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terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Jesus era da Judeia ou da Palestina? Historiadora cristã esclarece a questão

Por uma questão ideológica e até mesmo antissemita, muitos têm promovido a falsa ideia de que Jesus era “palestino”, no sentido de que não havia naquela época uma Judeia, mas toda aquela região era nomeada Palestina. Muitos citam até fontes, distorcendo a seu favor as informações. Neste vídeo, uma historiadora cristã rebate tais falácias, demonstrando, através de fontes históricas contemporâneas a Jesus, que o termo Judeia era também largamente empregado.


domingo, 11 de outubro de 2020

Livro gratuito reúne 365 Citações de Martinho Lutero mais as 95 Teses - Baixe o seu

        Há poucos anos comemoramos nada menos que quinhentos anos de Reforma Protestante. Assim, redondos, perfeitos. Quinhentos anos depois, devemos ter e manter por mote capital o lema proposto pelo reformador holandês Gisbertus Voetius (1589-1676): “Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est” (“A Igreja é reformada e está sempre se reformando”). A frase significa que a obra da Reforma não está concluída, mas persevera ou deve perseverar em seu avanço em direção à verdade e à vivência de um cristianismo a cada dia mais bíblico (há quem utilize o termo apostólico, perfeitamente válido) e equilibrado.

        Se a Reforma representou um retorno ou reaproximação à verdade, tal verdade deve ser comunicada com urgência e ímpeto; ímpeto maior do que o daqueles que comunicam o engano, cada vez maior, em cada vez mais variadas formas. Cremos que a Reforma é um movimento engendrado em Deus, peça de perfeito encaixe dentro de seu Kairós, seu tempo; movimento que aponta para conserto dos agentes e engajamento na ação, ou seja, reerguimento da Igreja e/para o cumprimento da Grande Comissão. Assim, a Reforma é um prenúncio da volta do Rei, e um movimento fundamental de seu glorioso retorno.

      No Brasil atual, as mais diversas instituições, sejam eclesiásticas, para-eclesiásticas ou seculares, realizam eventos e  publicações em celebração e memória à vida e obra de Lutero. Digno de nota são os esforços da Igreja de Confissão Luterana do Brasil, de cujo site coligimos mais de metade das frases aqui veiculadas, bem como o texto das 95 Teses.

      Este breve e-book, em sua humildade, simplicidade e gratuidade, vem somar-se ao volume de realizações em comemoração ao 503º aniversário da Reforma Protestante. E proporcionar a todos um singelo aprofundamento no pensamento daquele que, apoiado nos ombros de gigantes, verdadeiramente deflagrou a Reforma ensaiada por muitos, dos quais diversos pagaram a ousadia com sua própria vida.

Sammis Reachers, editor

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quarta-feira, 1 de maio de 2019

1000 Citações sobre a Oração cristã em livro grátis para download


Uma antologia é fundamentalmente um filtro e uma espécie de condensador (meta)literário. Por seu caráter de antologia, e por antologiar gêneros diversos, como frases, sermões e orações, agregando a isso outros recursos práticos, este humilde e gratuito livro, que circula apenas em formato eletrônico, se configura num dos mais significativos livros sobre a Oração já publicados em língua portuguesa. 
Nosso objetivo, ao nos apoiarmos nos ombros de gigantes e usufruirmos dos recursos da lavra dos mais diversos irmãos e ministérios, não é trazer prejuízo a qualquer, mas prestar um serviço à Igreja de Cristo. E cumprir a vocação da literatura cristã de ofertar o melhor conteúdo possível ao máximo de pessoas possíveis, da maneira mais graciosa possível, rendendo nisso glórias ao Deus vivo, de onde todo o bem emana.
Estão aqui coligidas em torno de mil citações, de autores os mais diversos da cristandade, citações divididas em duas partes: Frases Gerais sobre a Oração e Frases sobre a importância da Oração nas obras de Evangelização e Missões.
Para além disso, coligimos 150 esboços de sermões sobre o tema da Oração. Tais esboços, claro esteja, prestam-se igualmente como estudos bíblicos, muito oportunos para os momentos devocionais em particular ou em grupo.
Coligimos ainda trechos de orações de grandes nomes do cristianismo, desde Pais da Igreja como Clemente de Roma até nomes recentes como Martin Luther King. Tais textos não devem ser tomados como modelos rijos e nem prestam-se a objetos para a repetição, mas objetivam apenas ilustrar e aclarar aspectos da oração e dar notícia da devoção e correição de fé de nossos co-herdeiros da graça de Cristo.
Como referido, agregamos a este livro recursos outros que poderão auxiliar todos aqueles que trilham os caminhos da comunhão divina através da oração. Concordância Bíblica ExaustivaDatas Comemorativas para a Intercessão específica, um modelo de Diário de Oração e outros recursos, são itens que irão enriquecer a devoção do leitor.
Oração é oração praticada; sua ciência é quase toda ela empírica, desenvolvida pelo contato dos joelhos no chão e a abertura de coração.
Que este humilde livro, mais do que agregar conhecimento teórico, enriqueça seu ferramental prático e lhe constranja a orar mais e melhor, crescendo de fé em fé, até assenhorear-se de todas as promessas de Deus a que só temos acesso através da oração.
Compartilhe este livro, sempre gratuitamente, com todos os irmãos ao seu alcance.

Sammis Reachers
Organizador

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segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Biografia de Casiodoro de Reina, principal tradutor da Bíblia conhecida como Reina-Valera


Seu nome é amplamente conhecido no mundo cristão de língua hispânica – mas a sua história não. Associado à Bíblia de maior prestígio e difusão, muitos tem chegado a atribuir a sua versão da Bíblia o caráter de «inspirada».
Casiodoro de Reina e seu assistente Cipriano de Valera –na versão da sua Bíblia tal como é conhecida hoje–, formam a dupla mais conhecida de nomes quase sagrados para o povo evangélico de língua hispânica.
Além de sua condição de tradutor da Bíblia, Casiodoro de Reina representa a sorte e o destino de muitos cristãos da sua época. Perseguições, difamações, estreitezas econômicas, incompreensões dos seus próprios irmãos, formaram parte do caminho que teve que seguir o homem que, sem sabê-lo, teria que abençoar a tantos na posteridade.
Por detrás da tradução da Bíblia que hoje tanto desfrutamos, há uma vida oferecida a Deus no altar do holocausto.

