral e o fluxo da narrativa

 

 

·  Leituras 11 a 20 (Observação):

Leia fazendo perguntas investigativas: Quem? O quê? Quando? Onde? Como? Por quê?

Observe as transições, conjunções (mas, portanto, contudo, porém, logo, por isso, também, embora, etc.), comparações e repetições de palavras. Tente dividir o texto em blocos lógicos (início, meio e fim) para entender como o autor desenvolve o pensamento.

Analise o significado dos termos originais e as referências cruzadas. Este é o momento de consultar dicionários bíblicos e de Português, concordâncias/chaves bíblicas ou comentários para esclarecer termos difíceis.

 

·  Leituras 21 a 30 (Contexto):

Preste atenção aos versículos anteriores e posteriores para entender o objetivo real do autor.

Comece a observar os detalhes e a estrutura lógica. Identifique quem está falando, para quem, onde se passa a cena e qual é o problema ou a instrução central. Comece a traçar um esboço natural da passagem.

Conecte o trecho com o restante do capítulo e do livro. Ler o que vem antes e depois impede que você tire versículos do contexto. Use comentários e ferramentas de estudo para checar o contexto histórico e cultural.

 

 

·  Leituras 31 a 40 (Meditação):

Leia em voz alta, pausadamente. Deixe o Espírito Santo iluminar o texto e confrontar sua própria vida.

Permita que o texto fale ao seu próprio coração antes de pregar aos outros. Pergunte-se: O que Deus quer mudar em mim com essa passagem? A mensagem precisa transformar o pregador antes de impactar a igreja.

Antes de pregar para os outros, a mensagem deve transformar você. Pergunte-se: O que Deus está me ensinando com isso? Como isso confronta ou encoraja a minha própria vida hoje?

 

 

·  Leituras 41 a 50 (Formulação):

Busque identificar a "grande ideia" e estruturar os pontos principais da sua mensagem.

Agora que o texto está enraizado em você, leia focado em como transmiti-lo de forma clara, simples e impactante para a congregação.

Leia com foco no que o texto exige de você e dos ouvintes. Ore pedindo que o Espírito Santo ilumine o significado da mensagem.

 

 

Indo além (I)

 

Seja aluno assíduo, pontual e dedicado na EBD de sua igreja. Valorize os cultos de ensinamentos, estudos ou palestras. Compare suas ideias com as de outros sermões (em estudos, esboços, etc.) usando a mesma passagem somente depois de fazer todo este preparo pessoal. Busque livros, comentários bíblicos, de editoras e autores confiáveis. Prefira textos para ler e que possuam fontes. Evite usar coisas prontas como ponto de partida/modelo/base.

 

 

Lendas, ilustrações, boatos, “historinha de crentes”, “dizem ser assim”, “ouve-se muito”, “muitos dizem”, “todos dizem”, “a maioria ensina assim” e outros

 

O Espírito Santo: (1) nunca necessitou, (2) não necessita e (3) continuará não necessitando da maior parte de nossas ajudas “cheias de boas intenções”. Convencer os corações é papel somente dele!

Zele a todo custo pela total honestidade intelectual, doutrinária, de realizações/atos de pessoas, grupos ou entidades (sempre dar os créditos devidos), de fatos em geral (ciências, cultura, sociedade, governos, etc.). Não aceite créditos/aplausos por aquilo que não fez!

 

Nunca tente nem deseje empurrar uma ideia sua (ou de superiores) para os ouvintes. Caso seja realmente necessário citar algumas desconfianças, achismos, preferências pessoais suas ou de terceiros, destaque isto muito bem e não aproveite o “flutuar das ideias” nas mentes para costurar conclusões corrompidas, falsas, inconsistentes ou até mesmo levianas.

Cuidado com aquilo que parece fato: Altas possibilidades/probabilidades, maiores índices de aceitação (ou vendas), número de público, gosto pessoal, tradição cultural, regional, histórica ou ministerial, não transforma algo narrado em fato concreto por mais agradável que seja!

Você é mensageiro das Escrituras Sagradas, não um vendedor ou negociante oportunista. Seja humilde, inclusive, para confessar publicamente seus equívocos passados de ensinos, pensamentos, raciocínios, etc.

Nunca (nunca!) ouse citar como sendo verdade aquilo que você não sabe a origem, ainda que tenha sido seu pastor ou mestre preferido quem te passou a história suspeita. Não confie nos pressupostos “alguém deve ter conferido”, “ninguém passaria isso adiante sem confirmar”, “fulano é entendido/estudado; ele só passaria coisas legítimas”, “ele é de confiança”.

Se você não tem como conferir os fatos (Onde aconteceu? Quando?), você se tornará um fofoqueiro, boateiro ou até semeador de mentiras, aflições, desesperos ou pânico!

 

 

Indo além (II)

 

1) Faça uma gravação em áudio de sua apresentação (palestra, mensagem, pregação ou aula) completa (prévia) para poder ouvir a si mesmo, observando:²

 

- Palavras que só dá para escutar a metade ou nada.

- Manias (chiados na fala, excesso de destaque ao falar os “s”, etc.).

- Repetições vazias: “é, né”, “tá?”, “glória a Deus, aleluia Jesus”.

- Nervosismos, entre outros.

- Seja natural, mas não seja enfadonho: voz arrastada, muito corrida ou afobada, dando berros, fazendo sussurros, falando alto ou com o microfone colado na boca. Faça o máximo para não imitar trejeitos (“clonar”) ou mensagens de outros.

 

2) Seja aberto para ouvir pessoas dando opiniões (pitacos, dicas, alertas)

 

Você não é obrigado a obedecer cegamente qualquer coisa que te digam, mas anote a dica delas para avaliar calmamente, mesmo se forem críticas duras*. Seja cortês, equilibrado e humilde ao ouvir. Agradeça, independente do que ela tenha dito!

 

* Busque conselhos com um ministro mais experiente e idôneo.

