quinta-feira, 4 de março de 2010

A PARÁBOLA DA LARANJEIRA


Por João White
Em sonho eu viajava por uma estrada sem movimento. De um lado e do outro, havia verdadeiros bosques de laranjeiras; carreira após carreira estendia-se sem fim, até se perder de vista. Estavam carregadas de belas frutas, maduras, pois era tempo de colheita.

Minha admiração crescia a cada quilometro percorrido. De que maneira se conseguiria fazer a colheita? Lembrei-me de que, até então, durante todo o trajeto, não tinha visto viva alma. Não havia ninguém nos laranjais, e eu não tinha passado por outro carro. Não se viam casas à margem da estrada. Eu estava sozinho em meio a uma floresta de laranjeiras.

Afinal vislumbrei alguns trabalhadores colhendo as frutas. Longe da estrada, quase no horizonte, perdido no vasto ermo de frutas a colher, pude distinguir um pequenino grupo de colhedores trabalhando diligentemente. Quilômetros adiante vi outro grupo. Não posso garantir, mas tive a impressão de que a terra debaixo de mim tremia de gargalhadas silenciosas diante da impossibilidade da tarefa. Contudo os trabalhadores prosseguiam em sua tarefa de apanhar laranjas.

O sol já desaparecia no ocaso e as sombras se alongavam quando, dobrando uma curva da estrada deparei uma placa com os dizeres: “Limite do Município Negligenciado com o Município Interno.” O contraste foi tão gritante que mal consegui ler a placa. Tive que reduzir a marcha, pois, de repente, o tráfego tornou-se intenso. Pessoas aos milhares formigavam pela estrada e abarrotavam as calçadas. Mas notável ainda era a transformação que se observava nos laranjais, que ali também havia, repletas de laranjeiras, porem agora, longe de estarem abandonados, estavam cheios de riso e do canto de multidões de gente. De fato, era o povo e não as laranjeiras que me chamavam a atenção: povo, e também casas.

Estacionei o carro à margem da estrada e juntei-me à multidão. Vestidos elegantes, sapatos confortáveis, ternos caros e camisas bem talhadas me fizeram sentir-me constrangido em minhas roupas de trabalho. Todo o mundo aparentava ar festivo e jovial.

“É feriado?” perguntei a uma senhora bem vestida.

Ela me fitou por um momento surpresa; depois, sorriu, condescendente:

“O senhor é de fora, não?” E antes que eu pudesse responder, prosseguiu: “Hoje é o Dia da Laranja.”

Ela deve ter notado a minha perplexidade, pois continuou: “É tão bom deixar nossos trabalhos, um dia por semana, para apanhar laranjas.”

“Mas não colhem laranjas todos os dias?” perguntei.

“Podemos fazê-lo a qualquer tempo”, retrucou. “Devemos estar sempre prontos para colher laranjas, porem o Dia da Laranja é consagrado especialmente a este mister.”

Deixei-as e penetrei mais no meio das árvores. A maior parte das pessoas levava um livro, muito bem encadernado em couro, com bordas e letreiro dourados. Pude ler na beira de um desses livros: “Manual do Apanhador de Laranjas”.

Mais à frente, notei que, em volta de uma das laranjeiras, tinham arranjado assentos, dispostos em círculos ascendentes, a partir do chão. Os assentos estavam quase todos ocupados, mas, assim que me aproximei do grupo, um cavalheiro sorridente e bem vestido estendeu-me a mão e me conduziu a um lugar vago.

Havia uma porção de pessoas em volta daquela laranjeira. Uma delas se dirigia aos que estavam sentados, e, no momento em que eu chegava a meu lugar, todo o mundo ficou em pé e começou a cantar. O homem a meu lado estendeu em minha direção seu livro de cânticos, que era intitulado: “Canções dos Laranjais”.

Cantaram durante algum tempo; o dirigente abanava os braços com estranho fervor, exortando o povo, nos intervalos entre os cânticos, a cantar mais forte.

Cada vez mais perplexo, perguntei ao meu vizinho: “Quando é que vamos começar a apanhar laranjas?”

“Não vai demorar muito”, disse-me ele. “Gostamos de entusiasmar todo o mundo primeiro. Além disso, queremos que as laranjas se sintam à vontade”.

Pensei que ele estivesse pilheriando, porém seu olhar era bastante sério.

Finalmente, o dirigente do canto entregou a palavra a um gorducho que leu dois parágrafos de seu bem manuseado Manual do Apanhador de Laranjas, e a seguir começou a fazer um discurso. Não entendi bem se ele se dirigia ao povo ou às laranjas.

Furtivamente, olhei ao redor e vi diversos outros grupos, parecidos com o nosso, cada qual reunido em torno de uma laranjeira e ouvindo discursos de outros gorduchos. Algumas árvores não tinham ninguém ao redor.