Um frade dissidente
Casiodoro de Reina (ou Reyna, no espanhol antigo), nasceu em Montemolín, Badajoz, Espanha, por volta de 1520, apenas um ano depois que Lutero cravou as suas 95 teses na porta da catedral de Wittenberg.
Logo depois de estudar na universidade, ingressou no monastério jerônimo de São Isidoro do Campo em Sevilha; o qual, neste tempo tinha se transformado em um foco do «luteranismo», até o ponto de atrair sobre si a atenção da Inquisição.
O Novo Testamento de João Pérez de Pineda e outras obras protestantes, trazidas de contrabando pelo valoroso Julianillo Hernández, eram o alimento cotidiano dos frades daquele convento.
De fato, Casiodoro tinha se transformado no guia espiritual daquele lugar, e inclusive do grupo secular simpatizante das doutrinas da Reforma na cidade de Sevilha. Mas diante da repressão desencadeada, Casiodoro e outros companheiros, entre eles Cipriano de Valera, fogem para Genebra em 1557.
De todos os frades de San Isidro do Campo que fugiram de Sevilha, e se dirigiram para Genebra, Casiodoro de Reina foi o único que não teve que fazer estudos suplementares de teologia no Théodore de Bèze em Lausanne, e também o único a quem os Inquisidores sevilhanos no Auto de Fé do 23 abril de 1562 deram o honorável título de ‘heresiarca’, que quer dizer, mestre dos hereges.
Segundo testemunho dos próprios inquisidores, Casiodoro tinha propagado com muito êxito a doutrina evangélica entre os seculares de Sevilha. Inclusive um documento da inquisição assinalava que um Frei Casiodoro era o responsável pela súbita conversão ao luteranismo de todos os monges de San Isidro.
O próprio Casiodoro, em seu livro Sanctae Inquisitionis Hispanicae Artes, afirma que somente foram dois frades de San Isidro que deram início a este assunto, com o resultado de que em poucos meses quase todos os frades do convento, ou tinham se convertido, ou pelo menos simpatizavam com eles. Um destes iniciadores foi naturalmente o próprio Casiodoro, quem por modéstia ou cautela entra no anonimato, sendo ele mesmo o verdadeiro autor deste primeiro grande livro contra a Inquisição publicado em Heidelberg em 1567 sob o pseudônimo de Reginaldus Gonsalvius Montanus.

Permanência em Genebra
Quando Casiodoro chegou a Genebra, planejou de traduzir a Bíblia completa para o espanhol. Ele foi falar com Juan Pérez de Pinheiral sobre os seus planos, quem tinha apoiado na tradução do Novo Testamento de Francisco de Enzinas, publicada em 1543.
A estes mesmos planos Casiodoro certamente em um de seus encontros, fez menção a Calvino, quem não deixaria de lhe recordar como Enzinas tinha lhe solicitado, cinco anos atrás, intervir pessoalmente para assegurar o financiamento final de sua própria versão da Bíblia em espanhol.
 Calvino aceitou colaborar em tal empreendimento, mas o que Calvino não sabia era que a tradução de Enzinas não tinha sido feita à partir dos textos originais, mas da versão latina de Sebastian Castellion, apóstolo da tolerância religiosa, amigo íntimo de Enzinas e o homem mais odiado por Calvino e os calvinistas.
A excelente versão em latim clássico de Castellion, que fascinou, além de Enzinas, também a Fadrique Furió Cerol –primeiro caudilho espanhol da difusão da Bíblia em idioma vulgar–, devia gostar tanto de Casiodoro, que decidiu, a despeito de João Pérez, de Cipriano de Valera, e de outros espanhóis submissos a Calvino, de escrever uma carta a Castellion.
Casiodoro se tornou assim suspeito aos ultraortodoxos calvinistas de Genebra, por sustentar, além disso, que também deveria considerar como irmãos os anabatistas, por propagar entre os refugiados espanhóis o livro de Castellion  ‘que não se devia queimar os hereges’, e para dizer que Miguel Servet tinha sido queimado injustamente em Genebra. Os seus inimigos reprovaram a Casiodoro que ‘cada vez que ele passeava diante do lugar da fogueira de Servet, lhe saltavam as lágrimas’. E quando se inteiraram mais tarde que Casiodoro tinha partido para a Inglaterra para fundar ali uma nova comunidade cristã, não demoraram em lhe pôr o adjetivo de ‘Moisés dos espanhóis’, porque conseguiu levar consigo muitos dos seus compatriotas.
 Assim Casiodoro se tornou abominável para os genebrinos, e Genebra abominável para Casiodoro. Com efeito, o que Casiodoro viu em Genebra não foi do seu agrado: em 1553 executaram Miguel Servet e o tratamento dado aos dissidentes era muito controvertido. Reina se opunha à execução de hereges –reais ou supostos– por considerá-la uma afronta ao testemunho de Cristo. Traduziu secretamente o livro de Sebastián Castellion «Sobre os hereges», De herectis an sint persequendi, que condena as execuções por razões de consciência e documenta a rejeição original do cristianismo a semelhante prática.
Ainda que Casiodoro de Reina fosse firmemente trinitário e, portanto, não compartilhava as crenças unitárias por motivo das quais Servet foi queimado, não podia aceitar que alguém fosse executado por suas crenças. Entrou em tal contradição com João Calvino e a rigidez imperante, que lhe fez dizer que «Genebra tinha se convertido em uma nova Roma».