 

3) Cuidado dobrado com áudios, vídeos e animações (mesmo se não houver toques de IA)!

 

Evite mensagens corridas, curtas, cheias de efeitos, lendas, “causos”, piadinhas ou firulas (vozes empostadas, luzes, berros, caretas, pregadores parecendo dançarinos) e/ou “maceteadas” (“impactantes”, com mais foco no pregador, suas andanças e em sua exibição do que no Evangelho de Jesus Cristo), com títulos apelativos, conquistas financeiras, especialmente do Facebook, Instagram, Youtube, Whatsapp, etc.

 

4) Após tudo isto será muito bom uma sequência extra de leituras seguidas do texto em voz alta sem pausas (10, 20 ou 30 leituras, por exemplo).

 

5) Guarde seu esboço escrito, as anotações relacionadas e alguns dos áudios (último e penúltimo) para futuros aprimoramentos e comparações de suas evoluções. Acrescente data, horário, locais e circunstâncias. Em alguns casos extremos poderão servir como provas documentais/proféticas!

 


“Tu, porém, tens observado a minha doutrina, procedimento, intenção, fé, longanimidade, amor, perseverança”.

II Tm 3:10

 

“Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido”.

II Tm 3:14

 

“Tu, porém, sê sóbrio em tudo, sofre as aflições, faze a obra de um evangelista, cumpre o teu ministério”.

II Tm 4:5

 

Se desejar, baixe este artigo em PDF pelo Google Drive, CLICANDO AQUI.

________________________________________


¹ Por Robson Costa, (robsontj.projetos@gmail.com) em 20/07/2026 (pesquisa, edição, correções e revisões).

² Nem sempre conseguimos perceber certos detalhes ou falhas quando falamos (quando lembramos de corrigir, nem sempre a correção funciona) e por vezes não teremos oportunidades de tentar corrigir. Quando fazemos gravações temos muito mais chances de correções (regravações). Quando escutamos as gravações estamos fazendo profundas revisões, descobertas e aperfeiçoamentos!

 

terça-feira, 26 de maio de 2026

7 motivos para você trabalhar na Igreja

 


7 motivos para você trabalhar na Igreja

Ageu Magalhães

https://resistenciaprotestante.com.br/


Quando chega o final do ano é comum as igrejas tratarem das eleições e nomeações daqueles que vão trabalhar no ano seguinte. Se o seu nome for eleito ou nomeado para algum cargo, antes de recusar, leia o texto abaixo:

1. Por obediência a Deus. A Bíblia diz que nós somos servos de Deus, assim, devemos trabalhar para ele com alegria. A Palavra diz também que devemos ser generosos no trabalho, sabendo que, no Senhor, o nosso trabalho nunca é em vão (1Co 15.58).

2. Para descobrir quais são seus dons e talentos. A Bíblia mostra que Deus concede dons e talentos ao seu povo, para edificação e desenvolvimento de sua Igreja (Ef 4.7,8).

3. Para ser alvo e canal de bênção na vida das pessoas. Trabalhando para o Senhor, você se torna alvo de suas bênçãos. Deus te dá mais conhecimento, mais consagração, mais responsabilidade e torna você um canal de bênção na vida dos outros. Deus usa você como ferramenta para a edificação dos seus irmãos (Ef 4.12).

4. Para obter novos conhecimentos. Trabalhando na Igreja você tem a oportunidade de aprender coisas novas, desenvolver-se pessoalmente e aperfeiçoar-se na vida cristã (Ef 4.13).

5. Para amadurecer na fé. Aqueles que se envolvem nos trabalhos da igreja experimentam amadurecimento na vida cristã. Muitos dos que são críticos, quando começam a trabalhar, percebem que alguns problemas não são tão fáceis de se resolver, pois pessoas são complexas e pecadoras (Ef 4.14).

6. Para colaborar com o desenvolvimento da Igreja. Trabalhando na igreja você coopera com o crescimento dela. O desenvolvimento de uma igreja não depende do pastor, mas de todo o corpo (Ef 4.15,16).

7. Para fazer parte da história das pessoas. Trabalhando na igreja você acaba fazendo parte da história de vida das pessoas. Seja pelo fato de você as ter ensinado algo que mudará suas vidas ou pelo fato de as ter ajudado. Eu me lembro ainda hoje, com muito carinho e gratidão, das professoras de Escola Dominical na minha infância. Elas foram usadas por Deus em minha vida (Fp 1.3-5).

Por isso, não recuse convites para trabalhar na obra do Senhor. Quando você é eleito ou nomeado para uma função, os instrumentos são humanos, mas o chamado é do próprio Deus.


quarta-feira, 18 de março de 2026

Uma seleção de recursos missionários (de terceiros) para download gratuito

 


Ao longo do tempo, nós aqui de Veredas meio que nos especializamos em editar recursos (livros, revistas, cartazes etc.) gratuitos para mobilização missionária. Confira em nossa Biblioteca de Missões

Mas, e até antes disso, sempre buscamos e divulgamos materiais de terceiros dentro do gênero - materiais GRATUITOS.

Aproveitamos então e aqui listamos uma série de materiais, de maior ou menor amplitude, elaborados por terceiros, por eles disponibilizados GRATUITAMENTE, e que podem ser úteis a pastores, missionários, mobilizadores e cristãos que honram este nome.


Manual do Promotor Missionário da APMT - CLIQUE AQUI.


Manual do Promotor de Missões da JMM - CLIQUE AQUI.


Apostila do Curso Promotor de Missões - JMN - CLIQUE AQUI.


Manual de Mobilização Missionária Go Mobilize - CLIQUE AQUI.


Mobilizadores em Ação: Um chamado para transformar vidas - Maurício Bastos (46 págs.) - CLIQUE AQUI.


Ideias Criativas para Envolver sua Igreja com Missões - JMN (11 págs.) - CLIQUE AQUI.


