sábado, 19 de abril de 2008

SOBRE A “INFALIBILIDADE” PAPAL


Recentemente, todos os veículos de comunicação noticiaram que o Papa Bento XVI confessou que o Papa não é infalível. Isso fez com que muitas pessoas sem formação teológica pensassem que, finalmente, temos um Papa que não se julga o inerrante dono da verdade. Mas é ledo engano. A Igreja Católica nunca negou que o Papa é um ser humano normal, do qual se pode esperar desde as maiores virtudes, aos piores vícios. Paralelamente, porém, alardeia aos quatro ventos que o Papa é infalível. Há, nisso, alguma incoerência? Para posicionar-se quanto a se há ou não incoerência nisso, você precisa entender o que a Igreja Católica está querendo dizer, quando afirma que o Papa é infalível. Por infalibilidade papal, deve-se entender apenas, que o Papa está em condição de fazer uma pronunciação infalível, e que ele a fará, sempre que isso se fizer necessário. Fora disso, seus atos e suas opiniões são discutíveis, pois podem estar ou não, certos. Isso significa que não adianta enumerarmos as muitas incoerências entre os Papas, bem como as diversas atrocidades (incestos, homicídios, adultérios, blasfêmias, simonias, falcatruas, megalomanias, vigarices, falsidades ideológicas, sadismo, crueldades, etc.) dos Papas, intuindo, com isso, provar que o Papa não é infalível. Quando assim fazemos, os Padres percebem logo que estamos falando do que não entendemos, e prontamente nos rebatem, dizendo que “o Papa também erra, e que a Igreja Católica não nega isso”. E isso embaralha a cabeça do evangélico, bem como de todos os que não entendem a fundo essa questão. Estes perguntam: Afinal, a Igreja Católica prega ou não prega que o Papa é infalível? E a resposta é a seguinte: Depende. Depende?! Sim, depende. Como assim?! Vou lhe explicar: Ele é, mas não é; e não é, mas é. Isso significa que quando ele julga necessário recorrer ao carisma de infalibilidade que Deus lhe teria delegado, então ele lança mão desse recurso, e faz uma pronunciação ex-cátedra, a qual é, por isso, infalível, pondo fim a toda e qualquer discussão sobre o assunto até então discutível. Quando isso ocorre, a doutrina em questão, até então discutível, vira dogma. E dogma não se discute, visto que o Papa estava fazendo uso do poder de infalibilidade de que é investido, quando posicionou-se teologicamente sobre a tal questão. Na maioria das vezes, porém, os Papas preferem não lançar mão desse poder que Deus lhes teria dado, por cujo motivo, a maior parte das doutrinas de fé da Igreja Católica, constantes até dos Catecismos oficiais, ainda não são artigos de fé, isto é, não são dogmas, por não serem uma solene pronunciação ex-cátedra; podendo, por isso, serem alteradas, e até abandonadas.
Se perguntarmos a um católico típico se há uma possibilidade de o Papa cometer todos os tipos de erros, ele seguramente dirá que sim. Mas, se perguntarmos se o Papa é infalível, ouviremos, com certeza, o mesmo sim, visto que, doutro modo, será atípico. E, na ótica dele, não há nisso incoerência alguma, pois crê que apesar de o Papa ser um homem falível, ele nunca erra, quando faz uma pronunciação ex-cátedra, isto é, em nome de seu Santo Ofício Pastoral, em pleno uso do carisma de infalibilidade inerente ao seu cargo de Pastor universal, Bispo dos Bispos, e Doutor da Igreja. O porquê dessa infalibilidade, reside no fato de que (segundo se crê), nesse caso, o Papa não fala de si mesmo, mas é o Espírito Santo quem fala através dele. Mas, o que os católicos não percebem, é que se deveras ele pode cometer todos os tipos de erros (o que a Igreja Católica não nega), então há uma possibilidade de ele dizer que está falando inspirado pelo Espírito Santo, estando, na verdade, falando de si mesmo, ou inspirado por um demônio. E se a Igreja Católica disser que isso é impossível, então ela é incoerente, já que confessa que o Papa é um ser humano normal, do qual se pode esperar de tudo.
Se a infalibilidade papal é um ponto facultativo ao Papa, da qual ele lança mão quando bem quer, por que ele não opta por sê-lo ininterruptamente? Nós, Pastores evangélicos, cometemos inúmeros erros. Todavia, deve-se-nos perdoar, pois somos seres humanos falíveis, e não temos como nos tornarmos infalíveis nem por um segundo sequer. Entretanto, os Papas são indesculpáveis, já que erram por que querem, pois há neles um poder incomum: o carisma de infalibilidade. Eles têm este recurso não só à mão, mas na mão; e servem-se desse poder sempre que julgam conveniente. E eles erram? Bem, as muitas incoerências entre os Papas, provam que sim, visto que Deus não se contradiz. E, como sabemos, a Igreja Católica não nega que os Papas erram. E há incoerências entre os Papas? Sim, há. Para não cansá-lo com uma estafante lista, veja só este exemplo: O cientista italiano Galileu Galilei, defensor da tese de que o nosso sistema é heliocêntrico (tese esta que também fora proposta pelo astrônomo Copérnico), teve que dizer até que é o Sol que gira em torno da Terra (geocentrismo), já que a isso foi forçado pelo “infalível” Papa Paulo V (1605 – 1621) e, mais tarde, por outro nada menos “inerrante”, o Papa Urbano VIII (1623 – 1644), que assim determinaram, sob pena de morte na fogueira da famigerada Santa Inquisição. Mas hoje, nenhum Papa prega o geocentrismo, pois todos sabemos que o correto é o heliocentrismo. Logo, os Papas Paulo V e Urbano VIII, erraram, o que não é negado por nenhum católico, segundo me consta. Aclarando: Já que os Papas pararam de queimar os “hereges”, pergunta-se: Eles estavam certos e agora estão errados, ou estavam errados e agora estão certos? Seja qual for a resposta, aqui está a prova de que Papa é falível. E assim temos o registro de dois erros ao mesmo tempo: a) erraram por defender uma teoria que já se confirmou como falsa; b) erraram por achar que tinham o direito de assassinar os que não cometiam o erro que eles, de defender o geocentrismo. Logo, há incoerências entre os Papas. E, como sabemos, onde há incoerência, há erro, visto que duas opiniões diametralmente opostas, não podem estar igualmente certas. E eu não estou censurando-os por serem falíveis ou por terem falhado, mas sim, admirando-me do fato de não se envergonharem de se autoproclamarem infalíveis, mesmo com a ressalva de que só o são quando falam ex-cátedra.