Errando como proscrito
Em tal encruzilhada, Casiodoro foi a Londres no final de 1558. Ali teve a alegria de recuperar os seus parentes mais próximos – entre eles o seu pai e a sua mãe – que tinham escapado da Inquisição espanhola. Casiodoro organiza ali uma Igreja para os de língua hispânica, aceitando também como membros a italianos e  holandeses caídos em desgraça em suas respectivas igrejas.
No princípio se reuniam três vezes por semana em uma casa que o bispo de Londres lhe fornecera, e mais tarde, na igreja de Santa Maria de Hargs, que gentilmente lhes concedeu a própria rainha Isabel I. Por este tempo, Casiodoro se casa.
Em janeiro de 1560, redige a ‘Confissão de fé feita por certos fiéis espanhóis, que fugindo dos abusos que a igreja Romana e a crueldade da Inquisição da Espanha fizeram à Igreja dos fiéis para ser nela recebidos por irmãos em Cristo’. E desde então não deixa de trabalhar na tradução dos livros sagrados que pensava levar a bom termo em um tempo razoável.
Essa era a sua pretensão. Mas não contava com as trapaças provenientes de dois grupos, que ainda que totalmente opostos em seus interesses, fizeram-se unânimes na vontade de impedir o trabalho do tradutor da Bíblia.
Por um lado, os inquisidores, que conseguiu infiltrar um agente provocador na nascente igreja – nada menos que Gaspar Zapata, o assistente de Casiodoro no trabalho de tradução –, e fizeram chantagem ou promessas a alguns membros fracos, dispostos a denunciar o seu próprio pastor diante das autoridades inglesas do crime execrável de sodomia.
E por outro lado, os ciumentos calvinistas das igrejas francesas e flamencas de Londres, que guiado por sua extrema desconfiança e antipatia por Casiodoro, não faziam senão esquadrinhar os textos traduzidos, ainda incompletos, procurar heresias por toda parte, e denunciá-las imediatamente a Genebra, chegando ao extremo de apoiar cegamente o duplo jogo montado a todas vistas pelo embaixador da Espanha em Londres, e por agentes da Inquisição.
O resultado desta dupla conspiração foi a fuga precipitada de Casiodoro de Reina para Amberes, em janeiro de 1564, e a imediata dispersão da comunidade espanhola de Londres.
Por sorte, Casiodoro pôde pôr a salvo os manuscritos, que lhe foram enviados semanas depois a Amberes pelo velho pároco de San Isidro, Francisco de Farías, ou por algum outro ex-frade de toda a sua confiança. Em Amberes passou enormes dificuldades econômicas para poder continuar com a tradução da Bíblia.
Foi então quando o Rei Felipe II pôs a cabeça do fugitivo a prêmio, como se lê em uma carta do governador de Amberes ao regente dos Países Baixos: ‘Sua Majestade gastou grandes somas de dinheiro para encontrar e descobrir ao dito Casiodoro, para lhe poder deter, se porventura se encontrasse nas ruas ou em qualquer outro lugar, prometendo uma soma de dinheiro a quem lhe descobrisse’.
Procurado em toda parte pelos guardas da Inquisição, e suspeito de heresia, ou de piores coisas, mesmo por seus irmãos de fé, Casiodoro andou durante mais de três anos entre Frankfurt, Heidelberg, o sul da França, Basiléia, e Estrasburgo, procurando um lugar onde estabelecer-se como ministro da igreja, ou como simples artesão, para poder terminar a sua tradução.
Naquela época, ele escreve: "Excetuando o tempo que tomei nas viagens de um lado para outro pela perseguição desencadeada pela Inquisição e outro tempo que estive doente, a pena não saiu da minha mão durante nove anos inteiros".
Em 1567 e 1568 o encontramos de novo ocasionalmente na Basiléia, na casa do banqueiro calvinista Marcos Pérez, quem já tinha protegido a Casiodoro em Amberes, e quem agora continuou lhe defendendo contra as acusações de seus correligionários, apoiando finalmente com os custos de impressão da Bíblia. Basiléia era na época o centro da tipografia reformada.