Apostila Crianças em Missões - Ensinando e envolvendo crianças em missões - Projeto Missões Kids  (19 págs.) - CLIQUE AQUI.


Conselho Missionário: O que é e como organizar - Pr. Carlos Alberto Souza da Costa et al (27 págs.) - CLIQUE AQUI.


Missões Sem Fronteiras: Como iniciar um Departamento Missionário em sua Igreja - Wal Cordeiro (39 págs.). CLIQUE AQUI.


Check List para construir Missões na Igreja Local - Paul Brannan (23 págs.) - CLIQUE AQUI.


Trilhas da Mobilização Missionária - Infográfico em forma de e-book da Missão Base. CLIQUE AQUI para cadastrar-se e solicitar o seu.


A importância da prevenção e do autocuidado missionário - Sandro Pereira - SIM Brasil/AMTB (11 págs.) - CLIQUE AQUI.


REVISTA VAMOS (EM ESPANHOL) - Mais de 100 edições gratuitas sobre diversos temas missionáriosSociedad Internacional Misionera. - ACESSE O SITE DELES AQUI.


Como comunicar Missões à Igreja - Rebeca Quirino (14 págs.) - CLIQUE AQUI.


Como criar um informativo missionário que gere resultados - Projeto Like Jesus (13 págs.) - CLIQUE AQUI.


Guia prático de marketing digital para ONGs - Fundação Cargill (16 págs.) - CLIQUE AQUI.


Guia de redes (sociais) para Igrejas e Organizações - RTM/Ultimato (36 págs.) - CLIQUE AQUI.


Guia de Captação de Recursos - TEARFUND (80 págs.) - CLIQUE AQUI.


Guias Fundamentos da Mobilização OMF International. São quatro guias em PDF oferecidos pela OMF: Mobilização como VocaçãoMobilização e a História da IgrejaEnfoque da Mobilização; e Princípios e Práticas da Mobilização. Solicite os links para download preenchendo um formulário no site da missão, CLICANDO AQUI.


Impacto na Eternidade - Um pequeno "curso" de Missões ou da visão de Deus para as nações - Gina Fadely (82 págs.) - CLIQUE AQUI.


Mapa para ser Misionero (EM ESPANHOL) - 25 temas que te ayudaran a iniciar, avanzar o concretar tu llamado misionero - Centro Misionero (77 págs.) - CLIQUE AQUI.


Revista MIAF - Comunicação segura com missionários (2 págs.) - CLIQUE AQUI.


Terminologias Missionárias - AMTB (4 págs.) - CLIQUE AQUI.


Guia de Evangelismo Pessoal com respostas às objeções mais comuns - Sola Scritptura (16 págs.) - CLIQUE AQUI.


Apostila/livro Missiologia - UNIASELVI - CLIQUE AQUI.


Apito Inicial - A igreja no contexto esportivo (na prática, um manual para evangelização em eventos esportivos) - José Bernardo/AMME Evangelizar - CLIQUE AQUI.


Como organizar um Culto de Missões - Prs. Fernando e Jane Camargo / Igreja Quadrangular (99 e 138 págs., respectivamente) - Antiga apostila, em DOIS volumes - CLIQUE AQUI para o volume 1 e CLIQUE AQUI para o volume 2.


ENGAGE - Lições sobre Missões para ensinar e mobilizar pequenos grupos - Série de lições/apostilas elaboradas pela MIAF. Para acessar e baixar, CLIQUE AQUI.


Mudança para uma nova cultura: Um guia prático na decisão - Obra de Valeska Petrelli (Ministério CMM) e colaboradores, apresentando dicas e insights preciosos para quem deseja se mudar para uma outra cultura. Para baixar, CLIQUE AQUI.


Não deixe também de conferir nossa pasta com diversas revistas das campanhas missionárias anuais dos batistas (Junta de Missões Nacionais e Junta de Missões Mundiais). Todas apresentam informações, dicas e recursos úteis para mobilizadores missionários. - CLIQUE AQUI.


Você criou, possui ou conhece algum outro material que seja GRATUITO, e mereça estar nesta lista? Nos envie o link ou informações. Escreva para nosso e-mail: sreachers@gmail.com

AH, e se você possui conhecimentos abalizados e gostaria de criar algum material GRATUITO para auxiliar missionários e/ou na promoção missionária, mas não tem conhecimentos de editoração, podemos lhe ajudar nisto, sem custo algum, e ainda colaborar na divulgação do material. Entre em contato conosco.


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Feridos e Esquecidos nas Trincheiras - A Igreja e os desviados

 


Por: Luiz Montanini

Publicado originalmente em Revista Impacto

A igreja talvez seja hoje o único exército do mundo cujos soldados não voltam para buscar seus feridos no campo de batalha. Ao contrário, substitui-os rapidamente no batalhão e segue em frente, esquecendo-se que muitos soldados de valor ficaram à beira da morte pelas trincheiras.

Caso o último censo do IBGE tivesse incluído questão sobre o número de “desviados” no Brasil, o resultado seria assustador.

Calcula-se que hoje existam no país entre 30 e 40 milhões de “desviados”. Por “desviados”, entenda pessoas que um dia tiveram seus nomes no rol de membros de algum grupo cristão, mas que hoje estão à margem da vida da igreja.

Estas pessoas — cuja boa parte povoa hospícios e presídios ou, saco às costas, vaga errante à beira de estradas — um dia confessaram alegremente a Jesus Cristo como seu Salvador e Senhor e, no outro, se viram literalmente jogados na sarjeta espiritual.

Nesse contingente de desviados, há casos para todo tipo de pessoas. Do endurecido ao desprezado, do chafurdado na lama pelo engano do pecado ao desesperado para sair dele, mas sem ninguém para estender a mão.

É desta classe de pessoas que trata esta edição. De pessoas desesperadas por uma nova chance, mas sem ter a quem recorrer porque, sabem, o único lugar onde encontrariam novamente a paz para suas almas é a igreja; porém ali, pensam, as pessoas são santas demais (ou se consideram santas demais) para admitir o retorno de um filho pródigo como ele.