Os Papas só recorrem ao carisma de infalibilidade de que estão investidos, diante de questões extremamente sérias? E essa questão de matar os “hereges” não era suficientemente séria para merecer uma análise à luz do carisma de infalibilidade do qual, segundo crêem, são dotados por Deus? Ah, eles são seres humanos, passíveis de todas as falhas próprias dos mortais, inclusive à falha de não recorrer à infalibilidade que lhes foi outorgada por Deus, quando deveriam recorrer! Nesse caso, o Papa seria também passível do erro de dizer que falou ex-cátedra, em nome de seu Santo Ofício Pastoral, como autêntico sucessor de São Pedro e representante de Cristo, inspirado pelo Espírito Santo, e, portanto, de modo infalível, sem sê-lo de fato? Se sim, então os dogmas não são indiscutíveis; e se não, então é incoerente dizer que os Papas são passíveis de todas falhas próprias dos mortais. Pensem nisso os que ainda pensam, para deixarem de dizer que dogma é indiscutível, visto ser impossível que esteja errado, já que quem o sancionou foi o Santo Papa. Em nome de Jesus, deixem essa estultice! Pela compaixão de Deus, parem de lorotas!
Bem, vimos que os papas só recorrem ao carisma de infalibilidade que Deus lhes conferiu, quando isso se faz imprescindível. Vimos, também, que via de regra eles não lançam mão deste recurso; e que, por isso, a maior parte das doutrinas católicas, não são dogmas. E, por não serem dogmas, são discutíveis, podem sofrer ajustes e reajustes, e, inclusive, podem ser abandonadas. Por exemplo: O Padre pode ou não pode se casar? A resposta é: Já pôde, não pode, e é possível que volte a poder. Por que? Porque o celibato imposto pela Igreja não é dogma. E por que não é dogma? Porque os Papas ainda não quiseram emitir um parecer infalível sobre este assunto. Isto significa que os Papas ainda não sabem se isso é ou não certo. A qualquer hora dessas, portanto, eles podem liberar o casamento, mesmo sem saberem se estão fazendo ou não a coisa certa. Por quê? Porque assim como sem recorrerem ao carisma de infalibilidade inerente a seus cargos de Bispo universal, determinaram e mantêm o celibato clerical, nada impede que eles, sem lançarem mão da infalibilidade, liberem o casamento aos clérigos. E se isso ocorrer, a dúvida continuará. Mas, por que eles agem deste modo? Claro, eles fazem assim, porque querem que assim seja, pois podem emitir um parecer infalível, com peso de uma irrevogável e indiscutível ordem do Espírito Santo, por ser a vontade absoluta de Deus. Mas, não o fazem. Por que será? Caro e respeitável leitor, sendo um dogma uma pronunciação infalível, não pode ser revogado, visto que fazê-lo, constituiria uma prova de que o Papa não é infalível coisa nenhuma. Logo, não transformar esse e outros pontos que exigem cautela, em dogmas, é prudente, visto deixar margem para um possível jogo de cintura, isto é, enquanto o povo estiver aceitando bem essa situação, vai ficando assim; e, caso se perceba que o povo está se escandalizando com esse troço, e por isso emigrando dessa seita, resolver-se-á o problema, antes que a “Igreja” acabe, liberando o casamento ao clero. Entendeu? E o que acabei de dizer sobre o celibato clerical, pode ser dito sobre diversas outras questões.
Não há nada mais esquisito do que o Papa e os Bispos de todo o mundo, reunidos em um conclave extraordinário, da envergadura do Concílio Vaticano II, presidido por um infalível, cujo inerrância é extensiva aos Bispos presentes ao Concílio (a Igreja Católica prega que a infalibilidade papal é extensiva aos Bispos em comunhão com ele, principalmente em um Concílio Ecumênico [Catecismo da Igreja Católica, op. cit., p. 255]), e então tomarem decisões que são exaradas no Catecismo oficial dessa Igreja, mas com a ressalva de que nem tudo que esse Catecismo contém, é dogma, visto que nem tudo é ex-cátedra. E, que portanto, tudo que está contido no dito Catecismo, é verdade de fé, mas nem tudo é artigo de fé. Tudo é doutrina da Igreja, mas entre assas doutrinas há aquelas que não são dogmas. E o porquê disso, é que o Papa e os Bispos não quiseram que todas as decisões fossem ex-cátedra. Mas por que não quiseram ser infalíveis em tudo, já que podem sê-lo quando bem querem? Por que eles nos ensinam algo que pode não estar certo, e que portanto, poderá sofrer alterações que oscilem desde uma simples melhora, à rejeição total, se eles estão em condição de fazer uma pronunciação infalível? Por que eles nos ensinam algo que pode não estar certo, se eles estão em condição de só nos passar a verdade? Se estão com a faca e o queijo na mão, por que agem como se não estivessem? Seria tão bom, se todo o conteúdo do Catecismo, tim-tim por tim-tim, fosse ex-cátedra! Neste caso, nada poderia ser revogável, mas isso não seria inconveniente. Para quê, mudar a verdade? É preferível uma verdade eterna, a uma “verdade” de “fé” que pode ser trocada por outra “verdade” diametralmente oposta à “verdade de fá” que a precedeu. As inverdades não são boas nem mesmo por um curto espaço de tempo. Ó, Papa, troca, por favor, todas as verdades de fé, pelos artigos de fé, ou seja, pelos inerrantes dogmas que só tu podes produzir! Faze-nos este favor! Isso não te custa nada. O mesmo tempo que tu gastas para falar algo falível, gastas para falar ex-cátedra.