A impressão da Bíblia
Ali fez contato com o tipógrafo Juan Oporino, quem se comprometeu a imprimir 2.600 Bíblias, depois de uma antecipação de 500 florins que Casiodoro tinha entregue por conta da impressão – dinheiro que os refugiados espanhóis de Frankfurt tinham reunido para tal efeito.
Ainda que Casiodoro residisse habitualmente na Basiléia, estava acostumado a fazer viagens a Estrasburgo, onde tinha deixado a sua mulher. De volta de uma destas expedições, caiu gravemente doente; esteve cinco semanas de cama, e ao convalescer-se soube que Juan Oporino tinha morrido.
Recuperar os 500 florins entregues como adiantamento era um difícil empreendimento, porque Oporino tinha morrido arrasado em dívidas, e os seus bens não bastavam para cobri-las. Casiodoro foi aos seus amigos de Frankfurt, que enviaram o dinheiro suficiente para continuar a impressão. Ele mesmo não pôde ir buscar o dinheiro por causa da sua saúde frágil e o rigoroso inverno de 1568, e encarregou esta diligencia aos seus íntimos amigos Conrado Hubert e João Sturm.
Os inimigos espanhóis de Casiodoro, que tinham decidido reimprimir em Paris o Novo Testamento de Juan Pérez, com todas as notas marginais da Bíblia francesa de Genebra (Geneva Note), começaram a exigir para seu projeto uma parte do dinheiro dos fundos dos refugiados espanhóis. A este conflito o embaixador espanhol Dom Francês de Ávila pôs inesperadamente fim, pois, tendo notícia do projeto, fez deter provisoriamente no verão de 1568 ao impressor de Paris. Os cadernos já impressos deste Novo Testamento, caíram nas mãos do embaixador, que se apressou a enviar-lhe ao rei Felipe II como o mais estimado troféu. 
Menos êxitos tiveram o rei e seus agentes para impedir o projeto da Basiléia, possivelmente por não estar informados suficientemente sobre o tempo e lugar onde Casiodoro estava imprimindo a sua Bíblia. Possivelmente foi o próprio Casiodoro quem indiretamente lhes tinha dado uma pista falsa ao escrever a Théodore de Bèze, em abril de 1567, que estava disposto a submeter a seu controle o texto bíblico antes da impressão, que poderia muito bem ser efetuada na gráfica de Jean Crespin em Genebra. Naturalmente que Casiodoro com este ato de submissão não pretendia a não ser obter dos ministros genebrinos seu reconhecimento como ministro, não pensando em nenhum momento em pôr a sua tradução nas mãos dos seus contraditores, e muito menos de imprimi-la em Genebra.
Mas a notícia deve ter chegado aos ouvidos de algum espião da Inquisição, o qual se apressou em transmiti-la para Madri. Em todo caso, já no verão de 1568 a Suprema ordenou aos inquisidores dos portos da península, de estarem bem avisados sobre os livros que entrassem, pois ‘Casiodoro tinha imprimido em Genebra a Bíblia na língua espanhola’. A resposta do Tribunal de Granada não se fez esperar: ‘depois de muitos controles podemos assegurar as suas Excelências que neste reino [de Granada] não entrou nem um único exemplar da Bíblia de Casiodoro’. Bem podiam dizer, pois nessa data (2 de julho), a Bíblia de Casiodoro ainda não tinha começado a ser impressa, pois a morte de Oporino tinha ocasionado um posterior atraso.
Uma nova intervenção de Marcos Pérez, emprestando a Casiodoro a fundo perdido a soma de 300 florins (equivalente ao salário de 3 anos de um professor de universidade), serve para fechar um novo contrato com o impressor Thomas Guarin, quem imprimiu finalmente os 2.600 exemplares. A impressão aconteceu nas oficinas do próprio Guarin e não, como se tem sustentado, na pequena gráfica de Samuel Apiario, de onde não saíam senão livros de pequeno formato e textos limitados.
Mas a impressão não esteve isenta de novas dificuldades. A saúde de Casiodoro era frágil; sentia constantemente dores de cabeça e contínuas febres. Quando começou a impressão de sua Bíblia, a tradução de Casiodoro não estava nem ao menos terminada, apenas a do Novo Testamento, e à medida que avançava o trabalho das prensas, o intérprete se viu cada vez mais apressado pelo tempo. Até maio de 1569 a impressão não tinha chegado aos Atos dos Apóstolos, e faltava por traduzir da segunda Epístola aos Coríntios até o fim.
As esperanças que Casiodoro tinha de utilizar ainda a revisão do Novo Testamento de João Pérez que era impressa em Paris, viram-se frustradas em 1568 pela intervenção do embaixador espanhol acima mencionado. Só ficavam, pois, a versão de Enzinas, e as cartas paulinas traduzidas por Valdés, de onde Casiodoro às vezes incorporava literalmente frases ou expressões em seu próprio texto, ou às vezes as indicava somente na margem como ‘outras variantes’.
Ao chegar ao Apocalipse, o trabalho do impressor havia quase já alcançado a do tradutor, e a Casiodoro não restou outro remédio que servir-se às mãos cheias do correspondente texto de Enzinas, contentando-se meramente com uma rápida revisão. Isto não significa um menosprezo do trabalho de Casiodoro, pois como monumento de alta piedade e erudição, ou como modelo de precisão e propriedade da língua espanhola, tanto vale a deliciosa e elegante prosa de Enzinas, como a ligeira e brilhante de Casiodoro.
Além das dificuldades anteriores, ele se encontrava sem dinheiro; necessitava de pelo menos 250 florins para acabar o livro, e não tinha recobrado nem um centavo da herança de Oporino, apesar das reclamações que fez ao Senado da Basiléia.
Apesar de tudo, um mês depois, em 14 de junho, deu aos seus amigos a boa notícia de ter recebido a última folha da Bíblia: ‘postremum folium totius texti biblici tam Veteris quam Novi Testamenti’; e pergunta-lhes se era conveniente dedicá-la à rainha da Inglaterra. João Sturm devia escrever a dedicatória latina, e assim o fez; mas finalmente preferiu encabeçá-la aos príncipes da Europa e especialmente aos do Sacro Império Romano.
Casiodoro gostaria enormemente de usar a simbólica imagem de um urso que Apiario já não utilizava como marca tipográfica desde muito tempo atrás, e, ou comprou, ou pediu emprestado o mencionado clichê para ilustrar a capa que depois seria chamada a Bíblia do Urso. Em todo caso, o próprio Casiodoro confirmou em sua dedicatória autografada no exemplar presenteado à Universidade da Basiléia, que a impressão tinha sido efetuada na tipografia de Guarin. Além disso, no catálogo ou pôster de vendas que Guarin imprimiu para a feira de livros de Frankfurt de 1578, figurava a Bíblia de Casiodoro: ‘Bíblia in Hispanicam linguam traducta’.
Em 6 de agosto, Casiodoro envia a Estrasburgo, por meio de Bartolomeu Versachio, quatro grandes tonéis de Bíblias para que Huber os recolhesse com o objeto que ele sabe; sem dúvida, para introduzi-los no Flandes, e dali na Espanha.
Por razões óbvias de cautela para difundi-la em terras católicas – a fim de prevenir a inevitável proibição imediata por parte da Inquisição – Casiodoro faz passar a sua Bíblia como uma obra católica, respeitando a ordem dos livros bíblicos segundo a Vulgata, cujo canon tinha sido recentemente confirmado pelo concílio de Trento, e omitindo o nome do tradutor e o lugar de impressão.
Por isso, só um ano e meio mais tarde, em 19 de janeiro de 1571, o Conselho Supremo da Inquisição se inteirou de que ‘a Bíblia em romance’ havia sido impressa na Basiléia, e ordenou o recolhimento de todos os exemplares que fossem descobertos. Dez anos depois, em 1581, o titular do bispado da Basiléia, Blarer von Wartensee, denunciava ao cardeal Carlo Borromeo que na Basiléia tinha sido impresso com data de 1569 uns 1600 exemplares da Bíblia em espanhol, e que 1400 delas acabavam de ser enviados de Frankfurt a Amberes.
Em Amberes finalmente, trocaram-se as capas de muitos destes exemplares pelo frontispício do célebre Dicionário de Ambrogio (ou Ambrosio de) Calepino (1435-1511), a fim de podê-los melhor difundir na Espanha. Este estratagema nem sempre funcionou, como demonstra o caso de um envio descoberto pela Inquisição em 1585, que deu lugar a um novo aviso aos tribunais da província: ‘Bíblias em espanhol, cobertas com folhas de Calepino, estão proibidos’. Muitos outros exemplares ficaram durante decênios depositados nas mãos dos membros da família de Casiodoro em Frankfurt, que fizeram ‘renovar’ periodicamente os exemplares não vendidos, atualizando as capas. Isto explica o porquê existem exemplares com o falso rodapé de impressão em ‘Frankfurt 1602’, Frankfurt 1603’ ou ‘Frankfurt 1622’.
A Bíblia de Reina não foi a primeira versão completa das Sagradas Escrituras em espanhol. Existia a versão de Alfonso X o Sábio de 1260, mas esta já tinha a partir de então um valor meramente histórico. Os judeus de Ferrara tinham editado todo o Antigo Testamento em castelhano em 1553, mas essa era uma versão de difícil linguagem, por ser muito literal. E, como se tem dito, o Novo Testamento já tinha sido traduzido para o espanhol por Francisco de Enzinas e por João Pérez de Pineda com antecedência a que fizera Reina.
Mas a versão de Casiodoro de Reina é a primeira tradução da Bíblia para o castelhano a partir do hebreu e do grego, completada após doze anos de árduo trabalho.