Afinal, com ou sem motivo, um dia foram expulsos sumariamente. Seja porque inadvertidamente cortaram os longos cabelos ou caíram em erros considerados “sem volta” por sua igreja, como o adultério. Foram disciplinados, escrachados, alijados da comunhão e, não raro, se excluíram ou foram excluídos. Como Satanás, foram expulsos do paraíso. Como Caim, receberam uma mancha na testa e foram condenados a andar errantes pelo mundo pelo resto de suas vidas miseráveis. O problema é que, em seus casos específicos, não foi Deus o autor do juízo sumário.

Com tamanha carga sobre as costas, voltar é passo difícil – em algumas situações, impossível.

“A própria igreja discrimina os desviados”, constata Sinfrônio Jardim Neto, líder do ministério Jesus Não Desistiu de Você, de Belo Horizonte, dedicado à restauração da vida dos desviados.

“A igreja vê o desviado como se fosse Judas Iscariotes, que traiu a Deus e a igreja. E o trata como se fosse lixo que precisa ser retirado daquele ambiente. Mal sabe que o desviado é como o ouro de Deus que se perdeu na lama podre. Está perdido na lama, mas ainda é ouro e precisa de gente interessada, garimpeiros que estendam a mão e vasculhem até encontrá-lo”.

Uma igreja de 200 membros perde outros 400 em 10 anos

Na próxima vez em que for a um culto, pare um instante e olhe à sua direita e esquerda. Agora, saiba que daqui a dez anos é possível que a senhora, o jovem sorridente e o austero senhor que estão em cadeiras ou bancos, próximos a você cantando louvores, estejam completamente afastados da igreja, amargurados com Deus e entristecidos por algum motivo.

De acordo com estatística do pastor mineiro Sinfrônio Jardim Neto, uma igreja de 10 anos de funcionamento, que tenha mantido média de 200 membros, viu passar por seu rol, ao longo dessa década, o dobro desse número. Uma evasão como essa explica a conta fictícia do parágrafo anterior.

Segundo as contas que têm feito ao longo de suas inúmeras campanhas em igrejas brasileiras desde 1994, quando começou a trabalhar com desviados, 400 pessoas que passaram por uma igreja que tem média de 200 membros estão desviadas hoje.

Em português claro e chocante: a igreja permanece com sua média de 200 membros, substituindo-os naturalmente. Mas essa rotatividade originada na dificuldade de “fechar a porta dos fundos” resulta, ao final de 10 anos, em perda de 200% no número de pessoas.

Esses números, destaca Sinfrônio Jardim, são relativos apenas a desviados. Aqui não estão incluídos outros itens, como mudança de membro para outra igreja.

Expulso da igreja porque não usava chapéu

As causas para o chamado desvio de pessoas na igreja são variadas, explica Sinfrônio Jardim Neto. Desde o abandono da fé, em razão da volta voluntária ao pecado, até a exclusão pela liderança da igreja em decorrência de coisas pequenas, mas consideradas pecados por eles.

Em suas viagens, Sinfrônio Jardim diz que encontra situações de exclusão que seriam hilárias, se não fossem tão perniciosas às vidas das vítimas. Pessoas que foram excluídas por causa do legalismo exacerbado de igrejas, cujos líderes zelosamente disciplinaram com exagero pequenas contravenções. Na ânsia de limpar o pecado, jogaram fora o “pecador” junto com a água suja.

“Vejo gente sofrendo, afastada da igreja por causa de coisas pequenas, como ter cortado o cabelo, ter deixado a barba e até, pasme, por ter sido visto andando de bicicleta. Uma vez, em Campos, no Rio, conheci um homem que foi  expulso da igreja porque não usava chapéu, como ordenava o estatuto da igreja.”

Falsas Profecias, Propaganda Enganosa e Decepção com Deus

Outra causa para a apartheid espiritual de muitos é a decepção com lideranças. O membro procura alguém para confessar uma fraqueza ou pecado e, em vez de perdão e ajuda para vencer o mal, recebe maior condenação.

As profecias falsas são também causa importante de desvio da fé. Inúmeras pessoas naufragam depois de receber profecias falsas. A pessoa tem o filho doente, por exemplo, e recebe uma “palavra de Deus” de cura. Pouco tempo depois, a criança morre. Ela fica desesperada. Ou então ouve que deve se casar com alguém porque é vontade de Deus. Obediente, casa-se e algum tempo depois percebe que a voz ouvida não era da parte de Deus. Em vez de se decepcionar com o homem, decepciona-se com Deus e sai da comunhão, explica o pastor Sinfrônio Jardim.

E há, claro, o grande número de pessoas que se aproximam de Deus seduzidas por propaganda enganosa. Chegam porque alguém lhes prometeu prosperidade aqui e agora, mas não percebem as implicações do discipulado a Cristo. Querem as bênçãos do cristianismo, mas nada de porta estreita e caminho apertado. Querem sair do mundo, mas levar o pecado a reboque. “Querem a salvação, mas não querem largar o pecado”, resume Sinfrônio Jardim.

Por último, a decepção contra o próprio Deus é causa de afastamento de muitos. A pessoa é uma crente fiel e, de repente, alguém a quem ela ama morre, por exemplo. Nesse caso, se não tiver alicerces firmes em Deus, ela culpa a Deus pelo infortúnio. Age como se Deus tivesse sido ingrato com ela, sempre tão fiel e, portanto, a seus olhos, merecedora de recompensa.

Poucas visitas ao desviado – que resultam em ainda maior condenação

Depois que experimentam a expulsão do paraíso, poucos conseguem encontrar lugar de arrependimento. Pior é que se forem depender de boa parte da igreja para isso, já terão na mão o passaporte para o inferno.