CONCLUSÃO
Essa tal de infalibilidade papal é algo estranho à Bíblia, e, portanto, ao Cristianismo original. Neste não se cria que o “cardeal” Paulo, tivesse que ser seguido cegamente (Confere com At 17.11). E nem ainda o “Papa Pedro I”, era visto como portador de uma visão transcendental, inalcançável pelos demais seres humanos, por cujo motivo exigiam dele explicações razoáveis (Confere com At 11. 1-18).
Não siga cegamente a quem quer que seja. Raciocine! Pense! Não existe homem algum infalível! Leia a Bíblia como livre intérprete. Não aceite nada que lhe pareça absurdo. Quando você diverge de alguém, seja lá quem for, o errado pode, sim, ser você; mas também pode ser a pessoa de quem você diverge.
Quem se julga infalível, seja lá quem for, precisa de ajuda. Ajudemo-los, pois!

Pastor Joel Santana

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2 comentários:

v.carlos disse...

Aí Sammis Reachers mt obrigado pelo elogio e pelo toque...

Bem consegui o que queria (fui provocado!). Preciso de uma imagem bonita e saúdavel para colocar no topo, confesso que a da mesquita não ficou legal (ainda + por ser de origem islâmica). Mas está bonita, por enquanto...

Vlw amigão!
fique na Graça

Faculdade de Teologia disse...

Muito interesante seu post!!! Que Deus continue lhe usando poderosamente!!!!!!!!!!
Abs!
Faculdade Teológica