Cipriano de Valera
A Bíblia de Cipriano de Valera, publicada 33 anos depois, em 1602, na realidade uma edição só levemente corrigida da tradução de Reina, tal como se reconhece nas versões contemporâneas Reina-Valera, a qual, no entanto, suprimiram os livros deuterocanônicos traduzidos por Reina e colocados como apêndices na edição de Valera, à maneira da Bíblia de Lutero.
O que Valera pretendia com a sua nova edição de 1602, era, não só suprir a falta de exemplares, reimprimindo a tradução que seu antigo mestre Casiodoro tinha levado a bom termo, mas também o seu verdadeiro intento mais ou menos consciente era acabar de uma vez por todas com o fato, vergonhoso aos olhos de alguns estreitos calvinistas espanhóis, de ter que utilizar uma Bíblia que tanto na ordem dos livros como nas notas teológicas marginais não correspondiam exatamente às Bíblias oficiais de Genebra.
Ao sair a Bíblia de Casiodoro, os pastores de Genebra a examinaram minuciosamente. E certo é também que, não obstante ‘à sinistra opinião’ que dizem seguir tendo de Casiodoro, não encontraram absolutamente nada que reprovar na edição, a não ser um insignificante engano tipográfico em Gênesis 1:27 (‘macho fêmea os criou’). Também ele se deu logo conta do engano, fazendo imprimir um adesivo com as palavras ‘e fêmea’, que ele mesmo inseriu na correspondente linha de um grande número de exemplares. Das verdadeiras ‘heresias’ exegéticas, que Casiodoro introduziu engenhosamente nos epígrafes de muitos capítulos de sua Bíblia, nem se inteiraram os pastores de Genebra, nem tampouco Cipriano de Valera, pois os deixou intactos em sua revisão.
Não obstante esta aprovação tácita da versão de Casiodoro pelos pastores de Genebra, Valera ficou por volta de 1580 em Londres, por sua própria conta, para revisar a Bíblia de Casiodoro, quem naquele caso era duplamente suspeito: por seus ‘servilismos’ passados, e por seu ofício presente de pastor da igreja luterana. Mas para evitar a acusação de comportar-se como um plagiador, Valera esperou até a morte de Casiodoro, que aconteceu em Frankfurt em 15 de março de 1594, para publicar em Londres em 1596 uma ‘própria’ edição do Novo Testamento. Esta edição de Valera não parece ter sido muita difundida no continente, pois três anos mais tarde, com a ocasião da edição do Elias Hutter do Novo Testamento em doze línguas, Nuremberg 1599-1600, o texto ali impresso não é o de Valera, mas o da Bíblia de Casiodoro.
A diferença na realidade, não se havia feito muito notar, pois o trabalho de Valera em sua edição do Novo Testamento não tinha consistido em muito mais que em tirar ou acrescentar notas marginais, alterar de vez em quando o texto, e omitir de todo o nome o tradutor que havia morrido. Tal silêncio, naturalmente, Valera não pôde manter no todo em sua edição da Bíblia completa, impressa em Amsterdam em 1602, e é por isso que no longo prefácio, ao verdadeiro tradutor Casiodoro vêm dedicadas umas poucas linhas, não carentes de reticências, enquanto que o nome do revisor, Cipriano de Valera, figura em grandes letras no meio da capa.
Mas também nesta ‘revisão’, como era de esperar, o próprio trabalho de Valera consistiu, sobretudo em acomodar a ordem dos livros ao canon reformista (que é na realidade o canon hebreu-cristão), e em tirar ou acrescentar notas marginais, seguindo especialmente as notas das Bíblias de Genebra. As alterações do texto não significam sempre melhoria, e o mesmo se pode dizer de sua escrupulosa eliminação de expressões como ‘porventura’, que Valera apagou, como ele mesmo escreve, ‘por ter sabor de gentilidade’. Tais alterações não superam, em todo caso, 1% do texto.
  Portanto, é justiça sublinhar que o mérito maior da Bíblia Reina-Valera é de Casiodoro de Reina, quem, contra ventos e marés, até face à oposição de muitos dos seus próprios irmãos, fez uma tradução que nenhum outro cristão espanhol depois da segunda metade do século XVI foi capaz de fazer.

O comerciante de sedas
Tendo concluído a sua grande obra na Basiléia, Casiodoro saiu desta cidade e se dirigiu a Frankfurt, Alemanha, onde lhe foi conferido o título de cidadão ilustre. Dali foi para Amberes, Bélgica, para encabeçar em 1579 a congregação dos franceses que se aderiram à Confissão de Augsburgo, igreja que reorganizou e que desdobrou uma grande atividade.
Quando Amberes caiu nas mãos de Alejandro Farnesio (espanhol opositor dos emancipados de Roma) em agosto de 1585, deixou esta cidade e voltou para Frankfurt, onde a sua figura foi muito respeitada entre os cristãos que tinham emigrado para a Holanda, sendo sustentado por seu próprio trabalho com um comércio de sedas.
Algum tempo depois, em 1593, tendo mais de setenta anos, foi eleito pastor auxiliar na igreja de Frankfurt. Durante oito meses ainda pôde exercer o seu ministério, até que dormiu no Senhor em 15 de março de 1594. O seu filho Marcos foi, dois anos mais tarde, eleito sucessor do seu pai.
A Inquisição o queimou em figura no ‘Auto de Fé’ celebrado em Sevilha em 1562, e seus escritos foram postos no Índice de Livros Proibidos.
A versão de Reina-Valera é até hoje a mais usada pelos cristãos de língua hispânica. Foi durante séculos a única tradução acessível em espanhol, e foi reconhecida até pela Igreja Católica, como superior às duas versões delas, a versão de Scío (1793), e a editada por Torres Amat (1825, tradução de José Miguel Petisco), ambas mais tardias e únicas até tempos muito recentes.
Quando seus inimigos mencionavam o abuso que se podia cometer pelo mau uso das Escrituras na língua vernácula, Casiodoro replicava que seria como se «o rei ou o príncipe, porque há muitos que fazem mal uso do pão, da água ou do vinho, do fogo, da luz, e das outras coisas necessárias à vida humana, ou as proibisse de tudo, ou fizesse da venda delas algo muito caro, e com grande escassez».