Na pesquisa de Sinfrônio Jardim Neto, entre 60% e 70% dos desviados não recebem qualquer visita de líderes ou membros após sair da igreja. São simplesmente descartados ou substituídos por outros membros.

O restante dos desviados (entre 30% e 40%) recebe de uma a três visitas, que se revelam infrutíferas, porque na maioria das vezes a visita é de cobrança ou condenação. Em vez de amar o pecador e odiar o pecado, os visitantes lançam ambos na cova profunda do inferno. Jogam pedra, condenam. Decretam o inferno-já para o pecador. “É como bater de vara sobre a ferida de alguém… o ferimento e a dor só vão aumentar”, compara Sinfrônio Jardim.

Hospícios e presídios estão lotados de ex-crentes

Ainda segundo a pesquisa de Sinfrônio Jardim, existem três lugares onde sempre se pode encontrar desviados: nos hospícios, nos presídios e na mendicância.

“Vá a um hospício e ali você encontrará muita gente internada que recita versos bíblicos e canta canções cristãs. Estas pessoas um dia se afastaram, caíram em pecado e os demônios tomaram conta de sua vida. Ficaram endemoninhadas.

“Depois, visite um presídio e você encontrará inúmeros Josués, Elias e Samuéis. Detentos de nomes bíblicos, que demonstram o berço cristão. Ali você começa a conversar com um deles e descobre que é filho de presbítero de igreja.

“Por último, passe próximo a rodoviárias e estações de trem ou tente conversar com um andarilho de beira de estrada. Pelo menos três entre dez destas pessoas que andam bebendo errantes, sacos de bugigangas às costas, já participaram de uma igreja cristã. Ali, não raro, você encontra homens que um dia ocuparam solenes púlpitos e pregaram o evangelho.”

E por que não voltam? Sinfrônio Jardim entende que a falta de perdão a si mesmo, a falta de perdão por parte da igreja e o entendimento errado de que Deus também não pode perdoar o que praticaram, afastam-nas cada vez mais do ponto de retorno.

“Mais da metade dos que se desviaram tem problemas sérios com o ressentimento e falta de perdão. Não voltam porque não conseguem perdoar, ou não querem perdoar ou acham que não merecem perdão.”

O peso que está sobre a pessoa fica insuportável às vezes, explica Sinfrônio Jardim. Há denominações, por exemplo, que pregam que quem pratica adultério jamais será perdoado. Ora, com um decreto como esse na cabeça, o pecador desiste de qualquer tentativa de reconciliação com o Deus irado que lhe foi pintado e se transforma em um monstro na terra. Passa a praticar os mais baixos pecados, porque, pensa, se já está condenado ao inferno por toda a eternidade, resta aproveitar seus dias na terra.

Poucos saem em busca da ovelha extraviada

Hoje a maioria das igrejas não possui qualquer trabalho específico para trazer suas ovelhas desviadas de volta ao aprisco. Ninguém pensa em deixar suas 99 ovelhas e sair atrás da centésima, extraviada.

Sinfrônio Jardim também tem explicação para esse fenômeno. Afirma que na visão expansionista de muitas igrejas hoje, é pouco lucrativo deixar 99 ovelhas e sair por lugares ermos atrás de uma ovelhinha extraviada, que nem sabe se está viva ou que talvez esteja tão ferida que não tem chance de sobreviver.

Muitos acham que não vale a pena tamanho esforço, que vão perder tempo. E, para aliviar suas consciências, usam o argumento de que a pessoa já conhece a palavra.

Outros chegam a usar versos bíblicos para justificar o esquecimento. “Saíram de nós porque não eram dos nossos…” é um dos mais recitados.

A falta de visão de restauração descrita por toda a Bíblia é ignorada nesses casos. “Buscar ovelhas perdidas é visão antipática em muitas igrejas”, lembra Sinfrônio Jardim. “Isto porque quando o membro sai, geralmente sai falando mal da igreja ou do pastor. Acaba ficando malvisto dentro da própria igreja que, em vez de amá-lo e perdoá-lo, passa a tratá-lo como ovelha negra. Desta forma, quando alguém se dispõe a ir atrás dessa ovelha perdida, torna-se também impopular e corre o risco de ser também malvisto. E poucos estão dispostos a isto.”

Igreja Batista da Lagoinha foi buscar 3 mil desviados

O retorno com sucesso dos desviados à igreja depende basicamente da atitude da igreja. “A porcentagem de desviados que retorna à igreja não passa de 10% no Brasil, mas se a igreja toma uma atitude de ir buscá-los, consegue até 80% de sucesso”, afirma o pastor Sinfrônio Jardim.

Bons exemplos não faltam: a Igreja Batista da Lagoinha, de Belo Horizonte, já reagrupou 3 mil pessoas ao seu rebanho de 30 mil pessoas em pouco mais de dois anos. Ali, o pastor César Teodoro dirige o ministério “A centésima ovelha”, junto com o líder principal da igreja, Márcio Valadão.

A igreja Assembléia de Deus em Brasília, dirigida pelo pastor Elienai Cabral, também tem obtido sucesso no resgate aos seus desviados. Outra Assembléia de Deus, dirigida por Daniel Malafaia, em Campo Grande (MS), alcançou sucesso semelhante.

“Fomos amados. Apenas amados. E isto fez toda a diferença”

O casal Valmir Soares e Alina é exemplo perfeito de filhos pródigos restaurados. Conheceu a Deus, resolveu seguir seus próprios caminhos, reconheceu o estado em que estava, conseguiu forças para voltar, foi recebido com festa e experimentou a restauração em suas vidas, nessa ordem.

A primeira experiência de Valmir e Alina com Cristo aconteceu em 1987. Por um ano e meio, eles se relacionaram com Deus e com a igreja local que freqüentavam, em Campinas, SP. “O problema é que não abri totalmente o coração naquela época. O resultado é que ao longo do tempo fui esfriando, as coisas foram ficando difíceis e, no fim, tomei duas decisões erradas que acabaram me afastando da comunhão.”