“De que pés nós colheremos?”, perguntei ao homem sentado a meu lado. Ele pareceu não entender, e então apontei as laranjeiras em volta.

“Nossa árvore é esta”, respondeu ele, apontando a laranjeira em redor da qual nos achávamos reunidos.

“Mas nós somos muitos para colher de uma árvore só!” protestei. “Há mais pessoas do que laranjas!”

“Mas nós não colhemos as laranjas”, explicou meu companheiro. “Nós não fomos vocacionados. Isso é serviço do “Pastor Apanhador de Laranjas”. Nós estamos aqui para apoiá-lo. Nós não fizemos o curso. Para ser bem sucedido em apanhar uma laranja, a pessoa precisa saber como a fruta pensa – psicologia larânjica, não sabe? A maior parte das pessoas aqui (apontando para os assistentes) nunca freqüentou a Escola do Manual.”

“Escola do Manual?” sussurrei. “Que é isso?”

“É aonde vão para estudar o Manual do Apanhador de Laranjas”, esclareceu meu informante. “É muito difícil; gastam-se anos de estudo para entendê-lo bem”.

“Então é assim?” murmurei. “Eu não fazia idéia de que fosse tão difícil apanhar laranjas”.

O gorducho, lá na frente, ainda estava fazendo seu discurso. Estava agitado; parecia que estava indignado a respeito de alguma coisa. Ao que pude entender, havia rivalidade entre outros grupos e o dele. A seguir, com indisfarçável orgulho, declarou:

“Mas não estamos abandonados. Temos muitos motivos para dar graças a Deus. Na semana passada, vimos três laranjas trazidas para o nosso balaio, e acabamos de liquidar toda a dívida das novas capas que ornam as almofadas em que vocês estão assentados neste instante”.

“Que maravilha, não?” disse o homem a meu lado. Eu não respondi. Senti que alguma coisa devia estar profundamente errada. Tudo aquilo me parecia ser uma forma muito esquisita e confusa de se colherem laranjas.

O gorducho estava atingindo o clímax de seu discurso. O ambiente estava tenso e então, com um gesto dramático, ele estendeu a mão em direção a um dos galhos, apanhou duas laranjas e depositou-as na cesta que estava a seus pés. Os aplausos foram ensurdecedores.

“Agora nós começamos a colher?” perguntei a meu companheiro.

“Ora, o que é que o senhor supõe que estamos fazendo?” Perguntou ele. “Todo esse esforço, a que o senhor imagina que se destina? Há mais talento para se colherem laranjas neste grupo do que em todo o restante do Município Interno. Milhões de reais têm sido gastos com a laranjeira que está diante de nós.”

Apressei-me a pedir desculpas. “Eu não estava censurando”, falei; “e tenho certeza de que o gorducho deve ser muito bom apanhador de laranjas, mas nós outros não podíamos experimentar também? Afinal de contas, há tantas laranjas que precisam ser colhidas. Todos nós temos duas mãos, e podíamos ler o Manual”.

“Quando o senhor estiver no negócio tanto tempo quanto eu, compreenderá que não é assim tão simples”, respondeu ele. “Para começar, não temos tempo. Temos nosso serviço a fazer, nossa família a cuidar, nossa casa a zelar. Nós…”

Mas eu não estava mais escutando. A luz começava a raiar em minha mente. Fosse o que fosse essa gente, apanhadores de laranjas é que não eram. Para eles a colheita de laranjas não passava de um tipo de divertimento de fim de semana.

Experimentei mais alguns dos grupos em redor das laranjeiras. Nem todos tinham padrões acadêmicos tão elevados para colhedores de laranjas. Alguns davam aulas sobre a matéria. Procurei contar-lhes das laranjeiras que eu tinha visto no Município Negligenciado, mas não parecia que lhes interessava muito.

“Ainda não colhemos todas as laranjas daqui”, era a resposta mais comum.

Em meu sonho, o sol começava a surgir no horizonte. Cansado de tanto barulho e movimento, entrei no carro e comecei a voltar pela mesma estrada. Logo cheguei aos vastos e abandonados laranjais.

Havia, porém, uma diferença. Algo tinha acontecido na minha ausência. Por todos os lados o chão se cobria de frutas caídas. E, enquanto eu olhava, pareceu-me que as árvores começavam a chover laranjas. Muitas delas jaziam apodrecendo…

Senti que, em tudo isso, havia alguma coisa de muito estranho; e me sentia ainda mais confuso ao lembrar-me de toda aquela gente do Município Interno.

Então, ressoando por entre as árvores, ouvi uma voz que dizia: “A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, pois, ao senhor da seara que mande trabalhadores…”

E acordei, pois era apenas um sonho.

Este texto foi transformado em folheto pela Missão Novas Tribos do Brasil.

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