domingo, 25 de junho de 2017

Lutero: Atleta de Cristo


Lutero: Atleta de Cristo
P. em. Dr. Martim N. Dreher (Portal Luteranos
Lutero teve formação como monge. Quis ser obediente, pobre, casto, afastar-se do mundo e rezar. O mosteiro era ilha isolada. Havia obediência aos superiores e o monasticismo tinha longa história. Foi dos grandes poderes do Ocidente. Mas teve seu fim com o movimento de Lutero. Ordens religiosas continuaram a existir após a Reforma, mas não tinham mais a importância de outrora.
O monge assumia a castidade e negava a sexualidade. Rompia com o temporal, dedicando-se apenas à contemplação do Eterno. Não fazia mais parte da história de gerações: não gerava filhos. Após anos de isolamento monástico, Lutero ficou confuso ante o mundo e seus desafios e ansiou pela tranquilidade do mosteiro.
Os primeiros eremitas eram “anacoretas”, pessoas que fugiam dos pesados impostos, se ocultavam no deserto, onde polícia alguma se aventurava a procurá-los. Não produziram livros. As informações que temos deles vêm de lendas. No deserto, rezavam e dedicavam-se a tecer esteiras. Únicos companheiros eram os demônios que os visitavam com frequência, pois a ascese não evitava as tentações. E eles queriam ser tentados. Pediam pela graça de poderem morrer pela espada, mas os demônios preferiam torturá-los e matá-los lentamente. Sangravam a alma ao invés do corpo.
Tortura preferida dos demônios era a sexualidade. Desde os monges egípcios a humanidade passou a considerar mulheres como a origem do mal. Essa ideia tomou conta do cristianismo. As tentações de Santo Antão, para o qual o diabo sempre se apresentava na forma de bela mulher, foram lidas nos mosteiros. O antifeminismo tem sua história, e em seu decorrer foi amenizado pela devoção a Maria. Mas não desapareceu por completo e se manifestou especialmente nas Regras das Ordens Religiosas. A regra dos agostinianos considerava pecado fitar mulher, e os confrades estavam obrigados a denunciá-lo, seguindose: prisão com os pés algemados, a pão e água.
Lutero afirma não ter olhado para mulher nem mesmo quando lhe ouvia confissão. Estava mais preocupado com outra questão. Não era muito chegado a visões e arrebatamentos, oferecidos pela mística da época, com suas fantasias sexuais, nas quais o noivo Cristo era beijado, e acariciado em casamentos místicos. Lutero não seguiu essa tendência. O pouco tempo em que “namorou” com a mística alemã, foi quando buscava acesso direto a Deus.
Para Lutero, “libido” envolvia o ser humano como um todo e toda a sua vida. “Carne” é a pessoa com todas as suas qualidades que são o contrário de uma alma que busca Deus. Quando fala de sua tentação, fala de ira, impaciência, cobiça. Jamais vai dizer que a libido é a maior delas.
Lutero está repetindo a relação dos sete pecados capitais segundo o catálogo de monges que buscavam vida perfeita diante de Deus: soberba, inveja, ira, indiferença, avareza, gula, luxúria. Após o vício maior, a soberba, seguem os vícios da área espiritual e, depois, os três vícios da vida corporal. Não recitava todos eles. Muitos não lhe diziam respeito por estar no mosteiro. O que mais o marcou talvez tenha sido a “indiferença”, relacionada à hipocondria. Lutero enfrentou muita depressão. Além disso, tinha explosões de “ira”, mas logo buscava reconciliação.
A soberba vinha à frente dos pecados. Dava origem aos demais. A soberba se manifestava, quando o eremita se distanciava do mundo e das pessoas. Buscava conseguir primazia em relação aos demais mortais. Poucos seriam os perfeitos, muitos os fracos. A soberba se manifestava na ascese dos pais do deserto. Foi no deserto com suas altas temperaturas durante o dia e o frio gélido das noites que se desenvolveram as mais absurdas formas de monasticismo. Ascese era, originalmente, designação para o treinamento dos atletas profissionais. Por isso, os primeiros eremitas designavam-se de “atletas de Deus” e travaram verdadeiras competições entre si para ver, quem atingia os mais altos índices. Os primeiros deles até que foram comedidos. Não tinham Regra e não estabeleceram castigos, quando começaram a se reunir em comunidades. Só queriam ser diferentes dos pagãos. Usavam vestes escuras para se diferenciarem dos filósofos gregos que usavam manto branco. Também descuidavam do corpo. Em seus dias as pessoas ricas da Antiguidade passavam o dia em banhos e saunas. Os eremitas só consumiam um mínimo em alimentos. Em breve, porém, alguns deles passaram a serem considerados heróis, taumaturgos e exemplos que estabeleciam recordes ascéticos. O primeiro desses recordes a ser estabelecido era o da solidão. A curiosidade das pessoas do mundo urbano que os visitavam no deserto queria mais. Por isso, alguns “atletas de Deus” amarraram pesadas correntes ao corpo, fazendo se enterrar. O auge entre essas figuras foi estabelecido por Simão, o estilita. Pessoa de saúde admirável, primeiro fez-se enterrar por dois anos; depois, subiu em coluna de vinte metros de altura, sobre a qual passou os últimos trinta anos de sua vida. Na pequena plataforma no alto da coluna, Simão orava e fazia genuflexões. Um admirador tentou calcular quantas teriam sido. Com elas estava mais próximo a Deus. Após sua morte, muitas construções surgiram em torno da coluna. Simão foi utilizado pela igreja por representar exemplo de vida cristã. O cálculo dos exercícios desse “atleta de Cristo” motivou críticas de Lutero.
No deserto surgiu o mosteiro com Regra, sob a direção de um Abade e atividade produtiva. Preguiça deveria ser eliminada. Eremitas teciam esteiras. Os mosteiros variaram a produção. O organizador do primeiro mosteiro, Pacômio buscou por “ordem” num mundo em “desordem” e se tornou protótipo. E os mosteiros se transformaram em importantes centros de produção. Além disso, tornaram-se centros de cultura e de preservação, em oposição aos eremitas que a negavam. O monge tinha que ler e escrever, decorar a Bíblia. Estabeleceram-se regras, disciplina supervisionada. Foi nesse tipo de mosteiro que Lutero ingressou.
Lutero se desenvolveu nessa mais antiga forma de vida cristã. Movimentos reformatórios sempre de novo invocaram os primórdios do cristianismo, se bem que pensassem nas formas anteriores ao surgimento de eremitas e mosteiros. Lutero estava convicto de que acontecera crescente “decadência” e que era necessário retorno às origens.
 “Reforma” foi conceito que acompanhou a história dos mosteiros, que é contada em ciclos de “decadência” e de “reforma”. Quando Lutero ingressou na Ordem dos Agostinianos esta se encontrava dividida. Havia grupo que exigia reforma e outro que se lhe opunha. “Obediência” era um dos votos dos monges. Ela era prestada em relação ao superior da ordem, mas não impedia desobediência em relação a outras instituições como o papado. Até os dias de Lutero, os agostinianos se vangloriavam de ser a ordem mais obediente e de jamais haverem produzido um herege.
“Pobreza” era outro dos votos. O monge era pobre; o mosteiro era rico. Grande era considerado o abade que fosse grande administrador, fazendo crescer o Reino de Deus. Os mosteiros medievais preservaram a Antiguidade, quando as ordens bárbaras invadiram a Europa. Essa preservação manteve o que de mais precioso foi criado pelo ser humano. Também contribuíram para o progresso econômico das regiões em que se estabeleceram. Secaram pântanos, dominaram florestas, conformaram a Europa, hospedavam viajantes, cuidaram de enfermos. Mas não eram pobres. Patrocinavam as artes. Foram proprietários de grandes
extensões de terras. Alguns abades eram designados de príncipes e viviam como se o fossem.
Não havia pobreza no mosteiro de Lutero. Os agostinianos não eram tão ricos quanto os beneditinos, mas tinham posses. No século XVI, a acumulação de bens e de privilégios de parte dos mosteiros era tão grande que um reordenamento se fazia necessário. Do lado da igreja se falava na “ganância” do Estado, do lado do Estado se falava na “ganância” da igreja. Os agostinianos eremitas detinham 103 mosteiros na Alemanha.
O de Erfurt existia desde 1256. Lutero trajava-se com o hábito negro, preso com cinto de couro preto. Sobre ele vestia escápula branca. Camisa de lã servia de camiseta. Durante a noite vestia escápula com touca branca. Lutero usou o hábito negro muito tempo após haver rompido com Roma. O mosteiro de Wittenberg foi sua residência até à morte.
No mosteiro, foi “o monge” como se o imagina: foi tentado pelos demônios e acossado pelos pecados da soberba, da ira, da tristeza e do coração indeciso. Observou os votos monásticos, menos um: o da obediência. Não foi atleta de Cristo, não estabeleceu recordes ascéticos, não foi santo, sua ordem não os tinha. Queria algo bem simples: um Deus misericordioso. Sua desobediência consistiu em procurá-lo por caminhos diversos dos oficiais. Nisso consistiu sua heresia.
O autor é Pastor e Professor
emérito da IECLB, residente
em São Leopoldo/RS