“Aí não tem jeito, você entra mesmo no pecado e fica até pior. Comecei a praticar coisas horríveis e a mentir para minha esposa. Quando pensava em voltar, havia sempre a voz acusadora do diabo, dizendo que eu era indigno, que ninguém iria me receber, enfim, que não tinha mais volta. Eu me lembrava dos irmãos, da alegria e do amor que desfrutávamos, mas o pecado me impedia de voltar.”

“Outra coisa que me impedia de voltar era a presunção”, lembra Valmir. “Dizia para mim mesmo, tenho o Senhor na Bíblia… não preciso voltar. Eu não tinha o entendimento de que é o corpo que nos sustenta.”

“Mas aí Deus usou a vida do próprio casal que nos falara inicialmente de Jesus, os irmãos Hélcio La Scala Teixeira e Isabel, hoje pastores em São José dos Campos, SP.”

Valmir relembra: “Um dia, depois de uma conversa franca com eles e de novo convite, eu e minha esposa resolvemos visitar a igreja novamente. Enchemo-nos de coragem e fomos. Era um domingo de setembro, em 1992. Fomos recebidos literalmente como filhos pródigos. A maioria dos irmãos nos abraçou, orou conosco e, pela graça de Deus, fomos tocados novamente. Fiquei mais de uma hora chorando num canto, arrependido.”

Hoje o casal está restaurado e integrado na vida normal da igreja.

“O melhor de tudo”, diz Valmir, “é que em tempo algum recebemos o menor olhar de acusação dos irmãos. Nem mesmo por parte daqueles que tinham nos aconselhado anteriormente e a quem não tínhamos dado ouvidos. Ninguém disse: ‘Eu te avisei’. Fomos amados. Apenas amados. E isto fez toda a diferença.”

Luiz Montanini é jornalista, mora em Valinhos, SP, e é responsável pelo site cristão www.jornalhoje.com.br

Livros de Sinfrônio Jardim Neto que tratam do assunto desviados:

• Jesus Não Desistiu de Você 1 e 2
• Voltei – E Agora?
• Onde Está o Seu Irmão?
(Editora Betânia)

• A Reconquista
(Editora Vida)

Para entrar em contato com o Ministério Jesus não Desistiu de Você:
Tel: (31) 3452 1840
e-mail: daria@prover.com.br
www.jesusnaodesistiudevoce.com.br

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UM DESVIO MONSTRUOSO

• Estima-se que haja hoje, apenas no Brasil, entre 30 milhões e 40 milhões de pessoas que um dia freqüentaram alguma igreja evangélica.

• Uma igreja de 10 anos que manteve média de 200 membros viu passar por seu rol o dobro desse número. Isto é, 400 pessoas que passaram por essa igreja estão desviadas hoje.

• A porcentagem de desviados que retorna à igreja não passa de 10% no Brasil.

• Entre 60% e 70% dos desviados não receberam qualquer visita de líderes ou membros quando decidiram sair da igreja.

• Entre 40% e 30% receberam de uma a três visitas, que se revelaram na maioria das vezes de cobrança ou condenação.

• Hospícios e presídios são os lugares de destino de boa parte dos desviados.

• De cada 10 andarilhos, 3 freqüentaram uma igreja evangélica um dia.

• A maioria dos desviados (acima de 50%) é afetada pelo ressentimento com sua liderança.

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Estatística dos Desviados

O número estimado de 30 milhões a 40 milhões de desviados no Brasil não é corroborado pela Sepal — Serviço de Evangelização Para América Latina. Missão internacional estabelecida no Brasil há mais de 30 anos, a Sepal tem um departamento especialmente voltado a pesquisas relacionadas ao meio cristão no Brasil e na América Latina.

A secretária do departamento de pesquisas da Sepal, Mércia Carvalhaes, explica que hoje no Brasil nenhuma instituição possui números oficiais sequer sobre a quantidade de cristãos no Brasil e muito menos sobre o número de desviados.

“Concordamos que há muitos desviados no Brasil, mas é impossível dimensionar a quantidade”, afirma Mércia Carvalhaes. “Seria necessário fazer pesquisa específica sobre isso. E não conhecemos ainda nem os números dos evangélicos. Queremos saber primeiro onde estão as igrejas e as pessoas que realmente as freqüentam, para então levantar outros dados, como o de desviados, por exemplo.” O movimento Brasil 2010, também da Sepal (www.brasil2010.org), está tentando localizar as igrejas evangélicas no Brasil.

“Ora, se não sabemos quantos somos, como saberíamos o número de desviados?”, pergunta Mércia Carvalhaes. “O que sabemos apenas é que os evangélicos no Brasil constituem 17% da população.” O fato é que 17% da população brasileira correspondem a cerca de 30 milhões de crentes e que desse universo, muitos se desviaram.

A pesquisadora da Sepal informa que nem mesmo a pesquisa do IBGE é confiável, porque os recenseadores da pesquisa em 2000 não foram treinados para ver as diferenças de religião. Ainda assim, ressalva, os dados do IBGE são os únicos disponíveis.


domingo, 18 de janeiro de 2026

Modelo de Agenda Missionária (Planner) para download

 



Veredas Missionárias traz, pela graça de Deus, um novo recurso gratuito para você: Um planner missionário. Ferramenta cada vez mais presente no dia a dia das pessoas, do executivo à dona de casa, um planner permite organizar, segmentar e rememorar atividades, projetos e compromissos de uma forma prática e, por que não, bonita.



Nosso planner possui páginas como Caderno de IntercessãoIntercedendo pelos Missionários (com espaço para inserção de informações, foto etc.), Organização FinanceiraEsboços para Pregações, Metas para propagar o Evangelho e muitas outras, e ainda TRINTA E UMA páginas em estilo agenda/diário, cada uma com um versículo da base bíblica de missões, e também uma frase missionária DIFERENTES. Assim, você tem um mês de páginas, e, se desejar, pode imprimir o quantitativo de um ano inteiro, compondo assim uma verdadeira agenda missionária anual. 

E lembre-se: Você pode imprimir apenas as páginas/seções que lhe forem úteis. O planner apresenta 11 seções diferentes.

Um recurso GRATUITO para você usar e compartilhar.

Baixe o arquivo em PDF do seu planner pelo Google Drive, CLICANDO AQUI.


quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Uma Igreja que casou-se com o Sistema



 Pastor João A. de Souza Filho


Eu tinha apenas sete anos de idade quando minha mãe aceitou a Cristo numa denominação pentecostal. Lá se vão quase cinqüenta anos! A exigência de se viver um padrão cristão e a disciplina rígida a que nos submetemos desde os primeiros dias da Escola Dominical marcaram nossas vidas.

Hoje consigo perceber os resultados no seio da família: Cansada e numa cadeira de rodas, mamãe não consegue dimensionar o rastro de seu testemunho: 1 filho pastor e escritor, uma filha esposa de pastor e pregadora, seis netos no ministério em tempo integral, afora tantos outros filhos, noras, genros, netos e bisnetos comprometidos em suas congregações com o evangelho de Cristo Jesus!

No decorrer dos anos entendi que o mundo olha para a igreja esperando nela ver um diferencial, um estilo de vida que contraste com o estilo de vida da sociedade.

O mundo costumava ver a igreja sob a ótica do respeito, de vida transformada, de gente diferente, de pessoas de bens - de cujo seio saiam empregados submissos, donde empregadas domésticas eram requisitadas, de gente que pagava em dia suas contas - em que o dono do armazém vendia fiado na caderneta sabendo que receberia seu dinheiro.

No dizer de Pedro, sem amoldar-se às paixões da vida mundana que tínhamos antes de receber a Cristo (1 Pe 1.14). No dizer de Paulo, viver sem conformar-se com esse mundo (Rm 12.2) mostrando ao mundo "como se deve proceder na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna e baluarte da verdade" (1 Tm 3.15).

Recordo-me que em 1962 quando a igreja pentecostal foi grandemente perseguida em Porto Alegre pelos meios de comunicação contrários à realização de uma campanha evangelística, um cidadão foi para o rádio defender os crentes. Sua defesa: os crentes eram seus melhores funcionários!

No entanto, no decorrer dos anos a igreja incorporou em seu seio os valores mundanos, a filosofia do mundo, seus modismos, deixando-se levar ao sabor do sistema. Confundiu contextualização com contemporização - não soube trabalhar no contexto da sociedade e acomodou-se à sociedade que ela tanto insiste em mudar.

Ainda hoje o mundo espera ver na igreja o diferencial entre aquilo que frustradamente vive e o que espera encontrar na igreja - e quase não o encontra! Os pastores, antes serviçais, em cujas casas os pobres do bairro encontravam lenitivo e alimento, escassearam!

No lugar desses surgiram pastores sonhadores de riquezas, profetas balaônicos de olho nos presentes de Balaque; ricos, abastados, vivendo em condomínios fechados, alienados da própria membrezia, vivendo na opulência e no fausto. Alguns optaram por uma teologia de prosperidade que contrasta com a simplicidade de se viver o evangelho.

Vivem longe de suas paróquias, enquanto no passado o certo era viver entre os paroquianos, entre as pessoas do mesmo bairro. O pastor outrora tão presente no lar dos fiéis, são vistos de longe, e na imensidão de seus templos parecem figuras minúsculas gesticulando no púlpito, a menos que sejam projetados no telão ou vistos na tela da tevê.

A nova geração de crentes - cujos avós eram tão pobres, mas fiéis - melhorou de vida, subiu socialmente para a classe média e, até mesmo alguns ricos despontaram no cenário evangélico. Membros de igrejas, antes considerados proletariados, prosperaram, e hoje fazem parte da nata industrial e comercial da nação, no entanto, muitos deles se esqueceram dos exigentes padrões bíblicos: tratam seus funcionários da mesma maneira - quando não pior - que os patrões mundanos.

Aliás, alguns empresários que não se confessam cristãos têm ótima reputação dos seus funcionários; por outro lado, alguns crentes sequer querem trabalhar para empregadores evangélicos. Da mesma forma, os empregados evangélicos perderam o respeito e já não se submetem aos patrões como é ensinado no Novo Testamento. Costumam ser piores do que os descrentes.

Para encobrir o que somos, criamos a moda gospel, buscando parecer que o estilo de vida cristã, sua música e mensagem tenham adquirido nova roupagem. Pelo menos existe o charme glamouroso (desculpe-me o pleonasmo) na substituição do termo em português pelo inglês! E a geração gospel vai para a televisão falar de Cristo e do novo nascimento, literalmente sem roupagem alguma!

Mulheres sensuais e seminuas com um palavreado profano - não que queiramos que todos aprendam o evangeliquês - afirmam ser membros dessa ou daquela igreja. Não apenas as mulheres, mas também os homens confundem pelo visual e palavreado a mensagem do evangelho!

Apesar da obscenidade e do mundanismo que repugna o mais vil pecador, seus pastores sorriem e caladamente consentem, afinal o nome de sua igreja e seus nomes podem ser ouvidos pela mídia nacional. Outros, vestindo a roupagem tradicional dos evangélicos, sugam dos pobres o dinheiro e os bens em troca de um compromisso com Deus!

Além destes, surgiram pastores, pregadores e cantores, em todas as denominações, que mesmo sem aquela extravagante aparência, sem as requebradas coreografias e palavreado mundano - mantendo a antiga forma de vestir e o visual tradicional dos crentes - mas que em nada diferem em seu comportamento e moral daqueles que não conhecem a Jesus, nem por ele foram transformados, agregam-se à classe vil protagonizada por Jezabel e Balaão.