segunda-feira, 15 de maio de 2017

O Peregrino: O livro e a ópera


“O Peregrino”


(Dedicado ao leitor Adonias dos Reis Santiago, de Brasília)

A verdadeira felicidade só é encontrada quando definimos o propósito da nossa existência” (W.Cowper)

Antes, durante e depois da Segunda Guerra Mundial os evangélicos brasileiros foram incentivados a ler O Peregrino, de John Bunyan (1628-1688), a maior obra alegórica da literatu-ra inglesa.
Presenteado por Frederica Torres (1897-1981), tia e
mãe adotiva, li “O Peregrino” em 1939, quando tinha 10 anos de idade. Esse livro me orientou em alguns passos importantes.
                  Lembro que era fácil encontrar nos lares evangélicos um quadro intitulado “Os dois caminhos”, talvez inspirado pela alegoria de Bunyan, que simbolicamente dizia: “O cristão não pertence a este mundo; está marchando para o Céu”. Bunyan tinha uma nova “visão de mundo” (ver: Bunyan, John. O Peregri-  no. São Paulo: Imprensa Metodista, 1972; Editora Mundo Cris- tão, 1981).
                   Os meninos de nossos dias podem assistir o filme “Pilgrim’s Progress – Journey to Heaven”, produzido em 2008 por Danny Carrales, com Terry Jernigan. É uma adaptação para as crianças do livro de Bunyan.
Bunyan, ao escrever “The Pilgrim’s Progress” (entre
1667 e 1672), igualou-se a John Milton (1608-1674), na opinião do crítico literário Otto Maria Carpeaux. Este erudito intelectual comparou o começo da alegoria de Bunyan (“As I walked through the wilderness of this world”) com o da obra de Dante (“Nel mezzo del camin di nostra vita”), fazendo um paralelismo moral entre a Itália (século XIII) e a Inglaterra (século XVII).
                   Lembrou o dramaturgo irlandês George Bernard Shaw que o inglês Bunyan foi afastado do teatro pelo Puritanismo.
Segundo o poeta Samuel Coleridge (1772-1834) a
obra foi escrita “no mais vulgar estilo; se você quiser melhorá-lo, deverá destruir a realidade da visão”. O realismo de muitos personagens pode ser reconhecido na experiência diária, decor-ridos 350 anos da elaboração da alegoria.
                   O estilo literário, no início do século XVII,  ainda era douto (William Shakespeare, 1564-1616) e realizou a versão do rei Tiago para a Bíblia inglesa; no fim, a prosa simples de Bu-nyan tornou-se a característica da língua inglesa moderna.
                   Devemos ponderar que os Dissidentes (batistas e ou-tros evangélicos) sofreram sob o código de Edward Clarendon (1609-1674): foram excluídos da vida política, da administração municipal e das universidades. Apesar disso, foi uma época mui-to importante da literatura inglesa.
                   Bunyan escreveu “O Peregrino” durante o período que passou na prisão(1660-1672),no reinado de Carlos II (1660-1685) era pastor da igreja batista em Bedford e favorecia o canto con- gregacional. No “Baptist Hymnal”(1975) figura seu hino “He Who Would Valiant be”, escrito em 1684, um dos mais antigos da hinodia batista.
                   Apelando à classe média inferior inglesa, Bunyan transmitiu para a posteridade muito do que era nobre no Puritanismo britânico.
                   Em seu livro, Bunyan descreve a viagem de “Christ-ian” (Cristão), da Cidade da Destruição para a Cidade de Deus, passando pelo Desfiladeiro do Desespero, a Aldeia da Moral, a Colina da Dificuldade, o Vale da Humilhação, a Feira das Vai-dades e o Rio da Morte, usando citações e alusões bíblicas.
                   Em 1987, em São Paulo, tomamos conhecimento da existência de uma gravação, em disco LP, da “moralidade” de Vaughan Williams, baseada na alegoria de Bunyan, feita sob a regência de Adrian Boult.
                   Agora, graças ao mecenato praticado pelo nosso amigo Rosber Neves Almeida, temos a gravação, em disco CD de 20-bit, realizada em 1997, com o Coro e a Orquestra da Royal Opera House, regidos por Richard Hickox.
                   O compositor britânico Ralph Vaughan Williams (1872-1958) tinha compilado canções folclóricas e organizado edições de música religiosa inglesa, além de compor sinfonias e óperas. Impressionado pela busca de Bunyan, VW refletiu sobre a fé puritana e a ética evangélica em seus dias; podemos comparar a arenga evangélica e a ideologia burguesa do século 21.
                   VW teve a ideia de compor uma ópera baseada em “O Peregrino”; ela surgiu em 1906 quando compôs uma melodia para a canção “Who would  true valour see, let him come hither”, que Bunyan pôs na boca do personagem “Cristão”.
                   Outros episódios foram compostos entre 1925 e 1936, quando VW parece ter decidido que alguns temas seriam aproveitados em sua Quinta Sinfonia (1943); vários temas da sinfonia aparecerão na “moralidade” (1951).
                   Depois de 45 anos, VW viu concretizar-se o seu sonho: em 26 de abril de 1951, no Covent Garden, em Londres, ocorreu a estréia da obra, dividida em prólogo, quatro atos e epílogo.
                   O compositor insistiu que a obra destinava-se ao pal-co, e não ao templo.
                   Apesar de suas deficiências dramáticas, a obra ofere-ce esplendor musical: no prólogo, quando o Pererino entra e grita: “Que farei?”; nas cenas da “House Beautiful” (Ato I) e da “Vanity Fair” (Ato III); no monólogo do Peregrino na prisão; no episódio das “Delectable Mountains” (Ato IV); nos “aleluias” do Peregrino. Os “quatro vizinhos” de Bunyan contrastam com os “três amigos” de Jó.
                   VW compilou o libreto; à alegoria de Bunyan, fez vá-rias adições, extraídas dos Salmos e outras fontes bíblicas; usou o nome “Peregrino”, ao invés de “Cristão”, porque conce-bia o personagem principal como alguém muito interessado na vida espiritual ... O propósito de sua obra era alcançar todos os que se preocupam com a vida espiritual. Alguns versos foram escritos por Ursula Vaughan Williams. Ela admitiu que seu mari-do tinha sido ateu durante o curso na universidade de Cambrid-ge, e que mais tarde tornara-se agnóstico.
                   Embora trate de assunto religioso, a obra de VW não pertence ao gênero sacro (ver: Herbert Murrill, “Vaughan Willi-ams’s Pilgrim”, Music & Letters, XXXII, 1951, p. 324).     
                   Filho de pastor anglicano, VW conhecia bem as tradições musicais; compôs melodias para hinos do “The English Hymnal” (1906) e “Songs of Praise”.
                   “O Peregrino” termina quando o personagem “Bunyan” chega ao centro do palco e apresenta um livro aos espectadores, dizendo: “Este livro fará de ti um viajante; ele te conduzirá à Terra Santa, se quiseres entender as suas instruções; então, vem, e põe o meu livro junto à tua cabeça e ao teu coração”  
                   Recomendamos esta obra de Vaughan Williams alertando para a circunstância de que, embora seja religiosa, não é sacra.                                      