Seus cachês são os mais altos e seu comportamento, pior! São pessoas que, mesmo mantendo a postura evangelical, a aparência tradicional, repito, encaixam-se perfeitamente no perfil traçado por Pedro e Judas (2 Pe 2.10-22 e Jd 8-16).

A opção de ser crente, de ser um fiel discípulo de Jesus - às vezes uma decisão difícil sabendo-se que há um preço a ser pago em seguir a Jesus - já não é levado em conta por boa parte dos que se dizem cristãos, por pessoas que dão péssimo testemunho, pois seu comportamento no campo de sua atividade profissional contradiz seu palavreado e suas afirmações de fé. E isso vai do carpinteiro ao artista, da empregada doméstica ao famoso atleta, do estudante ao político.

Algumas igrejas parecem ter perdido o rumo. A quantidade de divórcios entre seus membros é testemunha gritante de como o evangelho diluiu-se no meio de uma sociedade paganizada. A santidade de alguns jovens que se propõem viver castos até o casamento é motivo de chacota no seio da própria congregação.

À essas igrejas, aos seus pastores, cantores, líderes e políticos cristãos, o profeta ergue a voz em protesto!

A mensagem de Amós precisa ecoar novamente na igreja, pois tem uma palavra de alerta aos membros da comunidade da fé. Ele não apenas diria "afasta de mim o estrépito dos teus cânticos; porque não ouvirei as melodias da tua lira" (Am 5.23), acrescentaria:

"Afaste de mim o palavreado das mensagens que você prega, pois fecho os ouvidos quando você sobe no púlpito; cerro os olhos para não ler o que você escreve; detesto quando você menciona o meu nome; sua música é muito linda, sua banda é perfeita, sua voz belíssima, mas o som de sua melodia chega aos meus ouvidos desafinado pelo estilo de vida perverso que você tem; o cheiro que você exala provoca-me náuseas...".

Amós clama pelas ruas:

"Vocês oprimem o pobre e o forçam a dar-lhes trigo" - (Am 4.11), isto é, sugam dos pobres todo o dinheiro que eles têm para satisfazer os desejos pessoais de vocês, para construir suntuosas catedrais e comprar aptos. e terras. "Vocês oprimem o justo, recebem suborno e impedem que se faça justiça ao pobre nos tribunais" (4.12b), isto é, vocês os mantêm sob o jugo da autoridade, ameaçando-os e intimidando-os com a possibilidade de exclusão pública do rol de membros. A opressão da vara do pastor, de todas, é a pior!

Amós clama na igreja:

"Vocês se deitam em camas de marfim e se espreguiçam em seus sofás" (6.4), enquanto os pobres da igreja dão duro e trabalham; enquanto seus obreiros andam em ônibus lotados, à pé, suando para fazer a obra de Deus, vocês como líderes, do alto de sua autoridade, descansam no sofá repassando um a um as centenas de canais de tevê, deleitando-se em viagens, dormindo nos mais caros hotéis e freqüentando os shoppings da moda.

Ele diz aos cantores e grupos que cobram altos cachês para se apresentarem nas igrejas:

Vocês "dedilham suas liras como Davi e improvisam em instrumentos musicais" (Am 6.5), mas não têm o coração de Davi; buscam, isso sim, seu próprio bem-estar e, depois de cantarem e louvarem nos cultos das igrejas ou nos festivais, fecham atrás de si as portas do quarto de hotel e deleitam-se na fartura da melhor comida e das bebidas mais caras, quando não em orgias sexuais!

"Vocês bebem vinho em grandes taças - não apenas vinho mas toda sorte de bebidas caras e finas nas festas de gente ímpia que detesta o nome de Cristo - e se ungem com os mais finos óleos - têm aparência de possuir grande unção e poder, confundem poder e unção com habilidade e profissionalismo; fazem do ministério seu ganha-pão - mas não se entristecem com a ruína de José - isto é, vocês não choram, nem clamam, nem jejuam, nem se importam com a ruína da igreja e do mundo! Pensam apenas em vocês mesmos!" (Am 6.6).

A bússola da verdade deve urgentemente ser consultada para que a igreja ande na rota traçada por Deus! Quando isso acontecer, o mundo voltará a olhar a igreja como uma sociedade séria, diferenciada; como sociedade que tem rumo próprio.

Políticos evangélicos, firmem-se na verdade, pois o mesmo Deus que vocês alegam que servem, haverá de sacudir os fundamentos da estrutura política, como tantas vezes o fez, expondo-lhes à ignomínia. A mídia que vocês tanto amam é laço que lhes prenderá os pés; mordaça que lhes impedirá de falar; espinho que lhes cegará os olhos - essa mesma mídia impedir-lhes-á a caminhada, mas por certo, se vocês tiverem temor de Deus, haverão de se firmar no Senhor, servindo-lhe e apenas a ele de todo o seu coração!

"Ouçam esta palavra, vocês (...) que estão no monte de Samaria - Os políticos. Vocês que estão em posição de autoridade, nas casas do povo - vocês que oprimem os pobres e esmagam os necessitados - cujos altos salários contrastam com o pobre salário mínimo, e com o baixo reajuste salarial dos velhos e velhas aposentados, vocês que dizem - tragam bebidas e vamos beber - isto é, que vivem em festas, no meio da fartura" (Am 4.1). Ganham altos salários para fazer pequenos discursos nas Assembléias e Câmaras do povo. Até quando suportará Deus o hálito das festas e da embriagues?

As eleições estão chegando e teremos que suportá-los novamente bafejando o odor do mundo de Maquiavel sobre os púlpitos de nossas igrejas! Será insuportável, uma vez mais, observar pastores, cantores e líderes seguindo o curso do mundo governado pelo diabo - seguindo a carreira do mundo!

Que Deus tenha misericórdia de nós e abra-nos os olhos para enxergarmos na sua bússola o Norte a seguir. Que a igreja volte a andar no caminho da santidade e se diferencie do mundo ao seu redor!