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Brasília, DF, 08 de agosto de 2016.

Rolando de Nassau.

Assista a trecho da ópera:

sábado, 15 de abril de 2017

Capelania Militar: A História dos Quatro Heróis Capelães




Na madrugada do dia 3 de fevereiro de 1943, às 00:55, o navio USAT Dorchester, viajando num comboio, foi torpedeado pelo submarino alemão U-223, no Atlântico Norte.

O torpedo destruiu o sistema elétrico, deixando às escuras o navio. O pânico gerou-se entre os homens a bordo, muitos deles ficaram presos por baixo do convés. Carregado de soldados norte-americanos que iam a caminho da frente de batalha na Europa, durante a II Guerra Mundial, o navio com rombos, metia muita água e começou a adornar para estibordo. Instalou-se o caos. A rádio estava avariada. Os soldados corriam dum lado para outro, em círculos, apavorados. Muitos foram para o convés, sem o colete salva-vidas. Barcos salva-vidas viraram-se, e as balsas afastaram-se, antes que alguém pudesse alcançá-las.

Mais tarde, alguns dos sobreviventes disseram que parecia haver apenas uma pequena ilha de ordem em toda aquela confusão: o convés do navio USAT Dorchester, a estibordo, onde estavam quatro Capelães.

George L. Fox (15 de março de 1900 - 3 de fevereiro de 1943), pastor metodista, Alexander D. Goode (10 de maio de 1911 - 3 de fevereiro de 1943), rabino judeu, John P. Washington (18 de julho de 1908 - 3 de fevereiro de 1943), padre Católico e o reverendo Clark V. Poling (7 de agosto de 1910 - 3 de fevereiro de 1943), da Igreja Reformada nos Estados Unidos da América, calmamente, distribuíam coletes e guiavam os homens aterrorizados para os barcos salva-vidas. Os capelães procuraram acalmar os homens e organizar uma evacuação ordenada do navio e também guiaram os homens feridos para a segurança. E iam distribuindo coletes de salvação.

Quando já não havia mais coletes de salvação, antes que todos os náufragos tivessem um, os quatro capelães despiram os seus e deram-nos a quem mais precisava deles. Um dos últimos homens a deixar o navio olhou para trás e viu-os de pé, firmes. Abraçados, seguravam-se no convés. No meio da ululação das ondas, as suas vozes ainda ressoavam ao orarem em latim, hebraico e inglês. Como disse um marinheiro: “Foi a coisa mais impressionante que jamais vi, ou espero ver.”

Um sobrevivente disse mais tarde ter ouvido o choro de centenas de homens implorando, orando e fazendo promessas. Os capelães diziam palavras de ânimo e de confiança. “A voz deles era a única coisa que me fazia prosseguir”, disse ele.

Eles ajudaram a tantos homens quanto podiam a metê-los nos botes salva-vidas, e com os braços entrelaçados, em seguida, orando e cantando hinos, afundaram-se com o navio.

“Enquanto eu nadava para longe do navio, eu olhei para trás. As chamas tinham iluminado tudo. A proa subiu ao alto e depois deslizou para baixo. A última coisa que eu vi, foram os quatro Capelães a orar pela segurança dos homens. Eles fizeram tudo o que podiam. Eu não voltei a vê-los novamente. Eles próprios não tinham possibilidade de salvação sem coletes salva-vidas.” — relato de Grady-Clark, sobrevivente.

Ao todo, dos 904 homens a bordo do navio, apenas 230 foram resgatados.

O que pôde manter os quatro Capelães calmos no meio daquele inferno? A paz com Deus. “Sendo, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus por nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5:1 ARC, Pt) A palavra hebraica para paz é shalom, cujo radical quer dizer “estar completo.” Quando estamos em paz, estamos completos. Nenhuma ansiedade vai perturbar-nos. Nenhum temor destruirá a nossa alegria interior. Nenhuma preocupação extinguirá a nossa felicidade espiritual. Em qualquer circunstância, Deus oferece-nos o dom da Sua paz. “Uma pessoa em paz com Deus e com os seus semelhantes não pode ser uma pessoa infeliz. …O coração em harmonia com Deus eleva-se acima dos aborrecimentos e das provas desta vida.” – in “Testemunhos Para a Igreja, vol. 5, pág. 488.” “Tu conservarás em paz aquele cuja mente está firme em Ti; porque ele confia em Ti.” (Is 26:3 ARC, Pt) Que dádiva! A paz de Deus pode ser nossa, hoje!


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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

Este texto é de livre utilização, desde que a sua ortografia seja respeitada na íntegra porque já está escrito com o Português do Novo Acordo Ortográfico e que não seja nunca publicado nem utilizado para fins comerciais; seja utilizado exclusivamente para uso e desfruto pessoal.